Cresci ouvindo, como a minha geração, os artistas do Clube da Esquina e descobrindo, neles, Minas Gerais e a modernidade tardia da nossa expressão artística mais transformadora do século XX. Antes de ler teoria da arte, eu já a vivia em forma de canção. Muito antes de aprender a palavra “modernidade”, eu já a experimentava, sem saber, em um acorde inesperado, em um salto de voz, em uma imagem que juntava trens, janelas, serras e nuvens.
Guardo, entre tantas, uma cena que me acompanha até hoje. Eu voltava para o interior, adolescente, no ônibus cortando a noite entre Belo Horizonte e o Alto Paranaíba. Do lado de fora, um desenho de sombras: postes rarefeitos, fazendas adormecidas, uma ou outra cidadezinha acesa. No fone de ouvido, um toca-fitas portátil insistia em repetir “Paisagem da Janela”, de Lô Borges e Fernando Brant. Eu olhava pela janela do ônibus e tinha a nítida sensação de que aquela canção entendia melhor do que eu o que significava crescer em Minas: estar dentro e fora ao mesmo tempo, olhar o mundo por um vidro em movimento, sentir o país passar devagar diante da gente e, ainda assim, perceber que o centro da experiência estava ali, no interior, na estrada, na montanha.
Anos depois, fui ligar essa memória à escuta de “Paisagem Útil”, de Caetano Veloso. As duas não se confundem nem em autoria nem em melodia, mas conversam numa camada mais funda: são paisagens pensadas. Em Lô e Brant, a janela mineira em movimento, a subjetividade montanhosa tentando se ver no mundo. Em Caetano, a paisagem filtrada pela consciência crítica, por uma modernidade que interroga o que é “útil”, o que serve, o que sobra. Juntas, “Paisagem da Janela” e “Paisagem Útil” formam um pequeno díptico do nosso modernismo tardio: de um lado, a montanha que olha; de outro, o litoral que pensa. Não se trata de empréstimo, mas de diálogo entre projetos estéticos autônomos, igualmente radicais, que se reconhecem na tarefa comum de repensar o Brasil.
Foi assim, pela via sensível, que fui me dando conta de que canções como “Paisagem da Janela”, “O Trem Azul”, “Um Girassol da Cor do Seu Cabelo”, “Clube da Esquina nº 2”, “Feira Moderna”, “Para Lennon e McCartney” e “Nuvem Cigana” não eram apenas trilha sonora da juventude. Eram, e são, tratados de estética popular, filosofia em estado melódico, teoria da modernidade mineira posta em prática por artistas que, talvez, jamais tenham usado esse vocabulário acadêmico, mas que o compreenderam em profundidade pela via da criação. Em muitas dessas músicas, está a assinatura delicada e aguda de Lô Borges, misturada à de seus parceiros: uma melodia de menino, mas com a gravidade de quem já ouviu o mundo inteiro ecoar nos becos de um bairro de Belo Horizonte.
É a partir dessa experiência – de vida e de escuta – que leio hoje o Clube da Esquina como modernidade musical das montanhas. O que eu sentia, adolescente, no escuro de um ônibus, é o que hoje reconheço, com vocabulário de teoria da arte, como modernismo mineiro tardio: a ousadia de reinventar a forma, sem quebrar o vínculo com a terra e com o povo; de ser universal sem desertar da esquina. Uma modernidade muito nossa, arraigada no modo de ser e existir em Minas Gerais. Não era empréstimo, não vinha de fora como modelo a imitar. Nascia do jeito mineiro de falar baixo e pensar fundo, de juntar melancolia e esperança, de carregar o mundo nas costas sem perder o humor. E é nesse arco que a participação de Lô Borges ganha um relevo particular, sem estar sozinho, mas jamais anônimo, no interior daquela constelação.
