Belo Horizonte está parando e não é mera figura de linguagem. Quem pega a BR-381, a BR-040 ou a BR-262, na altura da Região Metropolitana, sabe: a cidade se tornou uma imensa rotatória congestionada, onde caminhões, motos e carros disputam espaço como se fosse o último metro quadrado de asfalto.
O que se chama mundialmente de “mobilidade urbana”, por aqui é, na prática, imobilidade metropolitana. E não adianta culpar o Waze ou outro aplicativo, pois não há atalho possível quando a cidade é refém de um traçado viário dos anos 50 e de uma frota de país subdesenvolvido do século XXI.
O rodoanel, que governos anunciam e reanunciam, há décadas, deixou de ser opção para virar questão de sobrevivência. Se sair do papel, poderá reduzir de três horas para 40 minutos a travessia pela Grande BH. Não é milagre: trata-se de engenharia básica, testada em metrópoles do mundo civilizado.
É a economia, estúpido
Estrada de classe internacional, pedágio sem cancela, monitoramento tecnológico, inclinação máxima de 5% e outros atributos. Não estamos falando de ficção científica, mas de infraestrutura decente. A diferença não é só para quem dirige. Um rodoanel assim redesenha a logística de uma região.
O PIB da RMBH, segundo projeções, pode crescer até 13% em dez anos. Produção industrial, escoamento agrícola, atração de investimentos: tudo depende de transporte rápido e seguro. Não é coincidência que empresas fujam de Minas; é custo logístico. O rodoanel, portanto, é política econômica.
Mas, como tudo em Minas, a conta não fecha sem ruído. Quilombolas e comunidades tradicionais denunciam que não foram consultadas. A FEAM deu licença ambiental, mas condicionada a medidas que ninguém sabe se sairão. Municípios como Contagem e Betim já reclamam do traçado.
Minas sendo Minas
É sempre assim: promessa de progresso para uns, ameaça de escombros para outros. Se o governo insistir em “passar o trator”, poderá transformar uma obra necessária em conflito social. Romeu Zema decretou prioridade. Pode parecer coragem, mas também pode ser um atalho perigoso e caminho para a judicialização.
Prioridade, sem diálogo, vira imposição. E o histórico político mineiro é fértil em obras faraônicas que começam em festa e acabam em esqueletos de concreto. A diferença entre o sonho e o pesadelo está na forma como o processo é conduzido. A RMBH precisa do rodoanel; e precisa agora.
O trânsito não espera, a economia não espera, a vida das pessoas não espera. Mas precisamos de um rodoanel que funcione, e não de mais uma cicatriz no mapa do inacabado. Nosso futuro depende disso: ou o rodoanel sai, bem feito e com legitimidade, ou a RMBH implode em seus próprios engarrafamentos.