A culpa como também o convite veio do meu Confrade irmão Zaca, com “c”, porque, sim, ele reclama. Ele jogou no grupo da NOSSA DESTILARIA uma daquelas matérias que obrigam a gente a piscar duas vezes: adultos comprando chupeta para apaziguar a própria ansiedade.
De início, a cena parece cômica. Gente grande, gente feita, recorrendo a um pedaço de silicone como se fosse uma senha para suportar o peso dos dias. É estranho? É, claro. Mas vamos combinar: também é compreensível. O gesto não carrega maldade, carrega desamparo. Falta ferramenta por dentro, sobra barulho por fora. A chupeta, nesse contexto, vira um colo portátil. Só uma ponte de passagem. O perigo mora quando a ponte vira morada.
Mas a provocação do Zaca abriu uma fissura, uma reflexão inquietante. Porque a pergunta por trás da chupeta é a mesma que se esconde atrás do punho cerrado, do olhar que ignora. O que a gente faz quando o mundo simplesmente nos frustra? A resposta, quase sempre, se decide naquele intervalo mínimo de três respirações. É o tempo exato que a nossa civilização tem para ganhar, ou então perder de vez, a briga contra o bicho que mora aqui dentro.
Elevador
E foi nesse intervalo que o ex-jogador de basquete, Igor Cabral, transformou a namorada, Juliana, no alvo de sessenta e um socos dentro de um elevador. Aquele punho não era força, era a amplificação pura de um fracasso. O grito de quem não suporta a contrariedade e decide, na loucura, esmagar a realidade no rosto do outro.
Aqui mesmo, em Belo Horizonte, outra cena de horror. Renê, um empresário apressado, decidiu que sua pressa valia mais que uma vida. Usando a arma da própria esposa, Ana Paula (Delegada de Mulheres, uma ironia cruel), ele apagou Laudemir de Souza Fernandes, gari, trabalhador, marido, pai. Para Renê, Laudemir não era uma pessoa: era ruído, um obstáculo, a ruína da sua ópera pessoal. Matar aquele homem foi a tentativa mágica e covarde de aniquilar a realidade que teimava em impor limites.
E a pergunta que não quer calar, e que serve pra todos nós: em que momento do dia a nossa razão dá uma cochilada e um pequeno monstro assume o volante? E que nome bonito você dá pra ele? Sinceridade? Cansei? Justiça?
Pessoas como objetos
As vítimas, preste atenção, quase nunca são fruto do acaso. Elas são escolhidas a dedo porque ficam no ponto cego de um agressor que já decidiu não enxergar o outro como rosto, e sim como paisagem. E paisagem, no final das contas, a gente descarta. Daí a pergunta que vem: quem foi a última pessoa que você olhou nos olhos, mas tratou como parte da mobília? O que vai morrendo dentro da gente cada vez que a gente transforma um rosto em obstáculo?
E as mulheres nessa história? A posição delas exige um olhar mais fundo. No caso de Juliana, a vítima direta, o que opera é uma dança macabra: o vínculo traumático. A explosão de fúria é seguida por um afeto calculadinho, um suposto “carinho pós-agressão”. Essa calmaria vicia, vira droga. A “chupeta simbólica” dela é a esperança (ou a ilusão) de resgatar o homem que parecia existir no começo.
Já com Ana Paula, a delegada e esposa, a mente fez o que pôde pra sobreviver: rachou. De um lado, ficou a mulher da lei. Do outro, a esposa que optou pela cegueira seletiva pra não encarar o castelo de areia montado em cima de currículo falso e temperamento de pólvora. O desprezo que matou Laudemir já devia assombrar a casa, escondido nos gestos miúdos, nas palavras varridas para debaixo do tapete.
E já que o dia tá mesmo de perguntas difíceis: qual é a ficção que você tá sustentando sobre a sua própria vida? Qual mentira de estimação, se exposta de uma vez, te obrigaria a mudar tudo?
No fundo do poço, a ligação entre a chupeta, os socos e o gatilho é uma só: a alergia coletiva ao “não”. A cultura da gratificação imediata fabrica egos frágeis, pavios curtos e adultos que confundem desejo com direito. A chupeta sussurra baixinho: “eu não dou conta“. O punho e a arma berram: “o mundo é que tem de dar conta de mim“.
Esperança em meio ao caos
A boa notícia, e sempre tem uma, é que essa briga é interna, acontece dentro de cada um. A chupeta, o punho, o rosto do outro… tudo é espelho de um drama íntimo que não pede heroísmo, mas práticas miúdas de resgate. Menos coreografia perfeita na internet, mais passo miúdo na vida real. Menos efeito especial, mais hábito decente. Soa menos épico, eu sei, mas é o que constrói chão.
E para não restar dúvida, alguns princípios simples merecem ser repetidos até virar reflexo:
Consolo é direito. Violência é crime. Simples assim.
O outro não é obstáculo. É o teste diário da nossa humanidade.
Respire três vezes. Essa demora pode ser o gesto mais corajoso do seu dia.
Fica então o convite: no seu próximo momento de estresse, antes de explodir, pare. Só respire. Se algo mudar, me conta. Se não mudar, me conta também. Amadurecer, no fim das contas, é trabalho de time. E se for o caso, que a chupeta sirva só de ponte, nunca de moradia. Porque a travessia pede menos pressa, mais fôlego. Menos brilho, mais chão. E muito, mas muito mais pessoa.