Quando a cor da pele vira fator de risco no Brasil

Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

No Brasil atual, a cor da pele ainda influencia diretamente as chances de alguém continuar vivo. Pesquisa recente realizada pela Universidade de São Paulo (USP) revelou um dado contundente: pessoas negras têm 49% mais chances de morrer assassinadas do que pessoas não negras. O estudo analisou milhares de registros oficiais de homicídios e aplicou métodos estatísticos rigorosos, controlando variáveis como renda, território e contexto social. Mesmo assim, a desigualdade permaneceu evidente. Isso reforça uma constatação incômoda, porém objetiva: a cor da pele segue sendo um fator de risco no país.

O resultado não surge de forma isolada. Ele confirma uma tendência já observada em diversos levantamentos nacionais ao longo dos anos. No Brasil, a maioria absoluta das vítimas de homicídio é composta por pessoas negras, sobretudo homens jovens residentes em áreas periféricas. Esse padrão se mantém de forma persistente, inclusive em períodos em que os índices gerais de violência apresentam queda. Quando o total de homicídios diminui, a redução entre pessoas negras costuma ser menor, o que amplia ainda mais a desigualdade.

O diferencial da pesquisa da USP está em afastar explicações simplistas. Ao demonstrar que a diferença permanece mesmo quando fatores socioeconômicos são controlados, o estudo indica que não se trata apenas de pobreza, escolaridade ou local de moradia. Há elementos estruturais que seguem produzindo resultados desiguais. Esse dado exige um debate sério, baseado em evidências e responsabilidade institucional, longe de disputas ideológicas ou narrativas polarizadas.

Ignorar essa realidade ou relativizar seus efeitos é um erro estratégico. Países que conseguiram reduzir de forma consistente seus índices de violência enfrentaram o problema com diagnósticos precisos e políticas públicas orientadas por dados. No Brasil, o debate sobre segurança pública historicamente oscilou entre discursos punitivos pouco eficazes e abordagens genéricas sem foco territorial. O resultado é conhecido: altos índices de homicídio e um padrão claro de seletividade das vítimas.

Reconhecer que pessoas negras morrem mais não significa dividir a sociedade ou atribuir culpas individuais. Significa reconhecer falhas na capacidade do Estado de proteger seus cidadãos de maneira equilibrada. A desigualdade racial nos homicídios é um indicador direto de onde as políticas públicas não estão chegando com a mesma intensidade, qualidade e continuidade.

Outro aspecto que precisa ser enfrentado com seriedade é a relação entre violência letal e ação estatal. Dados oficiais mostram que a letalidade policial atinge de forma desproporcional a população negra. Isso não implica criminalizar instituições, mas aponta a necessidade de revisão de protocolos, investimentos em formação continuada, uso de tecnologia, inteligência policial e mecanismos eficazes de controle e transparência. Segurança pública eficiente não se mede apenas por prisões ou confrontos, mas pela capacidade de preservar vidas e reduzir conflitos.

Além da atuação policial, políticas sociais bem estruturadas são parte essencial da solução. Educação básica de qualidade, acesso ao ensino técnico e profissionalizante, estímulo ao emprego formal e investimentos em infraestrutura urbana produzem efeitos diretos e duradouros na redução da violência. Não se trata de assistencialismo, mas de prevenção baseada em evidências e planejamento de longo prazo.

O sistema de justiça também desempenha papel central. Homicídios sem investigação adequada e crimes não solucionados alimentam ciclos de violência e descrédito institucional. Ampliar a taxa de elucidação de homicídios, fortalecer a investigação criminal e garantir igualdade de tratamento no acesso à Justiça são medidas indispensáveis para romper a sensação de impunidade.

Políticas públicas eficazes exigem metas claras, monitoramento contínuo e avaliação de resultados. Experiências locais demonstram que a integração entre segurança pública, educação e assistência social em territórios mais vulneráveis gera impactos concretos. O desafio é transformar iniciativas pontuais em políticas de Estado permanentes, e não em ações temporárias ou sazonais.

A pesquisa da USP cumpre um papel fundamental ao trazer dados objetivos para o centro do debate público. Ela não acusa indivíduos, mas evidencia um padrão mensurável. Cabe agora ao poder público, à sociedade civil e às instituições decidir o que fazer com essa informação. Negar a desigualdade racial na violência é manter o problema intacto. Enfrentá-lo com responsabilidade é o primeiro passo para reduzi-lo.

Enquanto a cor da pele continuar influenciando a probabilidade de alguém ser assassinado no Brasil, o país seguirá distante de um patamar mínimo de justiça e segurança. Não se trata de ideologia, mas de eficiência do Estado, proteção da vida e compromisso com a realidade dos dados. A violência não é um destino inevitável. Ela é, em grande medida, consequência de escolhas — e também pode ser reduzida por elas.

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