Eleições não são concurso público. O voto não vai para o candidato com as melhores notas na prova teórica. O candidato mais preparado, com currículo extenso e planos detalhados, nem sempre é o escolhido. Vai para aquele que toca o coração. O curioso é que isso não passa por um cálculo consciente. O eleitor não se senta para pensar em quem emociona mais. Ele simplesmente é atravessado por uma narrativa, por um gesto, por uma fala que desperta algo íntimo. E, quando esse sentimento aparece, a decisão já está meio caminho andado.
É por isso que, muitas vezes, discursos guiados pela emoção superam programas de governo bem estruturados. E quando me refiro à emoção, não estou falando sobre arrancar lágrimas, mas de conectar-se ao sentimento que já vive dentro das pessoas.
Lula, em 2002, canalizou a esperança de um povo que sonhava com um país melhor. Bolsonaro, em 2018, deu voz ao desejo de ruptura que mobilizava milhões. Em 2022, o medo pautou a disputa entre os dois ex-presidentes. Em todos os casos, a principal força não estava no detalhe técnico das propostas, mas na sinergia entre o que o eleitor sentia e o que a campanha transmitia.
O caso de Ciro Gomes é exemplar. Quase sempre reconhecido como inteligente, preparado, dono de propostas bem estruturadas. Mas não conseguiu fazer essa ponte do cérebro ao coração. Admirado pela razão, não foi capaz de transformar o capital que tinha em votos suficientes.
Primeiro sentimos, depois pensamos. É a emoção que abre a porta para que a razão entre. E se a porta não se abre, a razão passa a ser um ativo desperdiçado. A proposta pode ser sólida, mas sem emoção não move ninguém.
Esse é o paradoxo das campanhas: ideias bem elaboradas são necessárias, mas insuficientes. É preciso que a narrativa carregue emoção, que crie pertencimento, que faça o eleitor se sentir parte de algo maior. É o que difere a razão, que conquista respeito, da emoção, que conquista votos.