Absolutamente ninguém, senão o próprio bufão alaranjado, Donald Trump, é responsável por seus atos tresloucados contra o mundo e, no limite, como reflexo, contra a própria população americana, que pagará, literalmente, o preço pelas tarifas de importação e também pelo isolacionismo em curto e médio prazos, senão longo, caso a política trumpista insana se mantenha após o fim de seu mandato (com ou sem J.D. Vance como sucessor).
Os Estados Unidos da América, outrora porto seguro mundial sob quaisquer pontos de vista – econômico, democrático, cultural etc. -, vive uma experiência inédita desde sua fundação, pois visto hoje como uma nação em que a segurança jurídica não é mais um valor absoluto, o respeito incondicional à opinião política e à liberdade de expressão foi suprimido e mesmo o onipresente e onipotente dólar segue em declínio em relação a outras moedas fortes.
Para o espanto geral global, os tais freios e contrapesos – próprios dos governos tripartites, como o brasileiro, onde os três Poderes devem ser harmônicos e independentes, cabendo ao Judiciário a palavra final – parecem ou não existir nos EUA ou igualmente sob severo ataque da Casa Branca, dobrando-se às vontades tirânicas de um narcisista descontrolado, ainda apoiado por parte significativa da população e do grande empresariado local.
Nossas culpas e culpados
Sim. Parte do Supremo Tribunal Federal (STF) parece exacerbar suas prerrogativas e funções constitucionais, porém, sempre dentro da ilógica lógica permissiva da “interpretação das leis”. Sim. Parte das sentenças supremas causam clamor popular, aparentemente contaminadas pelo popularmente conhecido “duplo padrão moral”, ou seja, seletividade e relativização, a depender do caso e das partes envolvidas nos processos.
Sim. Alguns ministros parecem falar e julgar com o “fígado”. Sim. Alguns ministros atuam supostamente de forma política. Sim. Alguns ministros adoram os holofotes e os microfones e, mais ainda, a ribalta. Sim. Alguns ministros parecem amar mais o poder do cargo do que a letra fria da Constituição que juraram defender. Mas todas essas mazelas são de ordem interna, com reflexos internos, a cargo do crivo nacional e de providências internas.
Temos turmas na Suprema Corte e temos, mais ainda, um Congresso em pleno funcionamento. Aliás, temos um Senado Federal, dotado de poderes constitucionais, para, entendendo ser o caso, promover os devidos ajustes institucionais. Não vivemos sob um ditador nem sob uma ditadura, ainda que falhas grotescas em nossa democracia se façam presentes diuturnamente, atingindo sobretudo os mais necessitados e desassistidos.
Trump, go home
É verdade. Também temos um governo incapaz, irresponsável, inconsequente, conivente com a corrupção, disfuncional administrativa e politicamente falando, mas apenas aos olhos de quase metade da população, pois a outra metade – mais um! – não entendeu assim e elegeu alguém já condenado por corrupção e lavagem de dinheiro, que teve suas penas anuladas posteriormente (pelo mesmo Supremo), presidente da República mais uma vez.
Este mesmo governo, como de costume, adota discursos e práticas antiamericanas, alia-se a ditadores e ditaduras mundo afora, estimula a luta de classes internamente, beneficia aliados políticos, aqui e fora do país, e resolveu brincar de “líder do Sul Global”, adotando um ridículo mapa mundi próprio, atacando com veemência o presidente dos Estados Unidos e, como se não bastasse, propondo uma moeda alternativa ao dólar no comércio mundial.
Mas absolutamente nada disso justifica e autoriza os Estados Unidos, ou melhor, Donald Trump, a promover sanções comerciais e diplomáticas mafiosas contra o Brasil e autoridades brasileiras, por mero capricho psicopata e alinhamento político ideológico ao bolsonarismo. Ambos, Trump e EUA, a despeito do que o próprio declarou, “Eu mando no país (EUA) e no mundo”, não são os donos do Brasil e de nossas mazelas internas.
Encerrando
É inaceitável, sob qualquer pretexto, apoiar ou aplaudir tal ataque contra o país. Já nos basta os messiânicos tupiniquins, sedizentes os “salvadores da pátria”, os “pais dos pobres” e os “guardiões da democracia”. Nossos – graves! – erros podem e devem ser resolvidos sem interferência estrangeira, e não por patriotismo ou ufanismo bocós, mas pela preservação da autonomia e a possibilidade de amadurecimento da sociedade. Do contrário, é melhor voltar a ser colônia.
Este texto, de minha autoria, foi publicado originariamente no O Antagonista, onde sou colunista e comentarista dos programas audiovisuais do portal.
Espero que a sociedade brasileira, independentemente de ideologias, entenda a gravidade do fato e pense de forma lógica e madura.