Segurança pública: quem cuida de quem cuida da gente?

Foto mostra policial militar de Minas
Foto: Cristiano Machado/Imprensa MG

Decidir entrar para a segurança pública é uma escolha que nasce de um misto de coragem, vocação e desejo genuíno de proteger vidas. É assumir, todos os dias, o compromisso de estar na linha de frente, mesmo quando tudo ao redor parece instável.

Mas e quando esse desejo de servir é recebido com desvalorização, falta de estrutura e descaso?

Essa é a realidade de mais de 700 mil profissionais da segurança pública no Brasil. Os desafios enfrentados por esses profissionais transcendem os riscos inerentes à profissão. Mergulhamos em um cenário de precariedade estrutural crônica, onde delegacias e quartéis muitas vezes se assemelham a ruínas esquecidas pelo tempo, com infiltrações, fiações expostas e mobiliário inadequado.

Equipamentos essenciais, como coletes à prova de balas com prazo de validade vencido, armamentos obsoletos e viaturas que falham em momentos críticos, não são exceções, mas sim uma parte angustiante da rotina. Enquanto o crime organizado se moderniza, adota tecnologias avançadas e opera com logística sofisticada, as forças de segurança lutam para manter o básico, operando em uma defasagem que custa não apenas eficiência, mas também vidas, tanto dos cidadãos quanto dos próprios agentes.

Para além da carência material, existe um fardo humano de proporções avassaladoras. As jornadas de trabalho são frequentemente exaustivas, ultrapassando limites legais e fisiológicos, corroendo a saúde física e mental. A exposição contínua a situações de violência extrema, acidentes trágicos e perdas humanas deixa cicatrizes psicológicas profundas, muitas vezes invisíveis aos olhos da sociedade e negligenciadas pelas instituições. O suporte psicológico, quando existente, é frequentemente insuficiente, estigmatizado ou de difícil acesso, deixando um rastro de profissionais sofrendo em silêncio com estresse pós-traumático, ansiedade, depressão e, tragicamente, taxas de suicídio alarmantes.

De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2024, o suicídio se tornou, pela primeira vez, a principal causa de morte entre policiais no Brasil em 2023, superando os óbitos em confrontos. Houve um aumento de 26,2% nos registros entre policiais civis e militares. No caso específico da Polícia Militar, foram contabilizados 110 suicídios em todo o país — número superior ao total de PMs mortos em confronto em serviço (46) e fora de serviço (61), que somaram 107 casos. O crescimento mais expressivo foi registrado nos estados com os maiores efetivos das corporações: São Paulo, com aumento de 80%, e Rio de Janeiro, com impressionantes 116,7%.

Soma-se a isso a questão salarial: remunerações que raramente condizem com o risco assumido e a complexidade da função, gerando endividamento, necessidade de múltiplos empregos e uma constante sensação de desvalorização que mina o moral e a motivação.

A segurança pública no Brasil ainda sofre com a ausência de um financiamento robusto, estável e previsível. Essa instabilidade orçamentária perpetua um ciclo vicioso de improvisação, sobrecarga e ineficiência. Além disso, um dos aspectos mais dolorosos é a ausência de um reconhecimento genuíno e constante. Para além dos aplausos esporádicos após atos de bravura ou tragédias, paira uma cultura que muitas vezes enxerga o profissional de segurança com desconfiança ou indiferença. A complexidade de seu trabalho, os dilemas éticos enfrentados e o sacrifício pessoal envolvido são frequentemente ignorados. Essa falta de reconhecimento social e institucional contribui para um sentimento de isolamento e de ser apenas uma peça descartável em um jogo maior.

Diante desse quadro desolador, a valorização dos profissionais da segurança pública emerge não como um mero pleito corporativo, mas como uma necessidade urgente e estratégica para o próprio futuro da segurança no país. Investir nesses homens e mulheres é investir na própria sociedade.

Profissionais bem remunerados, devidamente equipados, com acesso a treinamento contínuo e, fundamentalmente, com suporte para sua saúde física e mental, são mais motivados, mais eficientes e mais capazes de cumprir sua missão com integridade e respeito aos direitos humanos. Valorizar não é um gasto, é um investimento com retorno direto na redução da criminalidade, no aumento da sensação de segurança e na construção de uma relação de confiança entre a polícia e a comunidade.

Para que essa valorização se concretize, são necessárias mudanças estruturais profundas. A ideia de garantir um financiamento mínimo e estável para a segurança pública, blindado de contingenciamentos e vinculado a percentuais da arrecadação, assim como já ocorre com a saúde e a educação, é um passo fundamental. Esses recursos precisam ser direcionados não apenas para equipamentos e infraestrutura, mas prioritariamente para o capital humano: salários dignos, planos de carreira atraentes, programas robustos e acessíveis de saúde mental, capacitação contínua e condições de trabalho que respeitem a integridade física e psicológica do profissional.

É preciso adotar uma visão integral, que compreenda que a tecnologia e a inteligência são ferramentas poderosas, mas que jamais substituirão o valor de um agente bem preparado, motivado e amparado.

Por isso, estou coletando assinaturas para uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) inédita, de minha autoria. O objetivo é estabelecer um patamar mínimo obrigatório de investimento em segurança pública por parte da União, dos estados, do Distrito Federal e dos municípios. Os recursos previstos devem ser destinados não apenas à estrutura, mas também a salários dignos, programas de capacitação, cuidados com a saúde física e mental dos agentes e à melhoria das condições de trabalho. Mais do que uma simples iniciativa parlamentar, essa proposta representa uma verdadeira possibilidade de revolução na segurança pública.

Em suma, o clamor por dignidade é um chamado à responsabilidade coletiva. Cuidar de quem cuida de nós não é apenas um ato de justiça para com esses profissionais, mas uma condição essencial para a construção de um país mais seguro e justo para todos. A sociedade e seus representantes políticos precisam reconhecer a urgência dessa pauta, superando a visão da segurança como mero gasto e abraçando-a como um investimento estratégico na qualidade de vida e na própria democracia.

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