Esse artigo ocupa-se de descrever fatos e de analisar nossa vida política nacional recente, do 8 de janeiro de 2023 a setembro de 2025. Ocupa-se de reportar e analisar acontecimentos. De inimagináveis a improváveis, dispõem-se como uma crônica da incredulidade moldando a realidade. Eis que após a sequência de derrotas dos golpistas nas eleições de 2022 e no 8 de janeiro de 2023, o progressismo no poder, das esquerdas democráticas ao centro leal à democracia, no curso de um ano iria transitar de um ambíguo e paradoxal estado psicológico reunindo euforia e o sentimento de glória, e seu contrário, o sentimento de medo face à iminência do golpe de Estado dos perdedores. Após o 8 de janeiro, seguir-se-ia, em atos e conquistas, um governo de esperança em ação, com bons resultados, todavia, face a face ao impressionante fortalecimento político e intenso protagonismo da extrema direita. Face a face ao governo, capturara a seu serviço os aliados do governo no Congresso Nacional, os partidos e as bancadas parlamentares do centrão. Surpreendentemente, os derrotados semileais à democracia, porquanto não golpistas, servis ao autoritarismo, assim como aqueles golpistas por duas vezes derrotados, passaram a se exibir em estado de triunfalismo político e ideológico. Derrotados exibiam-se vitoriosos. Agressivos e em radicalização crescente, política e ideologicamente unidos no Partido Liberal, os “mortos” começaram a impor ao Congresso Nacional e ao governo um insuspeito e notável poder de agenda política. Sob a liderança do Partido Liberal, logo iriam atrair ao campo do extremismo os partidos PP, União Brasil, PR, PSD e parte do MDB, do centrão. Juntos, em escalada iriam mover tenaz e destrutiva oposição ao governo. Emancipados do ônus de negociar emendas, o centrão emancipara-se de qualquer lealdade ao governo. Moral: o oportunismo compensa! Eis o centrão!
Estando, sem nunca haver sido, contudo, “estando”, sem “ser”, ao mesmo tempo governo e oposição, o centrão decidira apostar quase todas as fichas na radicalização à sombra da oposição dos bolsonaristas mais radicais ao governo. Àquela altura já indiciado e investigado pela Polícia Federal, o golpista Jair Messias Bolsonaro se impusera ao bloco ampliado do bolsonarismo e do extremismo como o seu líder único e pré-candidato a presidente em 2026. Em sistemática e triunfal autoexposição, o autocrata e golpista exibia-se na posição de vítima de perseguição política pelo Supremo Tribunal Federal. Fazendo dessa fraude a sua causa, as legiões do bolsonarismo logo retornaram às ruas.
Adiante, triunfalmente o bolsonarismo iria celebrar como sua a vitória do presidente Donald Trump nos Estados Unidos da América. Pela ação do deputado federal Eduardo Bolsonaro, o bolsonarismo estabelecera intensa e forte conexão com a extrema direita americana e a internacional. Aqui, as instituições políticas e do Estado Democrático de Direito, a sociedade civil, a imprensa e as decisivas vitória eleitoral e capacidade de liderança do presidente Lula haviam derrotado a trama golpista chefiada pelo ex-presidente. Bolsonaro havia feito política como quem guerreia. Praticara antipolítica. Como supunha, “o fuzil comanda a política” e ele, e somente ele, comandaria o fuzil. Apostara no golpe com decisivo apoio militar dos altos-comandos e a ação de coronéis e de tenentes-coronéis operacionais em comandos de tropas de elite. Também apostara em suas legiões civis de camisa amarela, dispostas à insurreição. Embora derrotados, contudo, politicamente empoderados, passariam a apostar na ação propriamente política, na linhagem de uma oposição total, implacável, intencionalmente destrutiva, à maneira do Donald Trump candidato. Todavia, agiriam no limite da legalidade e das regras do jogo da democracia, pelo menos até a reconquista legítima do poder. Assim, apostaram todas as fichas nas eleições de 2026 e na recandidatura do “mito”.
