Quando eu era criança, costumava olhar para os prédios de Belo Horizonte com uma mistura de curiosidade e respeito. Aquela paisagem de concreto, gente apressada, ônibus cruzando avenidas e lojas abrindo cedo sempre me pareceu maior do que eu. Com o tempo, entendi que a grandeza daquela cidade não estava só na altura dos prédios ou na largura das avenidas, mas na quantidade de vidas que se cruzam ali todos os dias.
Anos depois, na UFMG, estudando Gestão Pública, essa sensação voltou muitas vezes. Caminhar pela Pampulha, atravessar a cidade de ônibus, circular entre salas de aula, bibliotecas e bairros tão diferentes entre si reforçava uma ideia simples: Belo Horizonte é uma cidade imensa não porque aparece nos cartões-postais, mas porque funciona. E funciona porque tem gente.
Hoje, como vereador, essa percepção não mudou. Ela só ficou mais nítida. Belo Horizonte é grande porque é feita por quem acorda cedo no Barreiro, enfrenta ônibus lotado, segura a cidade de pé no chão de fábrica, no comércio do Centro, nos bares de Santa Tereza, nas cozinhas, nos hospitais, nas escolas. É feita pelos garis que limpam as ruas enquanto a cidade dorme, pelos motoristas que conhecem cada curva da cidade, pelos microcomerciantes que insistem em manter as portas abertas mesmo quando tudo aperta. Essa é a BH que raramente sobe no palco das comemorações, mas que sustenta a festa todos os dias.
É também a cidade que produziu o Clube da Esquina, que ecoa nas canções de Lô Borges e Milton Nascimento, que transformou casas simples em espaços de encontro, cultura e afeto. Uma cidade acolhedora, de conversa boa, de café passado na hora, de teimosia mineira. Porque BH é isso: esperançosa, grande e teimosa. Teimosa no melhor sentido da palavra. Daquelas que não aceitam ficar como estão quando sabem que podem ser melhores.
E Belo Horizonte já conquistou muito. Construiu identidade, cultura, potência econômica, capacidade de se reinventar. Também avançou em políticas públicas importantes, ainda que muitas vezes a passos lentos, degrau por degrau. A implantação da Tarifa Zero aos domingos e feriados reforça um princípio básico: circular pela cidade não pode ser privilégio. A ampliação do transporte noturno, com mais de 120 linhas rodando na madrugada, começa a reconhecer quem sempre sustentou a cidade fora do horário comercial.
Mas quem ama Belo Horizonte sabe: não dá para parar por aí.
Talvez seja justamente por ser grande que a cidade revele, com mais clareza, onde ainda precisa cuidar melhor de si. Uma cidade viva expõe suas contradições no cotidiano. Hoje, mais de 14 mil pessoas vivem em situação de rua em Belo Horizonte, número que coloca a capital entre as que mais concentram essa realidade no país. Ao mesmo tempo, a rede pública municipal perdeu mais de 13 mil alunos em apenas um ano, sinalizando dificuldades reais de permanência e pertencimento na escola. São dados que não diminuem a cidade — pelo contrário. Eles mostram o tamanho da responsabilidade que vem junto com a grandeza.
Essas informações não aparecem aqui como acusação, mas como convite à maturidade. Governar uma cidade como Belo Horizonte exige reconhecer que ela é complexa, desigual e pulsante. Exige políticas públicas que acompanhem o ritmo da vida real, que cheguem a quem mais precisa, que façam o básico funcionar bem antes de prometer o extraordinário.
É nesse ponto que política precisa deixar de ser promessa e virar ferramenta. Nosso mandato tem insistido nessa direção: defender mobilidade como direito, valorizar quem sustenta a educação todos os dias, cobrar planejamento, apresentar caminhos e acompanhar a execução. Nada disso resolve tudo sozinho. Mas tudo isso aponta para a mesma ideia: fazer Belo Horizonte funcionar à altura da cidade que ela já é.
Belo Horizonte funciona, muitas vezes, apesar do poder público. Funciona porque as pessoas fazem funcionar. O desafio é simples de formular e difícil de executar: fazer com que o poder público caminhe no mesmo ritmo da cidade. Que acompanhe sua grandeza, sua complexidade e sua vitalidade.
Celebrar o aniversário de BH é reconhecer o que já somos, sem perder de vista o que ainda podemos ser. Uma cidade mais justa, mais conectada, mais acessível. Uma cidade onde o direito de ir e vir, estudar, trabalhar e viver bem não dependa do CEP.
Parabéns, Belo Horizonte. Que a gente siga crescendo juntos.