Delegado preso pela PF tentou ajudar esposa de vereador de BH a conseguir visto americano a pedido de lobista

Rodrigo Teixeira é alvo da investigação que apura um grande esquema de corrupção para obter licenciamentos ambientais em MG
Apesar da articulação, a solicitação de visto da esposa do vereador belo-horizontino não foi aprovada. Foto: Agência Senado

O relatório da Polícia Federal (PF) que resultou na deflagração da Operação Rejeito registra um episódio curioso envolvendo o delegado federal Rodrigo de Melo Teixeira e uma solicitação de visto americano por parte da esposa de um vereador de Belo Horizonte. O caso ilustra como, de acordo com as investigações, o policial chegou a utilizar o cargo de Diretor Administrativo da Polícia Federal para auxiliar em questões pessoais de terceiros, por intermédio do lobista Gilberto Henrique Horta de Carvalho.

O episódio, registrado formalmente em um capítulo próprio no relatório da PF, teve início quando a esposa do vereador Vile dos Santos (PL), de Belo Horizonte, teve seu visto negado pela embaixada dos Estados Unidos. Gilberto, que posteriormente trabalhou no gabinete de outro vereador do PL, Uner Augusto, foi consultado sobre a possibilidade de ajudar no caso.

Segundo interceptações telefônicas feitas pela PF em agosto de 2024, Gilberto solicitou à esposa do parlamentar que enviasse o protocolo da entrevista no consulado americano. O lobista explicou que o documento seria encaminhado ao “Rodrigo da PF”, que mantinha contatos na embaixada americana.

De acordo com o relatório policial, Rodrigo Teixeira se envolveu na tentativa de ajuda.

Duas semanas após o pedido inicial, Gilberto informou à esposa do vereador que Rodrigo havia confirmado sua participação em um jantar com representantes da Embaixada Americana. Durante o encontro social, o delegado teria mencionado o caso e entregue o protocolo para análise.

Para verificar a versão apresentada, a PF analisou dados de telefonia celular de Rodrigo. O aparelho do delegado se conectou a antenas próximas à região da embaixada nos horários mencionados do jantar.

Embora as antenas estejam localizadas próximas ao prédio da Polícia Federal em Brasília, onde Rodrigo trabalha, a análise técnica do azimute das conexões indicou que o telefone estava em área compatível com a localização da Embaixada Norte-Americana, confirmando que ele não estava em serviço no momento.

Tentativa sem sucesso

Apesar da articulação, a solicitação de visto da esposa do vereador belo-horizontino não foi aprovada. Mensagens de setembro de 2024 confirmam que a tentativa não teve o resultado esperado.

O vereador Vile dos Santos foi procurado para comentários, mas preferiu não se manifestar sobre o assunto.

Influência

O relatório da PF destaca que Gilberto Carvalho “se aproveita para demonstrar a terceiros o forte vínculo com o delegado, insinuando ter influência na Polícia Federal”. O lobista agiria “como um despachante”, sentindo-se à vontade para pedir favores ao delegado federal, segundo a investigação.

Em outro caso documentado no relatório, Gilberto chegou a afirmar explicitamente: “fica tranquilo que foi um pedido feito pelo diretor da PF lá de Brasília, que é o Rodrigo, amigo meu”.

A Operação Rejeito resultou na prisão preventiva de 22 pessoas, incluindo Gilberto e Rodrigo. A PF suspeita que os dois cometeram crimes de corrupção, organização criminosa, lavagem de capitais e embaraçamento de investigação.

A Polícia Federal aponta que Rodrigo e Gilberto teriam montado um esquema para lucrar no mercado minerário usando empresas de fachada. Os dois são sócios ocultos da GMAIS Ambiental, empresa formalmente registrada em nome da esposa do delegado, Daniela Santos Wandeck, e do companheiro de Gilberto, Luiz Fernando Vilela Leite.

A GMAIS seria beneficiária de parcelas de direitos minerários avaliadas entre R$ 27 milhões e R$ 30 milhões, sem qualquer contrapartida. No caso de uma sociedade com a Minerar Mineração, a empresa receberia 8% do negócio de forma gratuita, o que a PF considera uma forma de remunerar os dois por atuações irregulares.

As negociações envolveram direitos da empresa Topázio Imperial e foram feitas com o grupo investigado e formado por João Alberto Paixão Lages, Alan Cavalcante e Helder Adriano, justamente no período em que Rodrigo ocupava o cargo de Diretor de Polícia Administrativa da PF.

Propinas

Segundo a PF, Gilberto também participou da empresa Brava Mineração, onde a GMAIS detinha 13,33% das cotas. A investigação aponta que ele exerceu interferência na Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (SEMAD) mediante pagamento de propinas.

Em duas ocasiões, Gilberto recebeu R$ 7.500,00 cada – valor que a PF considera padronizado para vantagens indevidas. O primeiro pagamento ocorreu em 16 de março de 2022, sob suspeita de ser propina para obtenção da Autorização para Manejo de Fauna do empreendimento Bela Vista. O segundo foi pago por Marcos Arthur na data da publicação do alvará de pesquisa de Jeceaba, em 12 de maio de 2022.

A dupla também teria tentado interferir em investigações policiais em curso. Em 28 de abril de 2023, Gilberto, por iniciativa de Rodrigo, tentou marcar uma reunião entre o delegado, João Paixão Lages e Guilherme Santana Lopes Gomes, então diretor da Agência Nacional de Mineração (ANM).

Para a PF, o objetivo era que Guilherme relatasse a Rodrigo os problemas ocorridos durante sua oitiva conduzida pelo delegado Frederico Levindo Coelho, presidente do inquérito da Operação Poeira Vermelha. O delegado Frederico deixou a presidência do inquérito em 2 de julho de 2023, poucos meses após a tentativa de reunião.

O relatório da PF aponta que Rodrigo mobilizou a delegada Kelly Cristina de Castro Batista para realizar diligência na empresa Green Metals Soluções Ambientais em 29 de março de 2022. A ação ocorreu sem respaldo formal e sem seguir protocolos da corporação.

A Green Metals estava em conflito comercial com o grupo de Alan Cavalcante e João Lages. A PF suspeita que a diligência foi usada como instrumento de intimidação para favorecer os interesses dos aliados de Rodrigo, mesmo ele estando cedido à Prefeitura de Belo Horizonte na época, durante a gestão Alexandre Kalil.

Vazamentos

A investigação também descobriu que Rodrigo “vazou” informações sigilosas para a empresária Ursula Paula Deroma. Em grupo de WhatsApp, Ursula reencaminhou mensagens mencionando que havia recebido “informação sigilosa” de “investigação policial”, com alerta de Gilberto para não compartilhar.

Gilberto funcionava como preposto de Rodrigo, entregando recados e trocando documentos com João Alberto Paixão Lages. A investigação encontrou uma nota salva pelo lobista em caixa alta: “NÃO FALE DE RODRIGO DA PF”, demonstrando cautela para evitar exposição do delegado.

Em setembro de 2023, Rodrigo foi entrevistado pela Diretoria de Inteligência Policial da PF e negou categoricamente ter qualquer vínculo com a GMAIS Ambiental. Também afirmou não ter relação com mineradoras investigadas pela corporação.

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