Então, Bolsonaro cobrou lealdade absoluta exigiu de todos a posição de liderança única e sem contraste ou competição interna. Cobrou subordinação e acoplou ao bolsonarismo os “seus” governadores, os semileais à democracia e os de extrema direita, entre eles os de MG, SP, PR, RJ, GO, DF e SC. De investigado a réu, o acusado do cometimento de crimes segundo cinco graves tipos penais poderia chegar a 40 anos de reclusão. O sonho de volta ao poder exigiria de todos o engajamento e a conquista congressual e a partir das ruas de uma anistia ampla, geral e irrestrita. Se possível, o cancelamento do julgamento. Assim, o pré-candidato e seu núcleo familista, o Partido Liberal, os governadores orbitados pelo extremismo e a maioria do centrão uniram-se sob a égide de “a melhor defesa é o ataque”. Fizeram da candidatura única do réu Bolsonaro a causa de sua ação coletiva. A tática, a luta pela anistia. Isso estabelecido, ousaram reocupar as ruas. No final de 2024 o governo do presidente Lula e o progressismo pareciam sob cerco, “nas cordas”. “Nas cordas” iria permanecer até meados de 2025.
Isso estabelecido, perplexos e em desorientação, os progressistas percebiam-se e sentiam-se como que imersos em uma indecifrada, opaca e desalentadora situação paradoxal de luta de “resistência democrática” sob a democracia e com Lula presidente. Prodigiosamente, sob a democracia e na oposição os golpistas e o extremismo exibiam-se triunfais. Haviam assumido e controlavam a inciativa política. Sentiam-se a um passo da reconquista do poder. Vaticinavam a vitória em 2026. Esse lúgubre vaticínio penetrara, forte, as expectativas e o psiquismo dos progressistas. Com efeito, em geral, os democratas sentiram-se psiquicamente imersos em uma situação de defensiva política, como se a democracia e o governo progressista-reformista do presidente Lula estivessem uma vez mais sob a ameaça da extrema direita nacional, doravante internacionalizada e internacionalmente fortalecida. A democracia parecia depender crucialmente da determinação da Procuradoria Geral da República e do Supremo Tribunal Federal.
Não obstante, a economia apresentava e reafirmava bom desempenho. Ungido pelo ex-presidente à posição de porta-voz da campanha Bolsonaro 2026, pela segunda vez o pastor Silas Malafaia expulsara Jesus Cristo de sua igreja pentecostal para entronizar e cultuar aquele réu acusado do cometimento de cinco tipos penais. Bolsonaro usava a voz do pastor para atacar o Supremo e o juiz Alexandre de Moraes. Enquanto o Supremo julgava e condenava os golpistas do 8 de janeiro, rigorosamente observado o devido processo legal, e finalizava as oitivas, os processos e a acusação com base em provas e evidências contra os réus e chefes do golpismo, a extrema direita, de volta às ruas, havia articulado e pretendia fazer de sua campanha por “anistia ampla, geral e irrestrita” algo semelhante, em força política, simbólica e emocional, à campanha das “Diretas Já”, de 1984. O delírio faz par ao triunfalismo!
Naqueles idos, as “Diretas Já” haviam antecipado o fim político, embora não o fim cronológico, da ditadura militar. O governo do último general-ditador derretera. As “Diretas Já” iriam garantir à sociedade civil e ao progressismo a conquista de uma Constituinte soberana, ainda que congressual. Nada era sólido; tudo parecia desmanchar-se no ar. Eis que Bolsonaro e filhos, o Partido Liberal e a maior parte do centrão apostaram na antecipação do fim político do governo Lula. Acreditaram fazer do presidente Lula um “pato manco” a partir de 2025.
