Rômulo Duque, jovem senhor das artes cênicas mineiras

Foto: Agência Minas

Rominho — como os mais íntimos o chamam — é um daqueles nomes que a cultura mineira reconhece não pelo brilho imediato, mas pela permanência. Há artistas que passam pela cena; e há aqueles que sustentam a cena, como quem sustenta uma casa antiga: cuidando do telhado, reforçando vigas, mantendo a luz acesa para que outros possam entrar. É daí que nasce a imagem do jovem senhor — jovem no ímpeto que não se acomoda, senhor na autoridade que só o tempo, o trabalho e o embate conferem.

Rômulo Duque pertence a uma geração que aprendeu cedo que a arte não vive apenas de talento. Vive de condições. Vive de estrutura. Vive de política pública, de organização coletiva, de negociação permanente com a realidade. Sua trajetória se constrói nesse lugar menos visível — mas decisivo — onde o gesto artístico encontra o mundo concreto e precisa se sustentar sem concessões fáceis.

Eu o conheci em 2009, no ambiente sempre tenso da política da capital. E desde então o ouvi muitas vezes — na Câmara, nas audiências públicas da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, nos debates em que a cultura precisava se fazer ouvir. Sempre com a mesma insistência: a defesa do trabalho nas artes cênicas. Não falava em nome próprio; falava em nome de um setor inteiro que raramente tem espaço para falar.

Aqui vale uma distinção fundamental para compreender a densidade de sua biografia.

Antes do dirigente, há o Rômulo da cena: ator, diretor, produtor. O homem do fazer. Aquele que conhece o teatro por dentro — o ensaio que atrasa, o custo que não fecha, a luz que precisa funcionar, a equipe que precisa receber, o público que precisa chegar. Sua trajetória atravessa décadas e inclui atuação, direção e produção em diferentes formatos e públicos. E há um dado particularmente revelador nesse percurso: sua relação consistente com o teatro infantil.

Dirigir e produzir para crianças não é escolha menor. É uma das decisões mais sérias que um artista pode tomar. O teatro infantil exige rigor absoluto, linguagem limpa, imaginação sem concessão e profundo respeito pela inteligência do público. Obras como “Alice no País das Maravilhas” e “Cachinhos de Ouro” aparecem em sua trajetória não como exceção, mas como sinal de uma convicção: formar plateia é fundar futuro. Quando levado a sério, o teatro infantil não diminui a arte — inaugura a arte na vida.

Isso não significa, evidentemente, restrição de repertório. Rômulo sempre trabalhou com todos os públicos — do infantil ao adulto, do popular ao repertório mais denso, do riso ao conflito. O teatro infantil, no seu caso, funciona como chave simbólica de sua visão de mundo: a arte só se sustenta quando pensa o amanhã, quando cria continuidade, quando não se esgota no aplauso imediato.

É desse chão — do palco, do bastidor, da produção — que emerge o Rômulo presidente do SINPARC, o Sindicato dos Produtores de Artes Cênicas de Minas Gerais. Aqui não há ruptura; há desdobramento. O cargo não cria autoridade: a trajetória sustenta o cargo. À frente do sindicato, Rômulo transforma experiência individual em defesa coletiva. Produção, nesse contexto, deixa de ser apenas bastidor e se afirma como política da viabilidade — a arte de tornar possível.

Produção, nas artes cênicas, não é “serviço menor”. É o lugar onde o impossível vira possível. É a ponte entre o gesto e a estrutura, entre o sonho e a realidade, entre a cena e o público. Por isso, falar de Rômulo é falar da Campanha de Popularização do Teatro e da Dança como projeto de cidade, e não apenas como evento anual. A Campanha consolidou um ritual urbano raro: o público voltando ao teatro como hábito, a dança ocupando o cotidiano, a cena se tornando parte da vida comum.

Popularizar, aqui, nunca significou precarizar. Significou organizar o acesso, ampliar público sem rebaixar a arte, criar pertencimento cultural. A Campanha conseguiu algo difícil: aproximar o povo do palco sem sacrificar o ofício. E isso só se faz quando produção, artista e público são pensados como partes do mesmo ecossistema.

Há uma formulação precisa para compreender essa engrenagem. A pesquisadora Nádia Bueno Rezende, ao analisar a Campanha, parte do eixo produção, distribuição e consumo da arte, recusando a ideia de que a experiência estética exista separada das condições de circulação. Em suas palavras, trata-se de compreender a arte como uma tradução dialética entre esses três campos — formulação que ajuda a entender por que iniciativas como a Campanha não são apenas agenda, mas reorganização simbólica da relação da cidade com o teatro.

Quando ampliamos o olhar, compreendemos que as artes cênicas — teatro, dança e circo — acompanham a humanidade desde suas origens. O teatro nasce como rito comunitário e espelho público; a dança é pensamento do corpo; o circo carrega a vocação nômade da arte como sustento e maravilhamento. São linguagens que estruturam civilizações porque organizam o encontro humano. E o encontro, para existir, precisa de sustentação — precisa de quem cuide da base.

É nesse ponto que os sindicatos ganham densidade histórica. No mundo e no Brasil, a organização coletiva é uma das colunas da dignidade do trabalho. No campo cultural — tantas vezes relegado a segundo plano — sindicato é também forma de memória e de proteção. Este texto dialoga com o artigo já publicado no Fator sobre Magdalena Rodrigues e fecha um ciclo simbólico em Minas: a dobradinha entre SATED-MG, que representa artistas e técnicos, e SINPARC, que representa produtores e a cadeia produtiva. Não são forças rivais; são pilares complementares do mesmo edifício cultural.

E é importante dizer: Rômulo não defende a produção apenas como tese. Ele produz. Seu nome se associa a montagens, projetos e ações que atravessaram o tempo e o público. A liderança sindical, no seu caso, não nasce da abstração, mas do fazer cotidiano — da experiência concreta de sustentar a cena quando tudo conspira contra.

Há, por fim, uma dimensão humana que aparece com discrição — como convém, porque este texto é sobre ele. Em diferentes momentos, seu percurso se cruza com o de Marísia do Prado, parceira em produções. E, na vida cotidiana, a arte transborda para além do palco: sua companheira, hoje gestora pública no Palácio da Liberdade, participa da construção simbólica do Natal da Mineiridade. Não como detalhe pitoresco, mas como sinal de vidas dedicadas à arte como serviço público, imaginação coletiva e cuidado.

Rômulo Duque — o Rominho — é essa síntese rara: o artista que virou produtor, o produtor que virou dirigente, o dirigente que nunca deixou de ser homem da cena. Um jovem senhor que lembra, com firmeza, que a cultura só se sustenta quando valoriza, ao mesmo tempo, o artista e a produção — o gesto e a estrutura, o palco e a ponte que leva até ele.

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