Quando tudo parece causa, mas nem sempre é

O Hospital João XXIII
Entre a evasão de Auditores Fiscais e a água invadindo um hospital, há um Estado que perdeu capacidade de investir, planejar e agir de forma estratégica. Foto: Gabriel Nascimento/ALMG

Há uma tentação recorrente no debate público contemporâneo: transformar coincidências em certezas. Vemos dois fenômenos ocorrerem juntos e, quase automaticamente, traçamos uma linha reta entre eles. É o velho equívoco entre correlação e causalidade, um erro simples, mas com consequências profundas.

A estatística já nos brindou com exemplos clássicos. Há correlação entre o consumo de sorvete e o número de afogamentos. Conclusão apressada: sorvete mata. Evidentemente, não. O que conecta ambos é o calor. Dias quentes aumentam tanto o consumo de sorvete quanto a presença de pessoas em piscinas e praias, elevando a probabilidade de afogamentos. Mas e o elo causal?

Outro exemplo. Pode haver correlação entre o número de filmes em que um ator aparece e acidentes em piscinas ao longo de determinados anos. Trata-se de mera coincidência estatística, sem qualquer relação de causalidade. Ainda assim, o cérebro humano insiste em construir narrativas onde há apenas sobreposição de dados.

Esse mesmo raciocínio, ou a falta dele, costuma contaminar análises de políticas públicas.

Nos últimos dias, reportagens destacaram os impactos das chuvas intensas em Belo Horizonte. Entre os episódios mais alarmantes, nessa quarta-feira, 8 de abril, a água invadiu estruturas críticas, afetando inclusive o funcionamento do Hospital João XXIII, referência em atendimento de urgência e emergência na capital.

Diante de cenas como essa, a explicação imediata parece óbvia. Choveu demais. E, de fato, eventos climáticos extremos têm se intensificado. Mas será essa a única variável relevante?

É aqui que vale provocar. A redução do número de Auditores Fiscais gera inundação em hospitais?

A resposta, incômoda e intelectualmente honesta, é simples. Depende.

Isoladamente, não. Não existe uma relação direta e imediata entre a ausência de Auditores Fiscais e o transbordamento de um sistema de drenagem. Seria absurdo afirmar isso.

Mas, ao ampliarmos a análise, o cenário muda de forma significativa.

Comecemos por um ponto sólido, amplamente sustentado pela teoria e pela prática em gestão pública. Estruturas de carreira frágeis, remuneração incompatível com as responsabilidades do cargo e insegurança remuneratória não apenas se correlacionam, como também provocam evasão de talentos. Isso não é mera hipótese teórica. Trata-se de consenso entre especialistas.

No caso dos Auditores Fiscais em Minas Gerais, esse diagnóstico tem sido reiterado. Uma carreira com fragilidades, que perdeu competitividade remuneratória em relação a seus pares, tende a perder profissionais. Simples assim.

E o que acontece quando há evasão?

Menos Auditores Fiscais significam menor capacidade de fiscalização. Menor fiscalização implica mais espaço para sonegação, ineficiência e perda de receitas. O resultado é previsível. Queda na arrecadação. Não por acaso, a arrecadação do Estado de Minas Gerais tem ficado abaixo da previsão orçamentária, cenário que poderia ser diferente.

Até aqui, não há salto lógico, apenas encadeamento causal.

Agora, avancemos.

Com menos recursos, o Estado passa a operar sob restrições crescentes. Investimentos em infraestrutura são adiados. Obras de drenagem são postergadas. A manutenção preventiva cede lugar à atuação reativa. Estruturas que já operam no limite tornam-se ainda mais vulneráveis.

Nesse contexto, quando eventos extremos ocorrem, como as chuvas recentes, o resultado deixa de ser apenas um transtorno e passa a ser um colapso.

É nesse ponto que a cadeia se fecha.

Não é a falta de Auditores Fiscais que causa diretamente a inundação, mas ela integra um sistema de fatores que, ao longo do tempo, fragiliza a capacidade do Estado de responder a eventos críticos.

Portanto, a pergunta inicial, provocativa por natureza, revela algo mais profundo. Políticas públicas não falham por um único fator isolado. Elas falham pelo acúmulo de decisões, por ação ou omissão, muitas vezes invisíveis no curto prazo.

Confundir correlação com causação é perigoso. Mas ignorar cadeias causais complexas é ainda pior.

Entre o sorvete e o afogamento, há o verão.
Entre a evasão de Auditores Fiscais e a água invadindo um hospital, há um Estado que perdeu capacidade de investir, planejar e agir de forma estratégica.

E essa talvez seja a conexão mais urgente de compreender.

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