BH: a cidade que escolheu ficar para trás

Belo Horizonte não é vítima do tempo; é resultado de más escolhas. Sim. É possível reverter esse quadro. Mas exige visão
Mangabeiras
Foto: PBH

Belo Horizonte já foi apontada como referência de planejamento urbano e qualidade de vida. Outrora considerada exemplo de cidade jardim, segurança pública e educação de qualidade, já há algumas décadas, amarga estagnação econômica, falta de protagonismo nacional e perda de relevância. As razões vão além do óbvio: são escolhas estruturais, políticas e culturais, que moldaram esse triste destino. Hoje, somos exemplo de uma “roça grande”, e há quem se orgulhe disso.

BH mantém dependência extrema de serviços tradicionais, que respondem por cerca de 85% do PIB municipal, segundo dados do IBGE e do IPEA. Enquanto isso, capitais como Recife criaram o Porto Digital, com mais de 300 empresas e 13 mil empregos diretos em tecnologia. Florianópolis consolidou o Sapiens Parque e outros clusters de inovação, somando cerca de 900 empresas de tecnologia com faturamento de R$ 6 bilhões em 2023. E nem vou falar em Rio e São Paulo.

Por aqui, apesar de iniciativas como o San Pedro Valley, o polo de startups não decola em escala nacional. Dados do último ranking da Associação Brasileira de Startups (2023) colocam BH como quarto maior polo do país, mas com volume de investimento e faturamento ainda modestos frente aos líderes. Nosso setor imobiliário se tornou um canteiro de obras de atraso, pouca eficiência e leis e regulações do século passado, graças, sobretudo, ao ex-prefeito Alexandre Kalil.

Urbanismo arcaico e mobilidade travada

O metrô permanece praticamente do mesmo tamanho desde 1986. Em 2023 houve anúncio de expansão, após concessão à iniciativa privada, mas as obras definitivas estão longe de se tornar realidade. Recife, Fortaleza e Salvador avançaram em modais sobre trilhos nas últimas décadas, integrando suas regiões metropolitanas. BH, ao contrário, expandiu-se com BRTs de eficácia limitada e trânsito cada vez mais caótico. E o uso de tecnologias eficientes permanece ausente na cidade.

Minas Gerais tem PIB superior a R$ 900 bilhões, mas sua força está concentrada fora de BH: no agronegócio do Triângulo Mineiro (Uberaba e Uberlândia), na mineração (Itabira, Sarzedo, Congonhas, Conceição, Brumadinho e Mariana) e na cafeicultura do Sul do estado. Belo Horizonte funciona como centro administrativo e de serviços, sem participação direta nas cadeias produtivas de maior rentabilidade. O resultado é a consecutiva perda de relevância, inclusive dentro do próprio estado.

Empresários mineiros são conhecidos pela exagerada prudência. Mas prudência em excesso gera estagnação. Faltam apostas ousadas em inovação, urbanização, globalização de marcas. Curitiba e Goiânia avançaram nesse aspecto, investindo em polos tecnológicos e agroindustriais integrados com exportação. BH continua dependente do consumo interno e de empregos públicos – ou ligados a este setor. Aliás, a iniciativa privada e o setor público são cúmplices nesta paralisia.

Vácuo político: sem líderes e liderança

Após o colapso político de Aécio Neves, Minas perdeu força no cenário nacional. BH, sem representantes de peso, ficou sem articulação para grandes projetos de infraestrutura ou atração de eventos internacionais. Enquanto isso, Goiânia se consolidou como capital do agronegócio high-tech, Recife como hub tecnológico, Vitória e Vila Velha (ES) como pólos logísticos e Florianópolis como a “Ilha do Silício”. Belo Horizonte – e também o estado – está órfã no plano político federal.

Enchentes, ocupações desordenadas, especulação imobiliária sem planejamento e trânsito cada vez mais travado definem a BH atual. O projeto da Avenida Antônio Carlos e da Linha Verde foram avanços localizados e pouco eficientes. Mas reurbanizações estruturais, como as vistas no Rio (Porto Maravilha) ou São Paulo (Nova Luz, Rebouças e Faria Lima), nunca saíram do discurso por aqui. Ao contrário. A única grande obra das últimas décadas é privada: a Arena MRV, do Galo.

Cidades crescem quando constroem um ambiente e uma imagem que atraem investimentos, turismo e talentos. Floripa vende, além de suas lindas praias e segurança, inovação e qualidade de vida. Recife, tecnologia e cultura. Curitiba, planejamento urbano. Goiânia, agronegócio e logística. BH insiste na tríade “boteco, pão de queijo e charme de suas meninas“, apelos insuficientes para projeção nacional e, claro, global. Vivemos de Atlético, Cruzeiro e carnaval. E olhem lá.

Muda, BH

Belo Horizonte não é vítima do tempo. É resultado de más escolhas. O empresariado prefere estabilidade à ousadia. A classe política escolheu o atraso à transformação. A sociedade se acomodou a um cotidiano de serviços. É possível reverter esse quadro. Mas exige visão, coragem para reformas urbanas estruturais e integração real entre universidades, empresas e governo. Exige, sobretudo, vontade de romper com o provincianismo – hoje, sem dúvida, o maior fator de atraso da cidade.

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