Conversando com um dos meus três ou quatro amigos de bom coração que ainda sobraram – o querido João Pires, Secretário de Proteção e Defesa do Consumidor da Cidade do Rio de Janeiro e criador do @brasilcontraotigrinho na rede social de fotos de comida e biscoitos em geral -, ele me narrou sua preocupação com os impactos das apostas online no orçamento de muitas famílias brasileiras. Como o cinismo já corroeu minha alma há muito tempo, respondi de modo pragmático: há alguém ganhando dinheiro com isso. Quem precisa agir para parar é quem está perdendo.
Dom Sebastião não voltará para fazer lobby no Congresso Nacional a respeito da regulamentação das apostas. E nem cabe a mim fazer uma avaliação política ou filosófica do que é certo, belo e moral. Gosto, porém, de lembrar do poder da responsabilidade individual na defesa de sua pauta política. Ideias não têm corpo, muito menos pernas, e não andam sozinhas. Alguém precisa carregá-las.
Dados do Banco Central mostram que os brasileiros estão apostando até R$ 30 bilhões por mês em plataformas online. Esse dinheiro, que antes estava na economia tradicional, agora vai para bets. Com a migração de recursos para as apostas online, suponho que até estados e municípios poderiam estar perdendo impostos importantes, como ICMS e ISS. O dinheiro que poderia ser usado para comprar bens e serviços locais está indo para plataformas, muitas vezes em outros países. Isso significa menos receita tributária e menos movimento no comércio local.
O setor varejista já sente os efeitos da redução no consumo. Empresários dizem que os consumidores estão cortando gastos com roupas, alimentos e medicamentos. Eles estão investindo mais em apostas online. A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) diz que as apostas online geram um prejuízo de R$ 117 bilhões por ano. Isso afeta o varejo e os negócios locais. As instituições financeiras também estão em alerta. O aumento das dívidas e da inadimplência entre os apostadores impacta o sistema bancário. A Febraban já expressou preocupação sobre como as apostas online afetam a saúde financeira dos brasileiros.
Diante desse cenário, é imperativo que os setores afetados se mobilizem. Varejistas, fabricantes e instituições financeiras devem se unir. Assim, podem pressionar por regras mais rígidas sobre apostas online. Isso inclui: defender limites para os gastos, reforçar campanhas de conscientização e bloquear acesso a sites ilegais.
As apostas esportivas de cota fixa são agora legais no Brasil. Isso aconteceu com a Lei nº 13.756/2018 e foi regulamentado pela Lei nº 14.790/2023. Nessa modalidade, o apostador conhece antecipadamente o valor que pode ganhar. Os “jogos do tigrinho” são vistos como jogos de azar. Eles são como caça-níqueis digitais e são ilegais no Brasil. Jogos como o tigrinho podem ser manipulados por algoritmos, pois não há regulamentação nem auditoria séria. O jogador acha que é sorte, mas está enfrentando um código-fonte treinado para manter a margem da casa.
Vamos falar da capital mundial do pecado e da jogatina. A Nevada Gaming Control Board exige que cada caça-níqueis use algoritmos auditados de geração aleatória de números (RNG). Esses algoritmos precisam de proteção contra interferência externa. Eles também devem ser testados em laboratórios. Antes de operar, cada máquina é submetida a inspeções e validações. Modificações exigem nova aprovação. Eu não gosto de jogos de azar. Mas adoro Las Vegas. Minha personalidade é baseada em ir a shows — e foi lá que vi o Lionel Richie, Scorpions, Foreigner, Culture Club, Santana, Silk Sonic e Eagles. Também vi o Stevie Wonder, mas a recíproca não é verdadeira.
Las Vegas não é o que você vê em “Se beber, não case”. É meio triste ver o olhar de esperança de cada jovem onanista que chega ao aeroporto Harry Reid achando que vai comer todo mundo e comparar com quem vai embora depois de pagar pra tirar uma foto com uma senhora de maiô de penas ou um moço fordo (meio forte e meio gordo) de sunga de couro. É, porém, a prova de que o jogo, quando bem explorado, pode gerar externalidades positivas. Transformaram um deserto estéril em um polo turístico. Com hotéis, shows, restaurantes, empregos. O dinheiro circula, paga imposto, volta para a cidade. Já aqui, temos o sujeito de camisa furada, comendo uma pizza de micro-ondas, sem tomar banho, apostando pelo celular e mandando dinheiro para uma empresa no Caribe.
Claro, antes que algum iluminado venha me lembrar que estamos em 2025, deixo logo registrada minha confissão: sou, no fundo, um ludita sentimental. Um nostálgico das luzes de neon. Minha preferência pessoal por cassinos presenciais, por espetáculos ao vivo e por garçons de gravata borboleta beira o romantismo de quem acha que o mundo começou a dar errado quando substituímos o baralho de papel pelo aplicativo de “raspadinha interativa”.
Sejamos sinceros: minha opinião vale tanto quanto uma ficha esquecida atrás do sofá do quarto mais fubango do Circus Circus. Porque este texto não é sobre os meus gostos pessoais. Não é sobre analógicos contra digitais, nem sobre moralismo ou nostalgia. Este texto é sobre política. Ou melhor: sobre responsabilidade política.
A tese é simples: ninguém vai militar por você numa causa que você mesmo não teve coragem de defender. Bancos, varejistas e todo o resto da cadeia que está perdendo dinheiro para o tigrinho precisam parar de esperar que o bom senso resolva as coisas. Porque o bom senso, assim como Dom Sebastião, não volta se ninguém for lá buscar.
Aliás, muita gente se diz preocupada em salvar a democracia das tias do zap. Ótimo. Mas talvez devessem se preocupar também com a legião de brasileiros trancados em casa, viciados em joguinhos online, sem sol, sem conversa. Gente que poderia estar socializando, vivendo, passando um talco e um perfuminho. Quem sabe até ouvindo uma ideia diferente.
Se o medo é a fragmentação social, o isolamento, a radicalização algorítmica – talvez valha olhar também para o jogo do panda tocando tambor. Ou será que o problema só existe quando a tia compartilha o vídeo do Xandão editado com voz de pato?
Lobby não é feio. Feio é assistir calado seu setor se ferrar.