Há terras que se reinventam por meio de suas obras de arte. Minas fez isso mais de uma vez. Fez quando ergueu, à beira da lagoa da Pampulha, um conjunto arquitetônico que colocou a curva, a luz e o vazio no centro da experiência moderna brasileira. Fez quando Guignard, convidado a olhar as montanhas, transformou serras, povoados, procissões e neblinas em paisagens que já não são apenas vistas, mas ideias. E fez de novo, algumas décadas depois, quando um grupo de jovens, reunidos na esquina de um bairro de Belo Horizonte, decidiu que a modernidade também podia acontecer dentro de uma canção. A essa conjunção de talentos – Milton Nascimento, Lô e Márcio Borges, Beto Guedes, Toninho Horta, Fernando Brant, Wagner Tiso, Ronaldo Bastos e tantos outros – demos o nome de Clube da Esquina.
Pensar o Clube da Esquina à luz da modernidade mineira é colocá-lo no mesmo arco em que se inscrevem Pampulha e Guignard. Nos anos 1940, o conjunto da Pampulha inaugura uma linguagem arquitetônica que concilia ousadia formal e delicadeza barroca: curvas soltas à beira da água, igrejas que parecem flutuar, espaços de lazer e contemplação que propõem outro modo de viver a cidade. Pouco depois, Guignard chega a Belo Horizonte e, com sua escola e sua pintura, oferece uma versão moderna da paisagem de Minas: horizontes ondulados, cidades suspensas, festas e igrejas que parecem emergir de um sonho. Entre arquitetura e pintura, Minas encontra um modo próprio de ser moderna, sem renegar sua memória barroca.
Esse movimento, que percorre as décadas de 1940 a 1960, prepara o terreno para aquilo que, mais tarde, será a modernidade musical das montanhas. Se a Pampulha desenha uma nova paisagem urbana, e Guignard redesenha a paisagem pictórica, o Clube da Esquina redesenha a paisagem sonora. A partir da segunda metade dos anos 1960, no bairro de Santa Tereza, jovens músicos começam a se encontrar em casas, ruas e esquinas, entre discos dos Beatles, violões, pianos, igrejas, trens e conversas intermináveis. O que ali se experimenta não é apenas “fazer música”, mas buscar, na canção, a mesma liberdade de forma que a arquitetura e a pintura já tinham conquistado.
Nesse coletivo, cada artista ocupa um lugar particular, insubstituível. Milton traz a voz que parece atravessar continentes e épocas; Toninho Horta desenha harmonias de uma sofisticação quase inverossímil; Wagner Tiso cria arquiteturas de arranjo que ligam o popular ao erudito; Fernando Brant, Márcio Borges, Ronaldo Bastos dão palavras ao que é, ao mesmo tempo, íntimo e histórico. Lô Borges participa desse gesto como um dos vértices luminosos da constelação: compositor e cantor, jovem ainda na época do primeiro disco, ele imprime ao Clube uma melodia montanhosa, cheia de curvas, surpresas e clareiras de luz.
Olhar o Clube da Esquina a partir da participação de Lô é perceber como essa modernidade musical se faz, muitas vezes, por dentro da canção. Em “Paisagem da Janela”, “O Trem Azul”, “Um Girassol da Cor do Seu Cabelo”, “Clube da Esquina nº 2”, “Feira Moderna”, “Para Lennon e McCartney”, “Nuvem Cigana” e tantas outras, a mineiridade não aparece apenas como tema – estação de trem, menino, nuvem, janela –, mas como estrutura. As harmonias sobem e descem como estradas de serra; as modulações lembram os desvios do caminho que contorna morros; os silêncios entre frases funcionam como mirantes, momentos de suspensão em que se contempla o vale antes de seguir adiante. O que se ouve ali é, de fato, uma musicalidade das montanhas.
