Essa história de que as juventudes são o futuro, às vezes, é só mais um papo para deixá-las longe dos espaços de poder que realmente importam. Essa história de que somos jovens, inexperientes e sonhadores demais para algumas decisões também faz parte da mesma lógica.
Somos, sim, o futuro, mas também somos o presente, e esse presente precisa ser escutado e ecoado para que o processo de tomada de decisão seja verdadeiramente legítimo e participativo, com, por e para as juventudes. E foi isso que significou a Plenária das Juventudes nos Biomas, um processo de escuta descentralizada dos jovens da Mata Atlântica, para que a Mata Atlântica seja representada como um bioma central, potente e importante na COP 30, que acontece em novembro no Pará, com dois jovens que foram escolhidos como representantes oficiais desse bioma.
O preparatório para COP 30 através da Plenária das Juventudes nos Biomas, aconteceu na semana passada, em Belo Horizonte, e foi realizado em 6 cidades brasileiras ao longo do semestre passado. Em BH, ocorreu por meio de uma parceria entre a Diretoria de Juventudes da Subsecretaria de Direitos Humanos da prefeitura e a Secretaria Nacional de Juventude (SNJ), do governo federal.
Foi uma alegria poder ver Belo Horizonte sendo protagonista dessa agenda, diante de tantas outras capitais que poderiam representar a Mata Atlântica. O evento ocorreu nos dias 4 e 5 de agosto, no Centro de Referência da Juventude, com painéis com os temas “O papel do Brasil na COP” e “Qual Mata Atlântica queremos”, com propostas sendo elaboradas em grupos de trabalho.
A Plenária discutiu, ainda, pontos atuais como o popularmente chamado “PL da devastação”, que foi votado no Congresso Nacional e flexibiliza regras para licenciamento ambiental no Brasil. Ao final, houve a eleição dos dois jovens para serem os representantes oficiais da Mata Atlântica na COP, com a participação custeada pela SNJ. Terminamos a Plenária no Parque das Mangabeiras, contemplando a grandeza e imensidão da Mata Atlântica, reforçando a importância de sua preservação.
A Diretoria de Juventudes da PBH tem tratado a pauta da sustentabilidade e dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) como estratégica para as juventudes. Nas Nações Unidas, as juventudes são reconhecidas como um dos principais multiplicadores da famosa Agenda 2030 — que reúne os 17 ODS, fundamentais para que possamos alcançar um mundo verdadeiramente mais sustentável.
O grande problema é que, ao longo dos anos, essa agenda ficou muito centralizada no nível da União e não foi devidamente desdobrada para os níveis locais — especialmente para as cidades, que são, de fato, o espaço onde o dia a dia acontece e onde os problemas são vivenciados.
Por isso, muitas vezes, esses objetivos não se transformaram em metas e indicadores palpáveis para cada município.
Tomemos como exemplo o ODS 1, de Erradicação da Pobreza: o que exatamente significa esse objetivo para Belo Horizonte?
Territorializar os ODS é parte fundamental para alcançar os resultados necessários da Agenda 2030. Essa é, na minha percepção, um dos principais motivos pelos quais essa agenda ainda não chegou, com a força que deveria, aos espaços onde realmente importa. Priorização e vontade política também são elementos cruciais, evidentemente, para avanço dessa agenda.
Falar de desenvolvimento sustentável não é falar somente de meio ambiente, mas de vida digna, especialmente para quem mais precisa. Afinal, são as populações mais vulneráveis as primeiras atingidas pelo agravamento da crise climática, e isso inclui as lentes de gênero, raça e classe, que precisam estar profundamente interseccionadas nesse debate. Por isso, discutir a Agenda 2030 tem tudo a ver com a pauta de Direitos Humanos.
A juventude é reconhecida pela ONU como pilar essencial dessa agenda de desenvolvimento sustentável, porque somos nós que estaremos neste mundo enfrentando as mudanças climáticas que se agravam a cada dia. Aliás, não apenas mudanças — trata-se de uma emergência, pois estamos falando de uma situação que se intensifica diariamente, da qual não é possível voltar atrás e em que cada minuto conta no cronômetro.
Por que ‘juventudes’?
Pode soar estranho, do ponto de vista da norma culta, usar o termo “juventudes” no plural. Mas essa escolha é intencional: ela demarca que não existe uma única juventude, homogênea e uniforme. As juventudes são plurais, compostas por realidades profundamente distintas, marcadas por territórios, culturas, condições socioeconômicas, identidades e formas de organização diversas. Cada juventude carrega demandas absolutamente diferentes – e ignorar essa pluralidade é apagar vozes.
A juventude indígena, por exemplo, enfrenta desafios distintos da juventude quilombola; a juventude da periferia urbana vive dilemas que não são os mesmos da juventude rural. E todas essas vivências precisam ser contempladas para que a representatividade seja real, e não apenas formal.
É por isso que insistimos em dizer “juventudes” no contexto das políticas públicas e da participação social: para garantir que cada território, com sua especificidade, seja ouvido e tenha lugar nos espaços de decisão. Reconhecer a pluralidade não é detalhe semântico – é condição para a justiça e para a efetividade das ações.
Carrego comigo uma verdade que me guia: a cabeça só pisa onde o pé pisa e ninguém cura a dor que não sente. Essa é a força da representatividade – cada jovem leva sua dor, sua geografia, seu sonho para os espaços que importam. Muitas vezes só conseguimos enxergar nosso próprio horizonte hermenêutico e é justamente por isso que representatividade importa tanto.
E, no entanto, conviver com essa potência exige enfrentar um cenário difícil com milhares de jovens que afirmam não gostar de política. O problema desse afastamento é que “quem diz não gostar de política, acaba sendo dominado por quem diz gostar dela”, afinal, a política está em tudo ao nosso redor, das pequenas às grandes decisões sobre nosso futuro e se esquivar da participação social só irá nos afastar do mundo que realmente sonhamos.
Os dados mostram que a participação política dos jovens e a confiança nos mecanismos e instituições, é cada vez menor. De acordo com a pesquisa coordenada pelo Observatório da Juventude na Ibero-América, o descrédito com a política foi apontado como o ítem de menor importância dentro da realidade dos jovens brasileiros atualmente, a pesquisa também mostrou o grau de confiança em cada uma das instituições. Entre os entrevistados, 82% não confiam nos partidos políticos, nem no Congresso Nacional (80%), governo (69%) e Presidência da República (63%).
A falta de confiança nas instituições políticas também reflete em uma baixa participação quando o assunto é o voto. Do total de entrevistados, 39% afirmaram que não votaram nas últimas eleições e 72% disseram que nem mesmo conversaram sobre temas políticos.
Essa combinação de apatia e desconfiança não é só estatística, é terreno fértil para quem quer que os jovens sejam meros espectadores, enquanto outros decidem por eles.
Quando Amanda e Gaio, jovens escolhidos na Plenária em Belo Horizonte, chegarem à COP30, não levarão apenas propostas: levarão símbolos, demandas, histórias — e o claro recado de que a juventude quer , e deve, ser parte ativa da construção do presente e do futuro.