A escolha do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), por Weverton Rocha (PDT-MA) para relatar a indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, ao Supremo Tribunal Federal (STF) reforçou, dentro do governo, a percepção de que a tramitação não será simples.
O movimento se soma a uma sequência de episódios que ampliou o desconforto no Palácio do Planalto desde que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) decidiu preterir o senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG) e optar por Messias para a vaga no Supremo. A escolha contrariou Alcolumbre e ministros da Corte.
Lula anunciou o nome de Messias na quinta-feira (20), durante o feriado, publicou um Diário Oficial da União Extra com a indicação e, logo após, segurou o envio da mensagem ao Senado. Até a tarde desta terça-feira (25), o texto ainda não havia chegado ao Legislativo.
A intenção era permitir que Messias começasse a buscar apoios nos gabinetes já como indicado oficial, enquanto a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) não poderia marcar a sabatina sem o documento formal. A leitura entre governistas era de uma tentativa de ganhar tempo político e organizar a base antes da disputa.
O presidente do Senado, no entanto, dobrou a aposta. Ele chamou a imprensa nesta terça-feira, anunciou publicamente o cronograma da sabatina, prevista para 3 de dezembro, e das votações no colegiado e no plenário, que ocorrerão no dia 10, e ainda indicou Weverton como relator.
Dentro do governo, a avaliação é que o senador apenas tornou pública uma posição que já havia transmitido a Lula em conversas reservadas. Embora lidere o PDT na Casa, Weverton não integra o núcleo alinhado ao Palácio do Planalto.
Pelo contrário, o senador mantém relação próxima com Alcolumbre e com Pacheco. Nos bastidores, o presidente do Senado trata ambos como interlocutores de confiança e costuma recebê-los em reuniões reservadas.
Alcolumbre atuava como o principal articulador em prol de Pacheco no STF e chegou a alertar Lula de que Messias teria dificuldades para alcançar os votos necessários no plenário. Como mostrou O Fator, após a escolha presidencial, esse é mais um passo da movimentação que reforça esse recado.
Segundo a colunista Daniela Lima, do UOL, o presidente do Senado passou até mesmo a ligar para aliados pedindo votos contrários ao AGU, num movimento para medir forças com o Planalto e expor a insatisfação de parte da Casa com a escolha de Lula.
Messias e mais problemas
Enquanto enfrenta resistências no Senado, Messias também se tornou alvo de um movimento paralelo na CPMI do INSS. A votação de um requerimento para convocá-lo foi marcada para quinta-feira (28) pelo presidente do colegiado, Carlos Viana (Podemos-MG). A AGU é acusada de omissão diante de descontos indevidos aplicados a aposentados.
Governistas tentam barrar o avanço do pedido para evitar desgaste antes da sabatina. O requerimento havia sido apresentado em agosto e só agora foi desengavetado, num momento em que a indicação enfrenta resistências explícitas na Casa.
Tentativas
Com a pressão crescente, Messias iniciou uma estratégia de aproximação política. Abriu conversas reservadas com líderes partidários, intensificou contatos com senadores governistas e se prepara para circular pelos gabinetes. As votações são secretas.
Nesta segunda-feira (24), Messias divulgou até mesmo uma carta pública dirigida a Alcolumbre. Disse sentir-se “no dever” de se manifestar ao presidente do Senado, elogiou sua liderança política e afirmou ter construído com ele uma relação “franca e amigável” no período em que trabalhou na Casa.
“Acredito que, juntos, poderemos sempre aprofundar o diálogo e encontrar soluções institucionais que promovam a valorização da política, por intermédio dos melhores princípios da institucionalidade democrática”, escreveu.