A reunião de condomínio acabou. E agora?

"Na vida real, a maioria das pessoas não acompanha de perto as negociações, as siglas, os parágrafos de um acordo internacional". Foto: Tânia Rêgo / Agência Brasil

Imagine o prédio em que você mora preparando a festa de fim de ano do condomínio. Pintura nova, flor no vaso, convite bonito no grupo de WhatsApp. Os moradores se arrumam, o síndico se prepara, o salão fica cheio de gente importante. No meio da festa, aparece um convidado de fora, participa, come, bebe e vai embora. Depois comenta que o prédio é meio desorganizado, diz que está feliz de ter voltado pra casa e que prefere o prédio dele. Quem mora ali sente na hora uma mistura de incômodo e injustiça. Sim, afinal, o prédio tem problemas, infiltração, elevador que vive parando, brigas entre vizinhos, mas só quem mora ali sabe o esforço diário para manter tudo em pé.

A COP30 em Belém se parece muito com essa festa de condomínio planetário. De 10 a 21 de novembro de 2025, chefes de Estado, negociadores, ativistas e jornalistas se reuniram na capital paraense para discutir o futuro do clima na primeira COP realizada em plena floresta tropical, com o Brasil assumindo o papel de anfitrião e liderança climática. Para preparar a cidade, governos investiram pesado em infraestrutura, aeroporto, vias, parques, saneamento, revitalização urbana, algumas obras com impactos positivos, outras cercadas de polêmica, inclusive denúncias de desmatamento associado à abertura de novas vias ligadas ao evento. O mundo inteiro olhando para Belém, o prédio inteiro olhando para o próprio espelho.

É nesse contexto que entram as falas do chanceler alemão, Friedrich Merz. Ao comentar sua passagem por Belém, ele disse que os alemães ficaram contentes de poder deixar a cidade e voltar para casa, o que foi entendido como crítica direta à cidade e à organização do evento. Depois, veio a tentativa de explicar que tudo não passou de um comentário sobre cansaço de viagem, mas a frase já estava repercutindo, gerando reação do presidente Lula, que sugeriu que o chanceler deveria ter saído para dançar, conhecer melhor a cidade e sentir sua vida cultural antes de comparar, de forma apressada, Belém a Berlim.

No fundo, o episódio diz muito menos sobre Belém e muito mais sobre como parte da elite política global ainda enxerga o mundo. É como aquele parente que visita nossa casa simples, vê primeiro o azulejo antigo e só depois repara no almoço caprichado, na mesa cheia, na família reunida. A Amazônia, com suas contradições, pobreza, calor úmido, trânsito caótico e, ao mesmo tempo, riqueza cultural, biodiversidade, gente criativa, não cabe em um comentário apressado depois de um voo longo. E se o mundo vai se reunir em uma cidade amazônica para falar de clima, a primeira lição básica deveria ser a de respeito a quem mora lá.

E aqui cabe um adendo de que este artigo originalmente foi escrito antes do fatídico incêndio de ontem, em um dos pavilhões do evento, que assustou as pessoas e obrigou a evacuação de todos os participantes. Apesar de ter sido controlado rapidamente, sem feridos, ele expôs fragilidades importantes de planejamento e segurança. Na metáfora do condomínio, é como descobrir, no meio da festa, que a fiação do salão não aguenta o som ou que o extintor está vencido. Incidentes assim não diminuem o mérito da conferência na Amazônia, mas lembram que organização impecável não se constrói só com grandes obras e infraestrutura. Um evento global que discute o futuro do planeta não pode falhar no básico.

Mas também seria fácil demais transformar tudo em guerra de narrativas entre Brasil e Alemanha, Belém e Berlim, governo e opositores. O desafio mais interessante é aproveitar o episódio como ponto de partida para pensar o que a gestão pública tem a ensinar à própria COP30, e ao debate climático em geral.

Na vida real, a maioria das pessoas não acompanha de perto as negociações, as siglas, os parágrafos de um acordo internacional. Elas sentem o clima pela conta de luz que aumenta nos períodos de estiagem, pela enchente que invade a rua, pelo calor que transforma o ônibus lotado em uma sauna, pela fruta que encarece na feira porque a safra foi prejudicada. Quando ouvem falar em COP, muitas vezes parece uma reunião distante, em inglês, que termina com um documento complexo e poucas mudanças visíveis no dia a dia.

Do ponto de vista da gestão pública, esse é um problema sério de comunicação e foco. A COP30 discute temas importantíssimos, como financiamento climático para países pobres, metas de redução de emissões e estratégias para uma transição justa que não jogue milhões de pessoas no desemprego. Ao mesmo tempo, para quem está na fila do posto de saúde ou em uma escola sem ventilador, tudo isso parece abstrato demais. Falta traduzir as grandes decisões em políticas concretas, com começo, meio e fim, no território.

Belém é um exemplo vivo dessa contradição. De um lado, a cidade ganhou visibilidade internacional, investimentos em infraestrutura, obras de saneamento, melhorias em espaços públicos. De outro, surgiram críticas de que parte dessas intervenções privilegiou áreas turísticas, hotéis, corredores de acesso a delegações, enquanto a população de sempre continuará convivendo com problemas antigos. É a velha pergunta do morador: melhorou para quem?

