Escrevo este artigo sob o som constante da chuva que cai nas janelas de Belo Horizonte, com a cabeça pesada pelas imagens que atravessaram o país nesta semana: mais uma megaoperação policial no Rio de Janeiro, desta vez nos complexos da Penha e do Alemão, que interrompeu aulas, fechou comércios, incendiou ônibus e, sobretudo, multiplicou ausências. Os números ainda se movem, como sempre acontece quando o rastro é de sangue: balanços oficiais divulgados em 30 de outubro falam em pelo menos 121 mortos, entre eles quatro policiais, 113 presos, mais de 90 fuzis e mais de uma tonelada de drogas apreendidas. Horas depois, a Comissão de Direitos Humanos do Senado anunciava uma investigação, “a mais letal do estado”, disseram. Cada atualização não é mera estatística: são nomes, famílias, histórias interrompidas. E, no entanto, sabemos que o total ainda vai mudar, como mudou ontem, e como mudará amanhã.
Não vou apontar quem “está certo” ou “errado”, nem distribuir culpas como quem joga confete. Quero falar dos fios que tecem esse pano de fundo, e que quase nunca entram no debate: o planejamento de longo prazo que não acontece, a educação que não chega, a política pública que não se consolida, as instituições que não aprendem com seus próprios fracassos. Não é de hoje que o Rio de Janeiro nos avisa que algo fundamental quebrou. A sucessão de governadores que acabaram presos não é mero “azar histórico”; e tivemos ainda um governador afastado por impeachment. Isso diz de um ecossistema político-institucional que desaprendeu a produzir estabilidade, continuidade e confiança, três ingredientes sem os quais segurança pública vira pirotecnia e política social, retórica.
Sei que há quem reaja dizendo que “bandido bom, é bandido morto”. Sei também que há quem, diante da violência, só enxergue abuso policial. Mas viver de frases prontas não constrói saídas. O que se vê, com dor, é um Estado que falha de muitas formas, simultaneamente: investiga mal e devagar quando precisa investigar melhor e antes; previne pouco quando deveria prevenir muito; comunica mal com quem mais precisa ser escutado; coordena trocas esporádicas entre forças de segurança e políticas sociais, quando deveria coordenar rotinas; e, por fim, mede sucesso por mortes, armas apreendidas e prisões efetuadas, e não por adolescentes que permaneceram na escola e famílias que reconstruíram projeto de vida.
A esta altura, a frase de Darcy Ribeiro já virou tragicamente óbvia, e, ainda assim, negligenciada. “Se os governantes não construírem escolas, em 20 anos faltará dinheiro para construir presídios”, disse ele, nos anos 1980, em meio ao projeto dos CIEPs (Centros Integrados de Educação Pública) e à defesa da escola em tempo integral. Quarenta anos depois, a profecia virou rotina orçamentária: gastamos muito para remediar o que insistimos em não prevenir.
Quando as câmeras entram no morro e saem do morro, a pergunta que sobra é sempre a mesma: o que fizemos entre uma operação e a outra? Quantos itinerários sociais reescrevemos? Quantos vínculos familiares fortalecemos? Quantos professores formamos e mantivemos motivados para, de fato, criar ambientes de aprendizagem que disputem o imaginário e o futuro dessas crianças e adolescentes com a mesma força com que o crime organizado disputa? Se a resposta sincera é “pouco ou quase nada”, então também é sincero admitir que nós, sociedade, governos, elites econômicas e culturais, estamos falhando há décadas.
Os dados da operação desta semana expõem, outra vez, o desequilíbrio das respostas. De um lado, a eficiência tática: helicópteros, blindados, mandados cumpridos, apreensões volumosas. Do outro, a insuficiência estratégica: sem política de juventude combinada com escola de tempo integral, sem urbanismo social que reorganize territórios, sem pactos locais sustentados por anos (não por meses), sem redes de saúde mental, sem cultura e esporte como política de estado, tudo vira enxuga-gelo. A crítica não é à necessidade da ação policial quando é necessária; é à ilusão de que ela, sozinha, “resolve”. Relatórios internacionais e nacionais vêm dizendo isso há muito tempo; a novidade, se há, é que o crime, como toda organização eficiente, aprende com as operações anteriores, se reestrutura, verticaliza fluxos e amplia fontes de receita. A perícia do crime cresce; a política pública, não.
