Políticos, o que vocês estão fazendo com suas equipes?

Foto mostra aperto de mão
Foto: Pixabay

Semana passada eu estava no Compol, o maior evento de comunicação política do Brasil, que ocorreu em Florianópolis. Apresentei a palestra “A jornada emocional de um candidato”, resultado das pesquisas conduzidas para o livro “Cabeça de Candidato”, escrito em parceria com minha amiga Iracema Rezende e com lançamento previsto para setembro. Basicamente, tentando explicar para uma plateia de políticos e assessores que candidato também é gente e que gente, às vezes, surta. A ideia é impedir o seu candidato de surtar, e, se puder, aproveitar das fragilidades emocionais do adversário. No meio da minha apresentação, fiz uma comparação com uma frase já batida: “não se mente para médico nem para advogado”, e defendi que políticos também não deveriam mentir para seus assessores. Afinal, esconder informações de quem toma decisões por você é, no fim das contas, sabotar as chances de sucesso.

E foi aí que a coisa ficou curiosa. Uma boa parte da plateia sacou os celulares e começou a filmar esse trecho, com um ar quase triunfante. Não era para postar no Instagram, não, senhor. Era gravação séria, daquelas com propósito estratégico, sabe? Para mostrar para alguém. E eu pensando: “Gente, calma! Eu não sou a Taylor Swift da comunicação política!”. Sou só um cara que trabalha nisso há alguns anos e que, abusando da sorte, tenta fazer uma piada sem azedar o clima da reunião.

Se a plateia está gravando um sujeito como eu falando que “não pode mentir para o assessor”, é porque precisam de uma prova, de uma evidência. Como se fosse preciso um especialista de fora para validar algo que deveria ser óbvio: mentir para quem trabalha com você é, no mínimo, contraproducente.

Aí a ficha caiu. Se você precisa de um “estranho” para convencer seu chefe a não mentir, desculpa, mas isso não é equipe. É um reality show político onde a mentira virou “estratégia”.

Ninguém quer ser o chato que diz “não” para ideias malucas (mesmo quando esse “não” poderia salvar a eleição). No mundo ideal, o candidato seria um rei iluminado cercado por sábios conselheiros. Mas, na realidade, ele é mais um bebê mimado num palco, com um ego do tamanho de um estádio, que prefere um aplauso a uma boa reflexão. E aí que o bicho pega: os conselhos sensatos ficam presos na garganta do assessor, que vira babá de ego do chefe em vez de gestor de crises.

Imagina a cena: o assessor chega na segunda-feira, mostra o vídeo para o deputado e diz: “Olha, doutor, o fulano lá do evento falou que o senhor não pode mentir para mim!”. E o deputado, com toda a certeza, responde: “Ah, é? E quem é esse cara?”. “Não sei, doutor, mas ele falou bonito e o pessoal aplaudiu.”

Parece que precisamos de um manual de instruções para não darmos um tiro no pé. A verdade é que transformamos a política num ambiente tão tóxico que até o bom senso precisa vir com pedigree.

O que me intrigou não foi só o ato de retirar o celular, mas a forma como o fizeram. Aquela gravação com cara de munição, sabe? “Olha aqui, deputado, até esse cara que eu nem conheço está dizendo isso!”. Como se a validação externa valesse mais do que a sanidade da relação de trabalho.

E não estou falando de segredos de Estado ou de planos mirabolantes. É o básico: se você está numa crise, conte para quem está te ajudando a sair dela. Se tem um problema de saúde, avise quem organiza sua agenda. Se fez uma besteira, alerte quem vai ter que lidar com o estrago. Não é física quântica, gente, é sobrevivência política!

Mas criamos uma cultura onde o político acredita que “proteger” o assessor da verdade, ironicamente, é característica de um líder. A ideia de proteger alguém mantendo-o desinformado soa quase como um ato de bondade, não é? Pensar que omitir informações para preservar a infalibilidade da equipe é uma estratégia… Bom, o resultado, invariavelmente, é o mesmo: decisões tomadas com base em dados incompletos, erros acontecendo, e no fim, a pergunta inevitável: por que a campanha fracassou?

De certa forma, o assessor vive um drama noir cotidiano. Testemunha as artimanhas, vê o desastre iminente, mas mantém uma expressão impassível. Na linha de frente do circo político, observa, em silêncio, as “pérolas” do chefe. E quando ele se atreve a engolir um “tudo resolvido” com um sorriso forçado, é porque o medo de perder o emprego aperta o estômago. Esse medo do contraditório, em si, é quase um vírus: sintoma de um ecossistema disfuncional, diria. A figura do assessor bajulador? É como quem entra na caverna do monstro só para afagar sua cabeça. Minha avó sempre dizia que eu sou lindo de qualquer jeito, mas mesmo assim, não saio de casa sem pentear o cabelo. Nossos líderes têm seus cúmplices de luxo, que trocam feedbacks honestos por tapinhas nas costas. E o resultado? Políticos cada vez mais distantes da realidade, tão alheios ao mundo real que só conseguem ver o próprio reflexo.

A ironia maior é que, no fim das contas, quem mais sofre com essas omissões são os próprios políticos. Afinal, mentir para aqueles que deveriam ser seus aliados os transforma, sem querer, em adversários. É como jogar futebol com os olhos vendados e esperar que o time faça um gol!

Talvez o que mais me incomode em tudo isso seja: não que os políticos sejam inerentemente mentirosos. Mas, de alguma forma, construímos um ambiente onde a mentira se tornou um método de trabalho. Onde omitir informações virou uma espécie de cuidado, e manter a equipe na ignorância é, pasme, uma estratégia.

E então, surge alguém, em um evento qualquer, expondo uma obviedade qualquer, e todos sacam seus celulares como se fosse a descoberta do século! Como se alguém, enfim, tivesse inventado a roda, ou descoberto que o fogo queima.

A verdade é que a política brasileira está tão habituada à confusão que a clareza se torna notícia. A honestidade básica entre colegas de trabalho? Vira conteúdo viral. É como se estivéssemos todos participando de um experimento social onde o comportamento normal precisa ser reaprendido.

Naquele momento, os celulares apontados para mim não estavam registrando uma revelação bombástica. Estavam documentando o óbvio, que, por algum motivo, se tornou revolucionário. Estavam registrando a prova de que, em algum lugar, alguém ainda acredita que trabalhar em equipe significa, literalmente, trabalhar em equipe.

E se isso precisa ser validado por um forasteiro em uma palestra, talvez seja o momento de repensarmos não apenas a forma como fazemos política, mas como nos relacionamos uns com os outros. Porque, no fim das contas, um gabinete que funciona na base da mentira tem a solidez de um castelo de cartas.

Quem sabe, em alguns anos, não precisaremos mais de “especialistas” para lembrar aos políticos que mentir para a própria equipe é uma ideia terrível. Quem sabe, retornaremos a um tempo em que isso era tão evidente que nem precisava ser dito. Mas até lá, podem contar comigo. Afinal, aparentemente, sou especialista em dizer que água molha.

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