Uma gestão madura, especialmente em um contexto de reforma do Estado, precisa aprender a olhar para um evento como a COP não como fim em si, mas como oportunidade de acelerar mudanças estruturais. Isso significa usar o foco internacional para fazer aquilo que deveria ser feito de qualquer forma, mas com mais velocidade, transparência e participação. Melhorar saneamento porque é obrigação com a população, não apenas vitrine para os visitantes. Revisar o sistema de transporte porque a cidade precisa ser mais humana o ano inteiro, não somente por duas semanas durante um evento importante.

Outro ponto onde a gestão pública pode ensinar a COP é na definição de prioridades e metas claras. Um bom plano de governo não é uma lista infinita de promessas, e sim um conjunto de objetivos com prazos, orçamento e indicadores. No clima, isso significa ir além dos discursos sobre “salvar o planeta” e traduzir acordos em ações mensuráveis. Quem faz o quê, até quando, com qual dinheiro, e como a sociedade poderá cobrar.

Na COP30, muito se falou sobre transição justa, combate à pobreza e importância da agricultura familiar e dos pequenos produtores na construção de um modelo de desenvolvimento que concilie produção de comida e proteção do meio ambiente. Só que esses mesmos agricultores seguem recebendo uma fatia mínima do financiamento climático global. É como anunciar um grande programa social sem garantir cadastro, agência bancária, equipe para acompanhar, sistema para avaliar resultados. Um olhar de gestão pública ajuda a enxergar essa incoerência.

Há também lições na forma como o poder público lida com participação social. Em Belém, durante a COP30, manifestações coloridas, com indígenas, jovens, movimentos sociais e trabalhadores rurais ocuparam as ruas, pedindo ação concreta, proteção dos rios e respeito às comunidades locais. Muitas vezes, esses atores ficam à margem das mesas mais importantes de negociação, mas são eles que vivem, na pele, o impacto das decisões. Uma boa gestão sabe que escutar incomoda, atrasa a reunião, mas aumenta a chance de a política funcionar na prática.

Nesse sentido, cabe também uma crítica construtiva à própria dinâmica da COP. A conferência ainda é pesada, burocrática, cheia de siglas que afastam o cidadão comum. O risco é virar um grande congresso de especialistas falando entre si, com poucas pontes com as pessoas que voltam para casa e precisam decidir se vão usar o ar condicionado ou o ventilador, o carro ou o transporte coletivo, a carne todo dia ou com mais parcimônia. Um dos papéis de governantes e equipes técnicas deveria ser justamente traduzir esses debates, com linguagem simples e foco em escolhas reais, tanto individuais quanto coletivas.

E o que tudo isso tem a ver com a fala infeliz do chanceler alemão? Tudo. Porque ele, como qualquer autoridade, também deveria se ver como gestor público pedagógico. Quando um líder estrangeiro participa de uma conferência na Amazônia, sua responsabilidade não é apenas negociar metas, mas também mostrar respeito, curiosidade, disposição para aprender. Ao comentar de forma genérica que ficou “feliz em ir embora”, ele reforça estereótipos sobre a região e faz o contrário do que uma boa liderança pública deveria fazer, que é aproximar mundos diferentes, não afastá-los.

Ao mesmo tempo, o Brasil também tem responsabilidades nesse diálogo. Não basta se indignar com a crítica e defender Belém com orgulho, algo necessário e legítimo. É preciso mostrar, na prática, que aprender com quem mora na região é tão importante quanto assinar qualquer acordo. Proteger a floresta, combater o desmatamento ilegal, apoiar povos indígenas e populações ribeirinhas, fortalecer a ciência e a fiscalização, tudo isso é parte da lição de casa da nossa própria gestão pública, independentemente do que digam chanceleres estrangeiros.

Se voltarmos à imagem do condomínio, a COP é aquela grande assembleia em que o prédio discute gastos, reformas e regras de convivência. Não faz sentido sair dela apenas comentando que o vizinho do quinto andar está mal vestido ou que o elevador é feio. O que importa é quem saiu com as tarefas anotadas, quem se comprometeu a trocar a fiação antiga, a instalar energia solar, a cuidar do jardim coletivo e a ouvir o porteiro, que vê tudo todos os dias.

Talvez o maior legado que a COP30 em Belém possa deixar seja esse aprendizado simples, quase doméstico. Gestão pública é, em boa parte, saber cuidar de casa, com responsabilidade e sensibilidade. É garantir serviço público de qualidade para quem mora ali hoje e para quem ainda vai nascer. É usar a visibilidade global para fazer reforma de verdade, não apenas maquiagem. E é entender que não existe solução para o clima sem olhar para o cotidiano de quem pega ônibus, quem planta, quem pesca, quem vive nas margens do rio e das grandes cidades.

Se a política internacional aprender algo com Belém, não será apenas sobre metas em graus Celsius ou bilhões de dólares em fundos climáticos. Será sobre respeito, prioridade e compromisso com resultados concretos. No fim das contas, é isso que toda boa gestão ensina, seja em uma pequena cidade amazônica, seja em uma grande capital europeia, seja no prédio em que a gente mora. O planeta também é um condomínio. E está na hora de a assembleia, COP após COP, sair menos preocupada com o tapete da entrada e mais focada em consertar os vazamentos que ameaçam toda a estrutura.

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