Consciência em Tom Maior: do sopro de Satchmo à rosa de Cartola, a música como resistência

Gosto de imaginar Satchmo inclinando o corpo sobre o trompete, como quem acende uma vela num quarto escuro
Foto: Agência Brasil

Neste dia 20 de novembro, Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, escrevo a crônica que nasceu como homenagem e pergunta. O que a música revela quando a história tenta calar? Se a razão tropeça, por que o ouvido compreende? Lembro-me da máxima de Schopenhauer: “A música exprime a mais alta filosofia numa linguagem que a razão não compreende“.

Louis Armstrong, o Satchmo, menino de Nova Orleans, aprendeu a soprar a própria sobrevivência. Em outro canto do mundo, Cartola, poeta do morro, acariciava a esperança com dedos manchados de cal. Que segredo pulsa quando um sopro vira luz e um violão faz a dor respirar? E se a resposta não for um discurso, mas um timbre?

Eles caminharam pela noite escura com passos curtos e teimosos, enfrentando pobreza, racismo e portas fechadas. Como se aprende a insistir sem endurecer por dentro? Para eles, a música não foi enfeite: foi ferramenta. Com ela, o dia seguinte chegava menos pesado.

Os anjos dizem “amém”

Certa vez, Satchmo contou a história de um batismo no rio. O diácono mergulhava o fiel repetidamente, até a fé se confundir com afogamento. Quando o homem finalmente emergiu, gritou que acreditava… mas acreditava apenas no abuso de quem quase o afogara. Que batismos ainda hoje nos submergem sem pedir licença? Quando a “integração” exige que a negritude prenda a respiração, estamos purificando ou silenciando?

Um dia, Dona Zica, espantada, perguntou a Cartola por que tantas flores de repente. Ele sorriu e devolveu o mistério com doçura: “As rosas não falam“. Se a beleza chega, por acaso precisa se explicar? E quando uma voz negra se faz jardim, por que exigimos legendas, provas, estatísticas? Quem é que pede tradução para o perfume?

A morte nunca foi ponto final para os dois. Em cortejos e velórios, as marchas começavam em pranto e terminavam em dança. Que sabedoria é essa que não nega o luto, mas muda o compasso? No morro, no bairro, na esquina, a música serviu de passagem: transformava o fim em intervalo e o golpe em novo compasso. O que muda em nós quando aprendemos a escutar essa virada?

Diamantes negros

Havia também a graça – aquele jeito leve de desarmar o medo. Satchmo fazia da malícia um abrigo: a piada que aliviava o peso sem abandonar a verdade. Cartola respondia com enigmas e imagens que não explicavam, apenas iluminavam. Ali, o humor não era fuga: era coragem que escolheu ser leve. Dá para resistir sem perder a doçura?

Imagino os corpos que pagaram o preço do talento. Rugas, cansaço, cicatrizes discretas. Ainda assim, mantinham a postura ereta. Quando foi que aprendemos que a dignidade é uma música silenciosa? Talvez quando o trabalho pesa mais que o aplauso. Talvez quando o descanso depois do show vale mais do que qualquer biografia.

Esta homenagem não diminui aqueles que vieram antes, ao lado ou depois. Ao lembrar de Satchmo e Cartola, estendo minha reverência a todos os que também nos deram rota e voz: Zumbi, Dandara, Tereza de Benguela; Mandela, Martin Luther King; Angela Davis, Chimamanda Ngozi Adichie. Escolher apenas dois é acender um foco de luz que ilumina a casa inteira.

O som das almas 

A consciência negra não cabe em um único dia. Por que, então, marcar uma data no calendário? Para que o mundo pare por um instante e escute. Para que a memória não se distraia. Para que se confesse o óbvio que a razão teima em esquecer. O racismo estrutural persiste. E o que a música pode fazer diante disso? Talvez ela não mude a lei de imediato, mas muda a maneira como ouvimos. E onde há escuta, floresce o que é impossível negar.

Pergunto ao leitor e a mim mesmo: o que fazemos com o que ouvimos? Se a canção nos devolve a humanidade, conseguimos sustentá-la no dia a dia? Uma conversa a mais. Um preconceito a menos. Um convite para que mais vozes ocupem a praça. A música abre a porta; a justiça é quem precisa atravessá-la.

Gosto de imaginar Satchmo inclinando o corpo sobre o trompete, como quem acende uma vela num quarto escuro. Gosto de ver Cartola no jardim, confiante de que o que é belo não precisa se justificar. Se a beleza chega, não a atrapalhemos. Se a dor insiste, afinemos até que doa menos. E sigamos.

Final com afeto

Enquanto houver alguém que transforme golpe em compasso, a noite terá menos medo. Enquanto houver alguém que transforme silêncio em canção, a manhã saberá chegar. E no dia seguinte, ainda haverá quem sopre e quem floresça.

Leia também:

Prefeito de Sabará prepara saída do Republicanos após desgaste interno

STF marca, pela terceira vez, julgamento sobre reabertura de inquérito contra deputado mineiro

CNN encerra 2025 como maior canal de notícias do país

Veja os Stories em @OFatorOficial. Acesse