É essa musicalidade que nos autoriza a pensar o Clube como modernidade musical tardia de Minas. Tardia não no sentido de atraso, mas no sentido de continuidade: depois da curva arquitetônica da Pampulha e da curva poética de Guignard, vem a curva harmônica do Clube da Esquina. A mesma disposição para a experiência formal, o mesmo gosto pela delicadeza, a mesma recusa do óbvio, agora encarnados na canção. Em plena ditadura, aquela juventude mineira ousa compor músicas que misturam jazz, rock, música erudita, folclore e fé, sem perder a simplicidade do canto compartilhado. A canção se torna lugar de pensamento, filosofia sem jargão, teoria da arte em estado melódico. E, sobretudo, não se trata de uma modernidade “importada” de centros hegemônicos: ela brota das ruas de Belo Horizonte, da esquina de Santa Tereza, do largo da igreja, da cozinha da casa, do silêncio espesso das serras.
Do ponto de vista erudito, isso inscreve o Clube num campo muito mais amplo do que a simples “MPB”. Ele dialoga com a tradição do nacional-popular – Villa-Lobos, a bossa nova, a Tropicália –, mas desloca o centro de gravidade para Minas e para o interior. Em vez do mar, a montanha; em vez da avenida litorânea, a rua estreita de bairro; em vez da metrópole à beira da praia, uma capital montanhosa que aprende a ser cosmopolita sem abandonar seu sotaque. A chamada “província”, aqui, é laboratório. A partir de Belo Horizonte, o Clube da Esquina elabora uma modernidade que é, ao mesmo tempo, universal e profundamente mineira.
E essa modernidade das montanhas não acontece apenas na música. Ela é geração ampliada. Na literatura, Carlos Drummond de Andrade e Guimarães Rosa haviam aberto, com antecedência, o caminho de uma linguagem moderna, interiorizada e metafísica; Murilo Rubião leva o fantástico à rotina burocrática mineira; Autran Dourado explora uma prosa densa, de arquitetura interna tão rigorosa quanto uma planta urbana; e Adélia Prado, já nos anos 1970, faz com a poesia o que Lô, Milton e seus parceiros fazem com a canção: trazem o corpo, o sagrado e o cotidiano para o centro da linguagem, elevando a fala simples à altura da grande poesia. Nas artes visuais, Yara Tupynambá, Amílcar de Castro, Lygia Clark, Franz Weissmann continuam, em pintura, escultura e experiência, o mesmo impulso de síntese entre rigor formal e vida popular. No cinema, uma geração de realizadores mineiros começa a fazer da cidade e do interior cenário e metáfora. O Clube da Esquina é, assim, uma parte visível de uma constelação maior: palavra, imagem, arquitetura e som participam do mesmo esforço de reinventar Minas e o Brasil a partir das montanhas.
Dentro desse laboratório, a participação de Lô Borges tem uma marca que lhe é própria. Enquanto muitos compositores constroem suas obras a partir da palavra – a narrativa, a crônica, o manifesto –, Lô parece partir primeiro da melodia. Há um lirismo quase anterior à frase, como se as notas buscassem, sozinhas, o caminho entre a infância e o futuro. Sua voz, jovem e aguda nos primeiros discos, traz consigo uma certa timidez luminosa: não é a voz que ocupa o centro do palco, mas aquela que, quando entra, muda o clima do ambiente. Em suas canções, o mundo é visto desde uma janela – não a janela da torre distante, mas a janela de um quarto simples, em uma casa de bairro, de onde se enxerga o trem que passa e a nuvem que se desloca devagar.
O “disco do tênis”, seu primeiro álbum solo, condensa exemplarmente essa posição. Um par de tênis gasto na capa, uma recusa da pompa, uma afirmação silenciosa de que a modernidade também mora no cotidiano, no chão gasto de quem caminha. Ali, Lô não está sozinho: o disco nasce impregnado do clima de parceria e invenção coletiva que marca o Clube. Mas se ouvirmos com atenção, notamos que há, naquele conjunto de canções, uma assinatura: um modo de construir melodias que se tornará referência para muitas gerações posteriores. É como se a modernidade atravessasse o grupo inteiro, mas, em Lô, aparecesse com um acento particular.