O excelente cientista político Felipe Nunes, autor de “Biografia do Abismo”, parecia ver confirmada a instigante e intrigante tese central de seu livro: irrevogavelmente a sociedade brasileira teria se cindido ao meio. Mais que em polarização, encontrar-se-ia em estado estruturado de “calcificação” de antagonismos: do voto, até alcançar as relações afetivas interpessoais e familiares. Com efeito, a extrema direita apostava e desejava a “calcificação”. Somente assim poderia prosperar. Surpreendente é que as próprias esquerdas começaram a antecipar o prognóstico de que o campo democrático perderia as eleições para a extrema direita em 2026. Dizia-se que Lula perderia as eleições. Logo, o candidato do campo democrático não deveria ser ele, nem do PT. Floresceram nomes alternativos: Flávio Dino, Geraldo Alckmin. Saídas do abismo, as Sombras pareciam triunfar sobre a razão, a esperança e o futuro. As esquerdas, perplexas, prognosticavam o risco do provável colapso do futuro e da democracia no Brasil! O medo parecia triunfar sobre a esperança. O extremismo aprendera com seu erro. Não retornaria ao golpe de Estado. Seguiria os passos do segundo Donald Trump, o presidente e seus atos a partir de janeiro de 2025: no poder, promover a corrosão das instituições da democracia pelo controle do Poder Judiciário, cercear os meios de comunicação, cercear o federalismo e a autonomia dos grandes municípios, até alcançar o cerceamento da própria sociedade civil. Aqui, após o fracasso do 8 de janeiro, o bolsonarismo passara à ação segundo o design da bem-sucedida extrema direita internacional. Trump servia de modelo. Como queria, era urgente golpear dura e decisivamente o governo Lula. Os sinos já não dobravam pelos democratas?
As Tentações dos Progressistas e a Ascensão de Satã
Esquerdas e governo democrático e reformista de Lula haviam sido conduzidos “às cordas” pelos extremistas inimigos da democracia e pelos semileais à democracia, dentro do Congresso Nacional e nas ruas, onde ousaram retornar. Todavia, o progressismo e seu governo pareciam não se darem conta de que, eles mesmos, haviam se colocado sob cerco político, “nas cordas”. Não haviam se dado conta de que a crise do progressismo se devia a causas endógenas, tanto remotas quanto recentes. Assim, a ação intencional, tática e estratégica da extrema direita e de seus aliados seria potencializada pela fragilidade das esquerdas e do progressismo, fragilidade patente na escassez de respostas às inquietações da época e na ausência de orientação tática e de visão de futuro. As paixões política e social do progressismo parlamentar haviam cedido seu solar lugar à sombria paixão pela administração reeleitoral das emendas parlamentares. Na ocasião, reiterados bons resultados da economia passaram a conviver, lado a lado, com uma constelação de preocupantes indicadores da economia.
Percepções, sentimentos, atitudes, inclinações de voto e opiniões de pessoas entrevistadas por amostragem passaram a exibir uma discreta e, todavia, persistente tendência ao declínio na aprovação do desempenho pessoal do presidente Lula. De 43% de aprovação no início do governo, em 2023, passara a escassos 27% a ele atribuídos no final de 2024 (PoderData, 14 a 16/12/2024). Não era a economia. A política e as crenças sobrepujavam a economia e dela haviam se emancipado. A vulnerabilidade política do governo e do progressismo não decorria de má gestão da “comunicação” governamental, como tanto nisso o próprio governo insistiu. Uma vez mais, era a política, sendo a política de comunicação um interveniente subconjunto do problema geral. Decisivo era o déficit de orientação e de eficácia política. Consequência disso, a extrema direita assumira a direção geral nacional na arena da política, secundada e fortalecida pela gravitação de praticamente todo o centrão ao seu redor, porquanto o governo agregasse à sua aliança governativa ministros do centrão ligados ao União Brasil, PSD, MDB e Republicanos. Estávamos sob o cerco político do extremismo parlamentar.
