Vivemos a onda das campanhas produtoras de conteúdo. Para esse tipo de comunicação, vale tudo para o político aparecer, inclusive deixar de fazer política. Não importa projeto, não precisa de mensagem, muito menos discurso. Dancinha, bastidores, inteligência que transforma o candidato em artificial, tudo cabe se der engajamento, mesmo que negativo.
No contexto em que as métricas são colocadas acima das ideias e o fetiche das ferramentas subordinam a política ao cálculo algorítmico, a meta deixa de ser a construção de confiança e a comunicação passa a ser trivial. Nela, tem vídeo pra tudo, menos para responder à principal questão do eleitor: Por que votar nesse candidato?
O político, iludido, deixar-se levar. Acha que está moderno, que o número de visualização é o mesmo que eleitores e que as curtidas significam votos. Na prática, se torna mero figurante em sua própria campanha. O protagonista passa a ser o algoritmo e quem o defende a qualquer custo: aquele que prometeu transformar tudo em “hype”.
A campanha eleitoral deixa de ser comunicação política e se transforma em produção de conteúdo, pura e simples. Onde seguidor e engajamento são apresentados como se fossem o objetivo final do candidato, agora transformado em influencer. Acontece que é enorme a distância entre gostar de um vídeo e apertar o botão na urna. Mas isso não é mostrado nas belas apresentações de Power Point.
Sim, as redes sociais transformaram a sociedade e, consequentemente, a política. Usá-las, portanto, não é problema. Pelo contrário. O X da questão é a inversão da lógica, ao serem utilizadas como ponto principal e não como ferramenta. Quando a forma devora o conteúdo, o que se tem não é marketing. E enquanto o candidato tiktoker se preocupa com a próxima postagem, na maioria das vezes usando o velho atalho da polêmica, seu adversário faz política, construindo causas e ativando comunidades, não audiências.
O vale tudo pelo like não leva em consideração posicionamento, imagem, muito menos os marcos significativos da disputa, afinal, não viralizam. E quando o resultado aparece, todas as desculpas e culpados são evocados para a falta de votos: da inquebrável polarização até o eleitor que não soube entender o recado do político, um meme ambulante. E enquanto este se ressente pela derrota, o produtor de conteúdo já levou o lucro de mais um “job” usado como laboratório de explosão nas redes e fiasco nas urnas.
A solução? Fazer o que os outros não tem feito: colocar a comunicação a serviço da política e comunicar o simples de forma autêntica, com vínculo e emoção que só são gerados quando há credibilidade. Campanha competitiva é trabalho árduo de pesquisa, planejamento e estratégia. Todo o resto é espuma para vender solução mágica. Cara no início e mais ainda no final.