Um Leão no trono de Pedro: o que há em um nome?

O papa Leão XIV
Leão XIV é lufada de ar fresco num mundo que anda sufocado por polarizações asfixiantes. Foto: Vatican News

Diante do último conclave, vi “especialistas” de plantão cravando favoritos ao papado como se estivessem analisando uma disputa presidencial acirrada, e que vexame! Eles garantiam que Pietro Parolin, o cardeal secretário de Estado, seria the chosen one. Os tarados pela dicotomia esquerda-direita apostavam em Luis Tagle (queridinho dos “progressistas”) ou em Robert Sarah (herói dos “conservadores”), como se o conclave fosse uma disputa cronicamente online entre incels e gays de fórum. No fim, para total perplexidade de ninguém que já tinha certeza na surpresa, habemus um papa vindo dos Estados Unidos. Eu só consigo pensar: de onde esses entendidos tiraram tanta convicção a partir de um conjunto de dados inexistente?

Chutaram, mas chutaram com pose de catedrático. E agora, depois do papelão, ainda vamos ter que ouvir explicações rebuscadas desses mesmos gurus sobre “o que significa a escolha” que pessoas que eles nem conhecem fizeram em uma reunião secreta onde eles nem estavam presentes. É de revirar os olhos. Mais valia ter atribuído a escolha ao divino Espírito Santo desde o início e admitido que previsão de conclave é terreno onde a estatística não se cria: seria mais respeitoso e menos vergonhoso.

Os erros grotescos nas apostas dos palpiteiros têm uma explicação simples: conclave não é campanha eleitoral, por mais que alguns tentem usar modelos estatísticos para ambos. Aqui neste abençoado O Fator já apontei a impossibilidade em tentar aplicar lógica de pesquisa eleitoral à escolha do Papa.

Diferentemente de uma eleição presidencial, em que temos centenas de pesquisas, milhares de entrevistas e dados aos borbotões sobre eleitores, a escolha do Papa acontece a portas fechadas, entre pouco mais de uma centena de cardeais que fizeram voto de sigilo absoluto. Não tem Datafolha, não tem Ibope, não tem agregador do Nate Silver que dê conta: é fumaça preta ou branca e muita conversa em salas fechadas. Favoritos óbvios quase sempre dançam. Historicamente, os maiores papas azarões surpreenderam justamente por não estarem no topo das bolsas de apostas da imprensa.

Desta vez não foi diferente: enquanto muitos comentaristas juravam de pé junto que Parolin ou Tagle levariam, a Capela Sistina teve outros planos. Os observadores externos (sem nenhuma informação de dentro) basicamente jogaram dardos no escuro. Até sites de prediction markets americanos, cheios de gráficos e algoritmos, quebraram a cara, e os mercados de apostas foram pegos de surpresa com a escolha do cardeal de Chicago Robert Prevost como Papa Leão XIV. Em mercados normais, políticos fornecem uma montanha de dados para análises, mas no caso do papa os dados são muito mais escassos, e as previsões viraram pó.

Garbage in, garbage out. A cobertura do conclave, pra quem leva dados a sério, foi um show de horrores. Vi jornalista procurando intenção de voto de cardeal como quem procura Pokémon raro. Teve revista pedindo ajuda até para inteligência artificial chutar as chances de cada candidato papal, num exercício fantasioso. Desespero por cliques ou humor involuntário? Ambos, talvez. No fim, ficou provado: conclave você não prevê; no máximo, assiste, reza e comenta depois que a chaminé cuspir a fumaça branca.

