Trabalho igual, salário desigual: o impacto do gap salarial entre homens e mulheres na economia

Foto mostra mulher em posto de trabalho
Apesar dos avanços legislativos e da crescente conscientização, os números revelam que a diferença de remuneração persiste de forma estrutural e, muitas vezes, silenciosa. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

A desigualdade salarial entre homens e mulheres é uma realidade persistente no mercado de trabalho, tanto no Brasil quanto no cenário global. Mesmo com maior escolaridade e ocupando as mesmas funções, as mulheres continuam recebendo menos que os homens — reflexo de uma disparidade estrutural que ainda remunera de forma desigual, simplesmente pelo fato de serem mulheres.

O Relatório Global de Desigualdade de Gênero 2024 do Fórum Econômico Mundial indica que a paridade na participação e oportunidade econômica entre os gêneros está em 60,5%, o que significa que ainda há uma lacuna significativa para alcançar a igualdade salarial entre homens e mulheres em todo o mundo .​

Diante desse cenário, no Brasil, em 3 de julho de 2023, foi sancionada a Lei nº 14.611, que aborda a igualdade salarial e de critérios remuneratórios entre homens e mulheres no ambiente de trabalho, modificando o artigo 461 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). As empresas com mais de 100 empregados devem adotar medidas para garantir essa igualdade, incluindo transparência salarial, fiscalização contra discriminação, canais de denúncia, programas de diversidade e inclusão, e apoio à capacitação de mulheres, sob pena de sanções. 

Segundo os dados dos Relatórios de Transparência Salarial, o primeiro de março de 2024, as mulheres recebiam 19,4% a menos que os homens, o segundo, de setembro de 2024, apontou uma diferença de 20,7% e o terceiro, de 2025, registrou uma diferença de  20,9%, o que mostra que a desigualdade salarial vem aumentando, sem recuo. 

Segundo dados do Governo Federal, a remuneração média dos homens é de R$ 4.745,53, enquanto a das mulheres é de R$ 3.755,01. A desigualdade se torna ainda mais evidente quando observamos o recorte racial: mulheres negras recebem, em média, R$ 2.864,39 — um valor inferior ao dos homens negros, cuja média salarial é de R $3.647,97. Em comparação com os homens não negros, a disparidade é ainda mais alarmante: em 2024, as mulheres negras receberam apenas 47,5% do que eles ganhavam; em 2023, essa proporção era de 50,3%.

A disparidade salarial entre homens e mulheres é ainda mais acentuada em cargos de direção e gerência, alcançando 25,2%, segundo dados do 3º Relatório de Transparência Salarial.

A desigualdade salarial entre homens e mulheres não é apenas uma questão de justiça social — é um entrave concreto ao desenvolvimento econômico e à construção de uma sociedade mais equitativa. Apesar dos avanços legislativos e da crescente conscientização, os números revelam que a diferença de remuneração persiste de forma estrutural e, muitas vezes, silenciosa.

A sanção da Lei nº 14.611/2023 representa um marco importante, mas sua efetividade depende de implementação rigorosa, fiscalização constante e, principalmente, de um compromisso com a mudança. Empresas, governos e sociedade civil precisam atuar conjuntamente para garantir condições iguais para todos, independentemente do gênero.

O fato de as mulheres continuarem ganhando, em média, quase 21% a menos que os homens, mesmo exercendo as mesmas funções, escancara um sistema de trabalho que ainda valoriza menos o trabalho exercido pelas mulheres. Quando olhamos para mulheres negras, a disparidade é ainda mais alarmante, evidenciando que raça e gênero se cruzam e aprofundam as desigualdades.

Além de injusta, essa disparidade custa caro: em 2024, o Brasil perdeu cerca de R$ 95 bilhões por não garantir igualdade salarial entre os gêneros. Ou seja, combater o gap salarial não é apenas uma exigência ética — é também uma estratégia de fortalecimento econômico e social.  A Organização Internacional do Trabalho (OIT), aponta que o Brasil poderia ampliar sua economia em R$382 bilhões com a adoção de políticas moderadas de igualdade de gênero — valor que poderia dobrar com a plena equidade entre homens e mulheres. O Banco Mundial também alerta que, caso as mulheres tivessem as mesmas oportunidades que os homens no mercado de trabalho, o Produto Interno Bruto (PIB) global poderia crescer mais de 20%.

Trabalho igual deve ser reconhecido com salário igual. A equidade de gênero no mercado de trabalho precisa deixar de ser apenas uma promessa e se consolidar como prática real e efetiva. Eliminar o gap salarial entre homens e mulheres exige ações concretas, compromisso institucional e, sobretudo, transparência nos critérios de remuneração.

Referências: 

BRASIL. Lei nº 14.611, de 3 de julho de 2023. Dispõe sobre a igualdade salarial e de critérios remuneratórios entre mulheres e homens. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 04 jul. 2023. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2023/lei/L14611.htm.

BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Relatórios de Transparência Salarial e de Critérios Remuneratórios – Março/2024, Setembro/2024, Março/2025. Brasília, DF, 2024-2025. Disponível em: https://www.gov.br/trabalho-e-emprego/. 

FÓRUM ECONÔMICO MUNDIAL. Global Gender Gap Report 2024. Geneva: World Economic Forum, 2024. Disponível em: https://www.weforum.org/reports/global-gender-gap-report-2024/.

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