Prodígio entre os prodígios da época, instigado pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro, eis que o presidente Donald Trump, já líder único do movimento da extrema direita internacional, decide ofender o povo-Nação Brasil, a dignidade nacional, a soberania nacional. Ao modo de um garroteamento, unilateralmente impôs ao Brasil a taxação de 50% sobre parte de nossa pauta de exportações comerciais aos Estados Unidos da América, seguindo-se a imposição de sanções ou coações contra o ministro do Supremo Alexandre de Moraes. Isso estabelecido, a extrema direita e o centrão, que desde a tentativa de golpe já haviam perdido a bandeira política e moral da defesa da legalidade constitucional, com a velocidade do relâmpago iriam perder. Também para as esquerdas, a bandeira da defesa da soberania nacional. De uma só vez, o triunfalismo os fizera embarcar, Bolsonaro e família, Malafaia e o Partido Liberal, o extremismo e o centrão, na “nau dos insensatos”. Unidos na insensatez, em aparente triunfo nas ruas celebraram o assédio do presidente Trump contra a nossa soberania nacional. O triunfalismo e a insensatez os conduziriam ao Sete de Setembro na avenida Paulista e àquele desfile com a gigantesca bandeira dos Estados Unidos da América exibida pelos bolsonaristas, face a face aos delirantes Bolsonaro e “seus” governadores, à frente Tarcísio de Freitas! Ato contínuo e em oposta direção, de volta às ruas as esquerdas e o progressismo tomaram para si a camisa da seleção brasileira de futebol, até então o símbolo do antidemocrático bolsonarismo nas ruas, e, definitivamente, a bandeira do Brasil. Pelas mãos do presidente Lula o governo começara a “sair das cordas”. Sem triunfalismo, passo a passo restabelecera o seu poder de agenda positiva e a capacidade de orientação e de direção política e moral à sociedade e ao progressismo.
Não obstante, exibindo perda de noção de medida e de proporção, ao perder a noção de adequação entre os fins desejados e os meios realmente à disposição, a extrema direita parlamentar, na Câmara dos Deputados, semelhante a Satã, decidiu-se pelo “assalto ao céu”: ocupou ilegalmente e sequestrou, como seu, o espaço hierárquico e simbólico da presidência da Câmara dos Deputados e de sua Mesa Diretora. Obstruiu a vida legislativa ao assediar, atemorizar, fragilizar e desmoralizar o presidente da Câmara. Em troca e à maneira de chantagem, para restabelecer a normalidade exigiu do presidente da Câmara, o deputado Hugo Mota, pautar:
- a “PEC da Blindagem” para votação direta e rápida em plenário. Com ela, a votação de cláusula de voto secreto dos deputados no que concerne à autorização legislativa, prevista na PEC da Blindagem, para o Supremo poder autorizar a Polícia Federal a investigar deputado envolvido em cometimento de crime;
- a votação direta no plenário da chamada “urgência” para a tramitação do que deveria vir a ser um desejado projeto-de-lei de anistia ampla, geral e irrestrita a todos os condenados por envolvimento na tentativa de golpe de estado e nos demais crimes conexos. Ou seja, anistia ampla e garantia de elegibilidade para o criminoso Jair Messias Bolsonaro se candidatar a presidente da República em 2026.
Como se sabe, o povo brasileiro ocupou as ruas do país no domingo, 20 de setembro, tomado de indignação moral e em defesa da democracia, contra a PEC da Blindagem e contra o projeto de Anistia. Prodígio entre prodígios em sucessão, na semana que se seguiu, a Comissão de Comissão e Justiça do Senado sepultou por 25 a zero, inclusive com o voto de senadores bolsonaristas e de todo o centrão, a PEC da Blindagem. Foi a mais completa desmoralização do bolsonarismo. Dias após, na Câmara dos Deputados a ideia de Anistia seria definitivamente sepultada. Em seu lugar esboçou-se um projeto-de-lei de “dosimetria das penas”, isto é, de revisão das penas respectivas a cada tipo penal ou de crime cometido pelos envolvidos na tentativa de golpe de Estado. Seja como for, Jair Messias Bolsonaro não terá benefício algum, nem os chefes do ataque à democracia. A extrema direita sofreu derrotas fragorosas e irrevogáveis.