Também não podemos fingir que a nossa política ajuda. A cultura do “anúncio rápido” substitui a cultura do “resultado”; a ansiedade pelo vídeo perfeito mata a paciência. Enquanto a próxima eleição for mais importante que a próxima década, não haverá legado, haverá, no máximo, slogans esquecidos assim que a contagem de likes zerar. E aqui não se trata de lado A ou lado B. Como disse o professor Carlos Bezerra Jr., num diagnóstico que dói pela obviedade:
“Cada lado expondo seus mortos como justificativa para mais vingança e barbárie.
Corpos sem vida sendo usados para alimentar o ódio.
Enquanto uns brigam por narrativas, o crime fica cada dia mais organizado, e direita e esquerda seguem enterrando seus entes queridos.
Porque, no fim, antes de qualquer ideologia, é de humanidade, e de coragem pra fazer o que é certo, que a gente está precisando.”
Enquanto escrevo, penso nos meninos e meninas que hoje não tiveram aula no Rio. Penso nos professores que têm medo, nos diretores exaustos, nas famílias que acordam de sobressalto quando um helicóptero passa mais baixo. Penso, também, no policial que não volta pra casa e na viúva que fica: o Estado que falha, falha para ambos os lados. Quando a política transforma cadáver em munição de rede social, ela nos apequena como comunidade política e nos embrutece como gente.
Nós demos errado como sociedade quando naturalizamos o empilhamento de corpos como pauta de rede social. Demos errado quando um debate sobre segurança se resume a vídeos editados em gabinete e a threads inflamadas. Demos errado quando há mais ambição para a próxima coletiva de imprensa do que para o próximo ciclo de dez anos de políticas públicas integradas, monitoradas e avaliadas. E demos errado, sobretudo, quando o investimento continuado em educação, que deveria ser a espinha dorsal de qualquer projeto, vira refém da conjuntura fiscal do mês e das vaidades do momento.
Então, o que fazer? O óbvio difícil: recuperar a ideia de projeto. Projeto de educação integral, com professor valorizado, carreira atraente e formação consistente; escolas abertas à comunidade, com esporte e cultura como direito; programas de apoio à família e à primeira infância; urbanismo social que reorganize o espaço e diminua vulnerabilidades; redes de proteção que integrem saúde, assistência e oportunidades de trabalho para jovens; inteligência policial combinada com prevenção, metas públicas, transparência e controle externo; justiça criminal que desarticule fluxos financeiros e logísticos do crime. Nada disso é “novo”, o que faltou foi continuidade.
E, sim, haverá próximas operações, porque há armas, há facções, há territórios capturados. Mas “mais do mesmo” nos trouxe até aqui. Mudar o conceito significa admitir que operação é um instrumento, não uma política; que segurança é um sistema, não um evento; que educação é a tecnologia social mais transformadora que já inventamos e que dá retorno, mas no tempo das pessoas, não no tempo dos posts.
Coragem para gestores que topem abandonar a estética da performance e voltem ao planejamento de longo prazo. Coragem para parlamentares que defendam orçamentos críveis para a educação e a proteção social, mesmo quando isso não render likes. Coragem para governadores e prefeitos que aceitem ser avaliados pelo que entregam para daqui dez, quinze anos e não pelo que viraliza em dez minutos. Coragem para a sociedade que, cansada de guerra de narrativas, exija políticas públicas que protejam a vida.
Se é verdade que “a próxima operação é logo ali”, que também seja verdade que a próxima década seja de escola boa, professor respeitado, território cuidado e juventude disputada pelo Estado, pelo trabalho, pela cultura, com a mesma determinação com que o crime a disputa hoje. Sem isso, continuaremos a colecionar balanços, conferências e funerais. Com isso, talvez, voltemos a merecer algo simples e enorme: um futuro.