Nestes dias em que a notícia da sua partida ecoa pela cidade, a esquina de Santa Tereza parece brilhar de outro modo. Não é apenas a memória que se acende: é Belo Horizonte inteira se reencontrando consigo mesma. Há velas, flores, rodas de música, postagens, vozes que se levantam para cantar – mas, sobretudo, há um sentimento discreto de gratidão por aquilo que a arte tem de mais potente: salvar identidades, recolher em forma de música aquilo que poderia ter se perdido em meio ao ruído anônimo das grandes cidades. A morte aparece de relance, como fato inevitável; quem ocupa o centro, porém, é a obra imortal que faz a cidade lembrar quem é.
E eis o ponto decisivo: essa obra – a dele e a de todo o Clube – já não pertence apenas à biografia de seus autores. Pertence a um patrimônio maior, que é o da sensibilidade brasileira. Isso é o que chamamos, em termos de teoria da arte, de imortalidade estética: a capacidade de uma criação ultrapassar o tempo em que nasceu e continuar operando, fertilizando imaginários, formando ouvidos, educando afetos. Hoje, quando um jovem descobre pela primeira vez “O Trem Azul” em uma plataforma digital, ou quando um grupo de amigos encerra a noite cantando “Um Girassol da Cor do Seu Cabelo” em uma praça, o que se celebra ali não é uma lembrança nostálgica do passado, mas uma presença viva.
É significativo notar que o Clube da Esquina já entrou, há muito, no território do erudito: é tema de teses, estudos musicológicos, cursos universitários dentro e fora do Brasil. Analisa-se sua forma, suas harmonias, seus arranjos, sua poética. Mas sua força maior está em continuar sendo popular. Como a Pampulha, que é, ao mesmo tempo, obra de referência internacional e lugar de passeio dominical; como as telas de Guignard, que encantam tanto o especialista quanto quem “apenas gosta de quadro bonito”, as canções do Clube habitam os dois mundos: o da reflexão e o da vida.
Por isso, quando pensamos hoje em Lô Borges, é menos importante fixar a data de sua partida do que reconhecer o modo como ele permanece. Permanece na constelação de grandes artistas com quem caminhou; permanece na textura melódica que ajudou a dar à mineiridade; permanece na coragem discreta de fazer da canção um lugar de liberdade, em tempos difíceis. A morte, para a arte verdadeira, é apenas um detalhe biográfico. A obra segue. E segue porque os grandes artistas não são apenas indivíduos brilhantes: são portas pelas quais uma sociedade inteira passa para se reconhecer e se imaginar de novo.
Ao lado de Milton, de seus irmãos Borges, de Beto Guedes, Toninho Horta, Fernando Brant, Wagner Tiso, Ronaldo Bastos e tantos outros, Lô ajudou a abrir uma dessas portas. Através dela, Minas se vê não apenas como território de serras e igrejas antigas, mas como centro produtor de modernidade. Através dela, o Brasil se surpreende com a possibilidade de uma canção que é, ao mesmo tempo, simples de cantar e sofisticada de analisar. Através dela, muitas pessoas encontram, sem saber, uma filosofia das montanhas: a ideia de que é possível ser profundo sem ser pesado, ser moderno sem ser agressivo, ser universal sem deixar de ser da esquina.
Imortais são as montanhas, que nos olham de longe e de perto ao mesmo tempo. Imortais são também as obras que conseguem, como o Clube da Esquina, transformar as montanhas em música e devolver ao mundo esse som em forma de amizade, memória e esperança. Entre as muitas vozes que compõem essa polifonia, a de Lô Borges permanece como uma das notas claras, necessárias, insubstituíveis. Não porque esteja “no centro” sozinho, mas porque, na grande roda de artistas que fizeram o Clube, ele ocupa para sempre o seu lugar: o do menino que, ao colocar os dedos no violão, fez a modernidade descer das teorias para a esquina de Santa Tereza.