Lula, em triunfo, brilhou na sessão anual de abertura dos trabalhos da ONU. Assumiu, assim reconhecido, a liderança política do que poderemos descrever como a “Internacional da Democracia”. Não bastasse, recebeu público elogio do presidente Trump e convite para conversarem. Portanto, diferente do funesto e sombrio agosto, ao irromper a primavera vimos florescer, uma vez mais em nosso país, a esperança em ação e a esperança vencer o medo.
Com uma ressalva, vez que, crucialmente, a esperança em nosso país ainda reside fundamentalmente na impressionante capacidade política e na fortaleza moral do presidente Lula, na coragem moral e na resiliência do Supremo Tribunal Federal e do juiz Alexandre de Moraes, e decisivamente, como se viu, na força que vem das ruas. Quanto ao progressismo e as esquerdas, espera-se que as luzes que vêm das ruas penetrem fundo em seu espírito. Afinal, as “tentações” habitam no meio de nós. Ficariam atestadas no voto de doze deputados federais do PT, dentre 63, e tantos outros do PDT e do PSB, a favor da PEC da Blindagem. Seja como for, as ruas e suas vozes e sabedoria ocuparam o lugar celestial dos anjos e arcanjos. Destronaram Satã de seu triunfalismo maligno e seu projeto de reconquista da presidência pelo voto. Quanto ao destino das Sombras, a cadeia reserva lugar cativo ao “Príncipe” e ao seu coroado séquito civil e fardado, ao tempo em que o centrão … prossegue sendo o centrão. Ocupa-se nesse momento de se distanciar da incômoda companhia do bolsonarismo em derretimento. Por sua vez, os governadores do extremismo, em polvorosa, “emancipados” do garrote do ex-presidente sentenciado, parecem prisioneiros na Caverna de Virgílio, condenados a caminhar na escuridão em uma só direção, sem rumo, credibilidade, reputação e esperança. Ali jazem, como as Sombras na porta do inferno. É o preço a pagar pela escolha: o convívio “fraterno” com Satã na “Nau dos Insensatos”.
Passado e presente: as sombras de agosto
No terceiro ano de seu primeiro governo democrático, naquele infausto agosto de 1954, o presidente Getúlio Vargas (1951-1954) deixou a vida para entrar na história. A tragédia fez o povo brasileiro tomar as ruas do Brasil. Nas ruas, impediu o golpe de Estado tramado pelos coronéis do Exército e seu Manifesto de elogio ao golpismo. A coragem sacrificial de Vargas salvara a democracia ameaçada. Sete anos mais tarde, em 1961, naquele oitavo mês do primeiro ano de seu governo, Jânio Quadros, conservador, opositor e sucessor do grande presidente Juscelino Kubitschek (1956-1960), em trama de delirante renunciara à presidência da República à espera dos ausentes apoios das Forças Armadas e do povo. Caricato, deixaria o poder para ingressar e jamais sair da crônica do ridículo. O povo tomaria as ruas para exigir que o vice-presidente eleito João Goulart, do PTB e de esquerda democrática, assumisse a presidência. Do artificial parlamentarismo à volta do presidencialismo, em janeiro de 1963, a democracia aguardaria quase dois anos.
