Bernardo Guimarães, 200 anos

A rua, a toponímia e a consciência negra: quando Belo Horizonte nos obriga a olhar para o Brasil

Ontem passei pela Rua Bernardo Guimarães. Caminhava sem pressa, como quem apenas cumpre o trajeto do dia, quando fui tomado por uma sensação antiga: a de que em Belo Horizonte as ruas não são apenas ruas — são capítulos de um livro ainda em aberto. E, na Semana da Consciência Negra, essa rua em particular parece falar mais alto. É como se, ao pronunciar seu nome, a cidade lembrasse que 2025 marca o Bicentenário de um dos autores que mais revelaram a natureza mestiça e contraditória do Brasil.

A toponímia de Belo Horizonte sempre foi um gesto político. A capital nasceu planejada, racional, iluminista. Suas ruas homenageiam poetas, estadistas, cientistas, patronos da formação nacional. Mas algumas delas carregam mais densidade do que outras. Bernardo Guimarães é um desses nomes que mudam a forma como caminhamos. Ele dá sentido ao espaço, altera a paisagem moral. A cidade grava no chão a memória de um escritor que ousou falar de liberdade quando a liberdade ainda não tinha nome.

Em A escrava Isaura (1875), Bernardo fez aquilo que o Brasil do século XIX evitava: expôs o coração racial do país. Isaura, filha de mãe negra escravizada e pai branco, “quase branca”, simboliza a contradição da mestiçagem brasileira — tão celebrada e tão negada ao mesmo tempo. Como diria Lélia Gonzalez, não há democracia racial possível enquanto o país insistir em romantizar a mistura sem enfrentar a violência que a originou.

Ao escrever treze anos antes da Lei Áurea, Bernardo Guimarães se coloca na vanguarda ética de sua época. Ele não descreve apenas um drama individual: descreve o drama fundacional do país. A clareza de Isaura não a liberta; ao contrário, torna a escravidão mais escandalosa, mais impossível de ser justificada. Bernardo desmonta, página a página, o mito confortável da “condição natural” da servidão. Mostra que a cor não explica a violência — é a estrutura que explica.

E, ao passar pela Rua Bernardo Guimarães, não pude deixar de pensar como a toponímia fala silenciosamente sobre isso. As ruas são a forma cotidiana de uma cidade ensinar sua história. Quando Belo Horizonte inscreve “Bernardo Guimarães” em uma de suas artérias principais, ela reconhece que a literatura não é ornamento: é fundamento. A rua se torna aula, memória, convocação.

E Bernardo escreveu muito mais que Isaura.

O Seminarista desafia a moral religiosa; O Garimpeiro expõe a cobiça e a pobreza do interior mineiro; O Ermitão de Muquém mergulha na fé popular; O Elixir do Pajé reintegra o indígena à imaginação do país. Em todos, ele revela o Brasil que Minas conhece intimamente: a terra das contradições, do conflito entre fé e violência, entre delicadeza e dureza, entre o discurso da moral e a realidade da escravidão.

Por isso é tão simbólico reler sua obra na Semana da Consciência Negra. O Brasil ainda hesita em olhar para sua formação racial sem véus. E Bernardo, há duzentos anos, já dizia aquilo que seguimos repetindo: que a mestiçagem é uma história de encontros, mas também de feridas; de amor, mas também de dominação; de promessa, mas também de silêncio. Isaura é o testemunho dessa ambivalência.

As ruas de Belo Horizonte, quando pronunciamos seus nomes, nos ajudam a compreender isso. A toponímia é mais que homenagem — é pedagogia. Bernardo Guimarães está lá para nos lembrar que a literatura mineira acompanha o Brasil como consciência crítica. Drummond, Rosa, Adélia, Yara Tupynambá, Milton: Minas faz da palavra um modo de ver o mundo. E Bernardo é parte dessa linhagem.

Ontem passei pela Rua Bernardo Guimarães.

Hoje, após reler sua obra na Semana da Consciência Negra, percebo que caminhei, sem saber, sobre um território de memória. E que celebrar seu Bicentenário não é um rito, mas um gesto de futuro: só seremos livres como nação quando compreendermos que liberdade — tal como Isaura encarna — não é concessão, mas direito; não é exceção, mas fundamento.

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