Tributo ao clima: entre as Olimpíadas de Inverno e as chuvas em Juiz de Fora

Bombeiros atuam em Juiz de Fora após fortes chuvas
Chuvas em Juiz de Fora e Ubá reforçam a necessidade de atenção aos sinais do meio ambiente. Foto: Gil Leonardi/Imprensa MG

Estamos em 1988. Brasília celebrava a promulgação da Constituição. Enquanto o referencial programático de uma Constituição cidadã se materializava na Constituição de 1988, em São Paulo Mano Brown e outros artistas erguiam, no rap e no hip-hop, uma voz contra a desigualdade. Surgia o grupo Racionais MC’s, com letras que denunciavam a desigualdade social.

Em 2025, os quatro integrantes dos Racionais MC’s (Mano Brown, Ice Blue, Edi Rock e KL Jay) foram agraciados com o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que reconheceu a importância do grupo, destacando seu impacto no pensamento social brasileiro e sua atuação no combate ao racismo e às desigualdades sociais por meio da música.

Chegamos a 2026. O cenário é de frio e neve no norte da Itália. Milão e Cortina d’Ampezzo são as anfitriãs das Olimpíadas de Inverno de 2026, realizadas de 6 a 22 de fevereiro. Em tempos de realidade virtual e realidade aumentada, as montanhas de neve escondem um silencioso embate entre as escolhas do homem e a reação da natureza, expressa na questão climática, mais especificamente no aquecimento global.

Quando os primeiros Jogos Olímpicos de Inverno foram realizados, em Chamonix, na França, em 1924, todas as 16 modalidades aconteceram ao ar livre, com neve natural nas pistas de esqui e temperaturas abaixo de zero nas pistas de gelo.

Quase um século depois, em 2022, o mundo assistiu a esquiadores competirem em pistas com 100% de neve produzida artificialmente perto de Pequim. Agora, antes das Olimpíadas de Inverno de 2026, na Itália, autoridades mandaram construir grandes reservatórios próximos às principais arenas para garantir água suficiente para a produção de neve artificial, já que as temperaturas mais elevadas afetaram a formação natural de neve.

Para produzir a neve artificial das Olimpíadas de Inverno Milão-Cortina 2026, cerca de 85% da neve será artificial. Estima-se um gasto entre 946 e 948 milhões de litros de água, quase 1 bilhão de litros, além de um grande volume de energia, que, segundo informado, será predominantemente de fonte renovável.

Segundo Steven R. Fassnacht, professor de Hidrologia da Neve na Colorado State University, e Sunshine Swetnam, professora assistente de Recursos Naturais na mesma universidade, as condições ideais para produzir neve exigem temperatura próxima ao ponto de orvalho, com combinação de frio e umidade, em torno de 28 °F, menos 2 °C, o que não tem ocorrido em razão das mudanças climáticas.

Produzir neve e mantê-la congelada exige energia e água, ambos desafios em um mundo mais quente. A água torna-se cada vez mais escassa em várias regiões, e a produção de energia não renovável, especialmente quando proveniente de combustíveis fósseis, contribui ainda mais para as mudanças climáticas e para o aquecimento global.

Ainda em 2026, no mesmo período das Olimpíadas de Inverno, mas no Brasil, o país volta sua atenção à calamidade decorrente das chuvas atípicas em Minas Gerais. Ano após ano, vivenciamos calamidades semelhantes no Brasil, como nos emblemáticos casos de Petrópolis, Porto Alegre e São Sebastião.

As questões climáticas e ambientais têm nos afetado de forma recorrente, como nas recentes chuvas que provocaram caos social em Minas, especialmente na região de Juiz de Fora e Ubá. Um fator determinante foi a temperatura do oceano na costa próxima à região, cerca de 3 °C acima da média, segundo o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, o Cemaden. Esse aquecimento intensifica a evaporação e aumenta a quantidade de vapor d’água, favorecendo a formação de tempestades.

Eventos extremos da natureza sempre ocorreram. Contudo, embora haja possibilidade de boas previsões e ações preventivas, nossas intervenções equivocadas no ecossistema os precipitam e potencializam. E suas consequências tornam-se mais graves em razão das desigualdades e de seus desdobramentos.

Voltando aos Racionais MC’s, quanta desigualdade e conflito de classes nesse cenário de produção de neve artificial e da recente tragédia na região de Juiz de Fora e Ubá. Neste último caso, há dois motivos para que eventos como o ocorrido se tornem tragédias: eventos atípicos da natureza e ação ou omissão do homem. As intervenções humanas no ecossistema geram cada vez mais desequilíbrio e ameaças naturais, ação, e quase nada avançamos quanto à prevenção e à redução de vulnerabilidades e da exposição das pessoas, omissão.

Segundo dados do IBGE, 40% dos lares brasileiros, 27 milhões, sofrem algum tipo de inadequação, falta de saneamento, de estrutura ou outras deficiências, realidade que afeta inclusive repartições públicas, impactando servidores e a população, como no caso recente em Minas Gerais.

As Olimpíadas de Inverno são espetáculos marcados por histórias de determinação e superação por parte dos atletas. Em 2026, inclusive, o Brasil já fez bonito ao conquistar sua primeira medalha de ouro na história dos Jogos Olímpicos de Inverno. Mas como ficam os desabrigados de Juiz de Fora e Ubá, inclusive servidores públicos, e tantos outros sem habitação ou infraestrutura adequada, muitos sem acesso a energia, água tratada e esgoto, ao verem tanta água, energia e recursos serem usados para produzir neve artificial para as Olimpíadas, enquanto aqui faltam recursos para o básico?

Façamos todos a nossa parte, inclusive acompanhando e cobrando soluções para que o povo da Zona da Mata mineira fique bem e para que as repartições públicas se restabeleçam em boas condições de trabalho para os servidores e de atendimento à população.

Vem, vamos embora, que esperar não é saber.
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.

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