Em tempos recentes, porquanto eleitoralmente derrotada nas eleições presidenciais de 2022, a nova extrema direita brasileira, civil, militar e religiosa, iria suportar com a intrepidez de vitoriosos e o triunfalismo e a bestialidade dos fraudulentos o fracasso de sua tentativa golpista insurrecional do 8 de janeiro de 2023. Apossara-se do Partido Liberal. Ela mesma sepultara a antiga fraude de louvor à antipolítica. Fato é que o então réu Jair Messias Bolsonaro, com a impetuosidade dos venturosos, a tenacidade de destrutivos sectários e seu modo de ser do “tudo ou nada”, se impôs à frente, e somente ele, do bolsonarismo parlamentar na Câmara e no Senado e de seus bolsonarizados governadores. Assim conduziu a formação de alianças majoritárias com os diferentes partidos do “centrão” e as bancadas do “boi”, da “bala” e da “bíblia”. Por essa via, porquanto toldado por seus crimes de lesa-pátria, o bolsonarismo iria “sair das cordas”, ressurgir das cinzas e acossar o governo do presidente Lula.
Com efeito, durante o segundo semestre de 2024 até o final do primeiro semestre de 2025 o réu e criminoso exibiria triunfo. Sob o governo democrático e reformista, os democratas pareciam em luta defensiva de “resistência democrática” em defesa da democracia. O campo do progressismo exibia-se em estado de geral desorientação. O extremismo retornara às ruas com Bolsonaro à frente. Primeiro, queria impor ao país a anistia, seguindo-se a candidatura de Bolsonaro a presidente em 2026. Se candidato e vitorioso, dessa feita seguiria o script do presidente Donald Trump e dos líderes autoritários de Turquia, Hungria, e Rússia: cercear, até controlar completamente, a Suprema Corte, cercear a liberdade de imprensa e controlar politicamente os principais meios de comunicação, cercear até controlar completamente o Poder Legislativo, e mover tenaz perseguição contra os líderes democráticos até o ponto de sua aniquilação, uma vez estigmatizados como “inimigos internos” (Trump os aponta ao país como “terroristas”). Esse é o novo design de ação política estratégica e intencional da extrema direita brasileira, com Bolsonaro na liderança.
Semelhante a um raio em céu azul, eis que o presidente Donald Trump decide impor ao Brasil o “tarifaço”, com efeitos tributários exorbitantes a partir de 1º de agosto! Como queria a família Bolsonaro, Trump pôs a política externa dos Estados Unidos, as relações comerciais e a economia a serviço cativo da ideologia do novo autoritarismo e do belicismo. O Departamento de Estado, responsável pela defesa nacional, mudou o nome para Departamento de Guerra. O tarifaço expusera sua marca autoral da maldade: Trump e a família Bolsonaro, o extremismo internacionalizado. Uma vez mais, agosto! Até então, os governadores das direitas, de bolsonaristas leais a bolsonaristas ocasionais, de extremistas ideológicos a semileais à democracia e ao autoritarismo, haviam se lançado ao mercado competitivo das ambições presidenciais sobre o espólio da presa até aquele momento vulnerável e golpeada por processos criminais, à espera do julgamento. A prisão do ex-presidente era o vaticínio por todos compartilhado.
Em efeito, Tarcísio de Freitas enfeitara-se de candidatíssimo presidencial, o preferencial do mercado financeiro; Ronaldo Caiado assanhara-se de candidato do agronegócio; Romeu Zema inventara-se de candidato sem perceber que seria candidato sem nada ter a dizer sobre os seus seis anos de governos invisíveis, opacos e em tudo medíocres. Simbolicamente, esses lúgubres autocandidatos antecipadas haviam condenado ao ostracismo e a um desejado esquecimento o mesmo Bolsonaro que do barro os elegera governadores. Haviam aberto as portas do inferno do canibalismo político. A partir dos Estados Unidos, o filho do pai desafortunado, o deputado federal e candidatíssimo à presidência da República Eduardo Bolsonaro, lançou-se ao ataque e ao canibalismo político na cidadela do bolsonarismo. De lá, o deputado abriu ataque implacável contra o “traidor” Tarcísio de Freitas. Aqui, vendo as rachaduras, Bolsonaro defendeu Tarcísio; Malafaia atacou Eduardo Bolsonaro; este, atacou o pai; de volta, o pai atacou o filho. Entretanto, exultantes e sem nada compreenderem, os autocandidatos Tarcísio de Freitas e Romeu Zema saíram a público em louvores ao tarifaço e em elogios ao imperial Donald Trump, por eles visto como salvador da democracia brasileira. Em gestos de exuberante e incomparável covardia moral, de servidão voluntária sem causa e de subserviência de avassalados, exibiram sua má consciência de colonizados orgulhosos de sua vassalagem. Enrubesceram a face do cadáver de Silvério dos Reis depositado em seu túmulo de gelo! Eis a altitude moral das direitas brasileiras e de seus líderes!
