Emprego sem prosperidade: o paradoxo brasileiro em seis fatos

Depois de um alívio em 2023, a produtividade do trabalho por hora cresceu só 0,1% em 2024 e segue virtualmente estagnada em 2025
Foto: Agência Brasil

O Brasil vive um aparente contrassenso: desemprego historicamente baixo e massa salarial recorde… mas poder de compra pressionado, informalidade alta, produtividade estagnada e um “apagão” de qualificação. Resultado: muita gente empregada, pouca gente prosperando.

1) Desemprego no piso da série, mas subutilização ainda alta

A taxa de desocupação caiu para 5,6% no trimestre encerrado em setembro de 2025 — menor nível desde o início da série (2012). Ainda assim, a subutilização (desemprego + desalento + subocupação por insuficiência de horas) segue elevada, em ~14%. Ou seja: há menos gente sem trabalho, porém muita gente trabalhando menos horas do que gostaria e o resultado disso é sentido no bolso.

2) Informalidade resistente drena benefícios e produtividade

A informalidade atinge 38% dos ocupados (cerca de 39 milhões de pessoas). Sem cobertura previdenciária e com volatilidade de renda, esse contingente tem dificuldade de planejar consumo, investimento em qualificação e escalar produtividade.

3) Renda real média bate recorde, mas não vira conforto

O rendimento real habitual marcou R$ 3.507 (recorde) e a massa salarial real também está no topo histórico (~R$ 354,6 bilhões). A boa notícia é que há renda; a ruim é que ela não “sobra”: grande parte se esvai no custo de vida e no crédito caro, especialmente para quem está na base. Exemplo disso é o custo do aluguel em Belo Horizonte (alta de quase 14% nos últimos 12 meses).

4) Custo de vida: inflação controlada no papel, pesada no carrinho

A inflação (IPCA) roda em 5,17% em 12 meses (set/2025), perto do dobro da meta de 3%. Em Belo Horizonte, a cesta básica custou R$ 718,74 em setembro, consumindo 44,23% do salário mínimo líquido de um trabalhador. Em 12 meses, a cesta subiu 8,37% na capital. O “salário psicológico” da classe média sente o mesmo: aluguel, energia e alimentação seguem como vilões.

5) Produtividade quase parada limita ganhos sustentáveis

Depois de um alívio em 2023, a produtividade do trabalho por hora cresceu só 0,1% em 2024 e segue virtualmente estagnada em 2025. Sem produtividade, aumentos de renda tendem a virar inflação e não prosperidade.

6) “Apagão” de qualificação: vagas existem, falta gente pronta

Segundo o Mapa do Trabalho Industrial 2025–2027 (CNI/SENAI), o Brasil precisará qualificar 14 milhões de pessoas em três anos, sobretudo em logística, construção, manutenção e metalmecânica. É o clássico mismatch: há emprego, falta habilidade.

Por que isso trava a prosperidade?

Prosperidade depende de 3 motores funcionando juntos: (1) emprego com horas suficientes; (2) renda real crescendo acima do custo de vida; (3) produtividade para sustentar aumento de salários sem repassar preços. Hoje, temos o motor (1) ligado, (2) intermitente e (3) quase desligado. Resultado: rotação alta, pouco avanço.

O que governos e empresas podem fazer (sem esperar 10 anos):

Políticas públicas (macro)

Educação técnica de choque (ETF/IFs, SENAI/SENAC): metas semestrais por microrregião, alinhadas a demandas locais (logística, construção, manutenção).

Agenda de produtividade: simplificar tributos setoriais, reduzir custo de energia para quem investe em eficiência e digitalização.

Infra + concorrência: logística e abertura comercial seletiva para baratear insumos e incentivar eficiência.

Conclusão

O Brasil tem emprego, mas a prosperidade não aparece porque três motores ainda não giram juntos: horas úteis (gente ocupada no que realmente gera valor), salário real que “sobra” (renda acima do custo de vida e do custo do crédito) e produtividade/qualificação (capacidade de entregar mais valor por hora).

Enquanto a agenda macro avança, PMEs e profissionais já podem capturar margem com automação simples, productização e treinamento orientado ao ticket médio. Prosperidade é processo, não evento. O Brasil tem jeito, mas precisamos nos movimentar, analisar os números como um todo. Existe uma melhora, mas não se sente no bolso. O suor do trabalho precisa ser sentido no bolso e na qualidade de viver melhor.

Fontes (principais)

• IBGE – PNAD Contínua: desemprego, subutilização, renda real e massa salarial (trimestre até set/2025).

IBGE – PNAD Contínua: informalidade (trimestre até ago/set/2025).

IBGE – IPCA: inflação 12m ~5,17% (set/2025).

DIEESE – Cesta básica (BH): R$ 718,74 em set/2025; 44,23% do salário mínimo líquido; alta de 8,37% em 12m.

FGV IBRE – Observatório da Produtividade: variação de 0,1% em 2024; estagnação recente.

CNI/SENAI – Mapa do Trabalho Industrial 2025–2027: 14 milhões a qualificar; áreas críticas.

Ciro Pereira é empresário, palestrante, consultor estratégico comercial e ex-vereador de Belo Horizonte, com sólida atuação nas áreas comercial, política pública, articulação institucional e projetos de impacto social. É formado em Administração pela Universidade FUMEC, com especialização em Marketing e Negócios Internacionais realizada em Dublin, Irlanda.

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