Cultura, território e diversidade: uma reflexão mineira diante do overtourism

Rota da fé em Ouro Preto
Mais que infraestrutura, o que Minas oferece é uma política cultural enraizada: festivais, roteiros de fé e tradição, a Cozinha Mineira como política pública, o Queijo Minas reconhecido pela UNESCO — expressões de uma cultura que organiza e dá sentido à experiência. Foto: Gil Leonardi/Imprensa MG

O turismo global, que um dia se confundiu com liberdade e descoberta, tornou-se, em muitos centros históricos, um problema. Fenômeno já documentado em cidades como Barcelona, Veneza ou Lisboa, o overtourism — saturação turística — impõe hoje às sociedades um dilema: como preservar o equilíbrio entre visitantes, moradores e territórios?

Em Minas Gerais, terra de montanhas e memórias longas, a resposta tem sido construída a partir de uma visão simples: diversidade territorial, respeito aos ritmos locais e cultura como essência.

Com seus 853 municípios e mais de 1.770 distritos, Minas é um país dentro do Brasil — feito de biomas múltiplos, da Mata Atlântica ao Cerrado, da Caatinga à Cordilheira do Espinhaço, reconhecida como Reserva da Biosfera da Unesco. Ali, montanhas e campos rupestres abrigam pequenas comunidades, saberes tradicionais, biodiversidade rara e um patrimônio imaterial de enorme riqueza. A Cordilheira é território de cultura e de natureza, de travessia e contemplação.

Aqui, o turismo não se separa da cultura. Congadas, Folias, Cozinha Mineira, Queijo Artesanal, religiosidade popular, artesanato e saberes do campo são parte inseparável da experiência. O viajante é convidado a pertencer, e não a consumir.

Diversificar o território é resistir ao colapso. Por isso, roteiros como o Mar de Minas e Canastra, a Mantiqueira de Minas, os Caminhos do Rosário ou a própria Cordilheira do Espinhaço espalham fluxos, ampliam a permanência e evitam a saturação de um único centro.

Em Capitólio, a cobrança de taxa de visitação, aliada à expansão da oferta para regiões como a Canastra, com cidades como São Roque de Minas e Delfinópolis, mostra que é possível articular equilíbrio, paisagem e experiência.

Mas talvez o mais eloquente seja o turismo rural, que em Minas não é um produto, mas identidade: modos de vida, hospitalidade afetiva, saberes da terra. Novos resorts de excelência em Carrancas, Santana dos Montes, Serra do Cipó ou a Enovila de Almas Gerais, em Alfenas, demonstram que a sofisticação pode dialogar com os territórios e com a cultura local.

Mais que infraestrutura, o que Minas oferece é uma política cultural enraizada: festivais, roteiros de fé e tradição, a Cozinha Mineira como política pública, o Queijo Minas reconhecido pela UNESCO — expressões de uma cultura que organiza e dá sentido à experiência.

Minas não é cenário, mas território vivo. Não turismo de consumo, mas travessia. Como escreveu Adélia Prado: “minha religião é o amor ao que é simples.” Minas, assim, guarda a simplicidade que contém o essencial: um turismo que respeita a terra, o tempo e as pessoas.

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