O triunfalismo cobra preços cruéis aos idólatras. A cena inteira do ridículo iria exibir o cadáver insepulto de Bolsonaro, como assim já o percebiam os “seus” semileais governadores, ressurgindo do mundo dos mortos. A Fênix do extremismo, ao contrário de Vargas, imaginara sair da morte para entrar na vida, todavia, com tornozeleira na perna! Pois o ridículo sabe a quem oferecer seus préstimos! Seja como for, reconciliados, Bolsonaro e o filho Eduardo, lançaram-se ao “tudo ou nada” político de captura total da fidelidade do Partido Liberal, bolsonarista, do Partido Novo e do centrão, exigindo-lhes e lhes impondo o louvor à Trump e uma luta irrevogável para impor à Mesa da Câmara dos Deputados a proposição da PEC da anistia ampla, geral e irrestrita. Isso assim estabelecido, a adesão do centrão, conforme o padrão, cobrou seu preço. No entanto, o preço do centrão iria encontrar zelo e apreço em todo o Partido Liberal: a proposição, em confraria de autores, de uma outra PEC, a PEC da Blindagem. No primaveril domingo de 20 de setembro viria a ser sepultada pelas ruas do Brasil sob o merecido nome de “PEC da Bandidagem”, após popularizada com o nome de “PEC da Blindagem”. Assim todos os bolsonaristas deixaram-se compassivamente se impregnar da causa da bandidagem. Foi esse o pedágio de acesso à nobre causa da anistia plena para Jair Messias Bolsonaro, mais um herói à altura de sua causa!
Tomados de paixão pela sua causa, semelhantes a ensandecidos “tomaram” de assalto a Mesa da Câmara dos Deputados. Em gesto simbólico, promoveram a deposição do presidente Hugo Mota. Bloquearam a tramitação legislativa e somente liberaram a Mesa após acordo mediado pelo deputado Arthur Lira. Exigia e garantira a tramitação da PEC da Blindagem em regime de urgência, com votação direta em plenário. A urgência acasalara-se à voracidade, a voracidade à cegueira moral e política. Juntas, a todos conduziria ao abismo. A calamidade recebeu mais de 350 votos. A resposta viria em seguida: o Brasil foi às ruas, sepultou a calamidade e moveu cerco aos áulicos da bandidagem na política. A PEC caiu em desgraça e a desgraça, sobre os seus promotores. Na semana seguinte seria declarada inconstitucional e arquivada pelo Senado. Com a queda da PEC da Blindagem, cairia o ex-futuro projeto-de-lei da anistia. Seria transformado em projeto-de-lei dispondo sobre a dosimetria das penas, ora em tramitação. Ou seja, SEM ANISTIA!
Tão bom quanto, o governo, em ascensão na opinião pública e uma vez mais dono da iniciativa em política, pautou a PEC da Segurança Pública, a PEC da isenção para quem ganha até R$ 5 mil mensais, aprovou o projeto-de-lei do gás para todos e negocia a tramitação da decisiva Reforma Tributária II: a tributação dos muito ricos e ricos e a redução das desonerações fiscais.
Epílogo
A democracia precisa de democratas. Ameaçada, a nossa democracia esteve na borda do abismo. Todavia, não está ameaçada. Menos ainda consolidada. Como surpreendentemente estamos comprovando nos Estados Unidos da América, não há democracia consolidada. Com efeito, a democracia precisa de democratas.