Se os especialistas fracassaram em antecipar quem seria o Papa, agora pelo menos temos dados concretos para analisar o que isso significa. E a primeira pista vem justamente no nome escolhido: Leão XIV. Para os desavisados, pode soar antiquado, afinal, o último Papa Leão (XIII) reinou lá no final do século XIX. Mas para os iniciados, esse nome carrega um simbolismo potente. Leão XIII, lá em 1891, escreveu a célebre encíclica Rerum Novarum, que lançou as bases da doutrina social da Igreja Católica Romana ao condenar tanto o capitalismo selvagem quanto o socialismo revolucionário, buscando um caminho equilibrado. Em bom português, um isentão. Leão XIII não era nem um barão do laissez-faire, nem um ingênuo utópico de bandeira vermelha. Defendeu o direito dos trabalhadores se organizarem em sindicatos, mas também o direito à propriedade privada. Foi um papa do equilíbrio numa época de extremos, um moderado visionário antes mesmo de existir essa palavra em política.

Escolher o nome Leão XIV em pleno 2025 soa quase como uma declaração programática. É como se o novo pontífice dissesse: “vamos revisitar aquele espírito de equilíbrio e lucidez”. Ao evocar Leão XIII, o Papa recém-eleito aponta para a necessidade de diálogo entre opostos, de uma síntese que rejeite tanto os radicalismos de mercado quanto os radicalismos ideológicos. Convenhamos, é uma lufada de ar fresco (ou de fumaça branca?) num mundo que anda sufocado por polarizações asfixiantes. Se era para surpreender, ele conseguiu até no nome.

A escolha de Leão XIV me transporta a outra época de equilíbrio mais próxima de nós: os saudosos anos 1990. Sim, aquela década em que o Muro de Berlim já era pó, a Guerra Fria vira lembrança, e uma onda de pragmatismo moderado tomou conta da política mundial. Foi a era da chamada terceira via, em que líderes de centro adotaram políticas de mercado sem abandonar a justiça social. Os maiores símbolos globais dessa guinada moderada foram Bill Clinton nos EUA e Tony Blair no Reino Unido, e, no Brasil, tivemos nosso próprio expoente em Fernando Henrique Cardoso, que casou estabilidade econômica com inclusão social e diálogo democrático como poucos.

Havia um certo espírito de conciliação no ar naquela época. Clinton triangulava políticas entre republicanos e democratas; Blair falava em “Novo Trabalhismo” sem estatizar tudo; FHC privatizava aqui, criava Bolsa-Escola ali, e buscava um equilíbrio reformista. Não era um mundo perfeito: escândalos, contradições e guerras não faltaram, mas havia, sem dúvida, uma confiança de que o caminho do meio era viável. Olhando em retrospecto, aqueles anos 90 equilibrados parecem ter sido antecipados, em um nível filosófico, lá atrás por Leão XIII e sua Rerum Novarum. A ideia de que dá para rejeitar os dois extremos e construir algo melhor no meio termo unia o papa de 1891 e os estadistas de 1995. Era o consenso possível, a lucidez política em ação.

Corta para 2025: o mundo anda meio órfão desse espírito conciliador. As redes sociais viraram coliseus de extremistas vociferando e lideranças ponderadas andam em falta no mercado. Marqueteiros, agora é a hora de ganharmos a vida radicalizando narrativas, vendendo medo do “outro lado” como combustível político, algo impensável naqueles anos 90 de terceira via. Fernando Henrique, Clinton e Blair hoje soam quase ingênuos ou sem lugar num panorama em que ou você grita ou não é ouvido. Que saudade de quando discordâncias não impediam conversas civilizadas! Infelizmente, esse não é o cenário atual.

Mas eis que, em meio à névoa densa, surge o Papa Leão XIV acenando, quem sabe, para uma volta à lucidez. Ok, sejamos realistas: só o nome de um pontífice não vai pacificar o Twitter ou desarmar os radicais de plantão. Contudo, símbolos importam muito. A escolha de um nome que homenageia um pontífice do diálogo e do equilíbrio é um sinal, ainda que sutil, de esperança. Que Leão XIV nos lembre que é possível, sim, recuperar a lucidez e o espírito conciliador daquela era equilibrada, antes que a fumaça branca da racionalidade se dissipe de vez.

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