Qualquer relação na vida, seja comercial, profissional ou mesmo pessoal, é baseada em trocas. Cambiamos moeda, tempo, atenção, saber e, sim, afeto. Quando Karl Marx formulou sua teoria sobre capital e trabalho foi cirúrgico. É necessário equilíbrio. Trocas desiguais significam relacionamentos desiguais, precários.
Poucas relações são tão desequilibradas como a de um torcedor e seu time de futebol. No caso atleticano, então, beira o bullying. Entregamos infinitamente mais do que recebemos, mas, mesmo assim, vivemos e celebramos cada minuto de alegria com a mesma intensidade que as intermináveis horas de sofrimento.
A relação parental, via de regra, obedece a mesma lógica. Pais amam seus filhos incondicionalmente, pouco importando se recebem atenção, carinho, cuidado e amor de volta. Certas relações não são escolhas, mas condições impostas pela necessidade de preenchimento do vazio existencial e de pertencimento.
Freud explica
Um jogador de futebol move-se pelas próprias trocas com o clube em que atua. Dinheiro, fama, vaidade, ambição, identificação. Quando a relação está equilibrada, ambos saem ganhando e mantêm o contrato – e o contato. Quando uma parte, contudo, não entrega o que dela se espera, o divórcio é iminente, não raro, litigioso.
Porém, entre atleta e torcedor, em que pesem sentimentos inerentes às relações afetivas, um componente adicional torna o caldo mais grosso: a projeção – no sentido freudiano. Resumida e simploriamente, é a condição inconsciente em que cada um projeta, no outro, as próprias falhas, os próprios desejos, os próprios medos.
Um ídolo nada mais é que alguém escolhido – individual e/ou coletivamente – como “objeto” de projeção. Um cantor, um artista, um político, um atleta… Enxergamos nele o que gostaríamos de ser. E como os desejos não são unânimes, ídolos, também não. Por isso alguns amam Lula e outros, Bolsonaro. E alguns não amam ninguém.
Pesos e medidas
Hulk é um ídolo não apenas pelo que fez e faz em campo, mas pelo que é, também fora dele. Seus feitos no planeta futebol ficarão registrados para a eternidade, já que um atleta da restrita prateleira de cima. No Atlético, porém, pesa, em seu favor, além de gols e títulos históricos, sua sincera ligação com o Clube e com a torcida.
Cada minuto jogado foi devida e regiamente remunerado. Marx diria que a relação capital-trabalho entre o craque e o Galo está equilibrada. “Ah, mas faz tempo que não joga bem”. Bom, aí é uma questão de qualidade, e não de trabalho. Nenhum contrato entre um clube e um atleta o obriga a jogar bem o tempo todo.
Até porque, no futebol, não há padrão entre remuneração e performance. Quem merecia ganhar mais em 2013, Ronaldinho ou Donizete? Um era genial. O outro, essencial. E em 2021: Keno ou o próprio Hulk? Se o Rony fizer os gols que darão o título da Sul-Americana, terão valido a pena os milhões de reais investidos nele?
Embaixador do Galo
O ponto, sobre Hulk, é outro. O que faz um torcedor, que até outro dia o idolatrava, hoje demonizá-lo como se fosse a reencarnação do Emerson Conceição? Será mesmo a baixa performance ou apenas a maldita projeção (fracasso, rancor, desamparo, frustração etc.) gritando mais alto, ao invés de “Hulk, Hulk, Hulk”, “Vá embora daqui”?
Por mim, em nome de tudo o que fez desde que chegou, deveria ser nomeado “embaixador mundial do Galo”. Hulk transcendeu a relação entre jogador e clube, e se tornou um elo de ligação da instituição Clube Atlético Mineiro com o futebol mundial. É, aliás, o que foi Ronaldinho Gaúcho – que jamais deveria ter saído de BH.
Os minutos jogados e os gols, repito, estão devidamente quitados via Pix. Mas um ídolo está muito acima disso. Hulk não merece – ainda que mereça – gratidão. Merece reconhecimento. E respeito! É grandinho o suficiente para entender que, em campo, joga quem estiver melhor. Ou menos pior, no caso desse time. Fica, Hulk! Senão em campo, no CAM. Aqui é a sua casa, é o seu lar.