A Polícia Federal deflagrou na manhã desta sexta-feira (19) a Operação Galho Fraco, cumprindo sete mandados de busca e apreensão contra os deputados federais Sóstenes Cavalcante e Carlos Jordy, ambos do PL do Rio de Janeiro. A ação, autorizada pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), apreendeu cerca de R$ 430 mil em espécie em um endereço ligado a Sóstenes.
Para além da apreensão de valores, a investigação expõe um modelo de fraude baseado na cooperação operacional entre os mandatos. O inquérito da PF, obtido por O Fator, aponta que os gabinetes não operavam desvios isolados, mas utilizavam uma logística compartilhada de empresas de fachada e um “intercâmbio” de estratégias financeiras entre assessores para fraudar a cota parlamentar de forma simultânea.
Segundo a Polícia Federal, “agentes políticos, servidores comissionados e particulares teriam atuado de forma coordenada para o desvio e posterior ocultação de verba pública”.
O documento que fundamentou a operação detalha a atuação de Adailton Oliveira dos Santos (ligado à liderança do PL e a Sóstenes) e Itamar de Souza Santana (secretário parlamentar de Jordy). A apuração descreve Adailton atuando como um consultor financeiro do esquema, orientando a engenharia necessária para que os pagamentos atingissem o teto permitido pela Câmara.
Em um dos diálogos interceptados, Adailton sugere a redução do valor de um contrato de aluguel de um veículo real no Rio de Janeiro (um Corolla Cross blindado) para liberar margem orçamentária na cota parlamentar. A manobra tinha um objetivo contábil específico: permitir o aumento do valor pago à empresa “Harue Locação de Veículos” — sediada em Brasília e apontada como firma de fachada — sem estourar o limite de gastos reembolsáveis.
A investigação concluiu que a redução do custo no Rio de Janeiro (de R$ 8.000,00 para um valor menor) viabilizou que o contrato com a Harue subisse para R$ 4.500,00 mensais. A estratégia serviu para drenar o saldo remanescente da cota parlamentar diretamente para a empresa controlada pelo núcleo investigado.
Infraestrutura compartilhada
A empresa Harue Locação de Veículos Ltda ME (que depois alterou o nome para Alfa Auto Car) funcionava como um “hub” de fornecimento de notas fiscais para ambos os parlamentares. Entre janeiro de 2020 e abril de 2024, a empresa recebeu R$ 214.000,00 de verbas de gabinete de Carlos Jordy e R$ 192.400,00 de Sóstenes Cavalcante.
A Polícia Federal identificou que a estrutura da empresa era incompatível com os serviços prestados aos dois deputados. Enquanto locadoras regulares no Rio de Janeiro operam com frotas superiores a 20 veículos, a Harue possuía apenas cinco carros registrados. Diligências no endereço fiscal na Asa Sul, em Brasília, encontraram o imóvel vazio, indicando dissolução irregular da sociedade, embora os pagamentos da Câmara continuassem ocorrendo.
Movimentações financeiras e “smurfing”
A quebra de sigilo bancário revelou o fluxo financeiro do grupo que operava a logística para os dois gabinetes. Adailton Oliveira dos Santos movimentou mais de R$ 11,4 milhões entre créditos e débitos, com R$ 2,7 milhões destinados a beneficiários não identificados. Já Itamar de Souza Santana movimentou cerca de R$ 5,9 milhões.
O inquérito cita o uso recorrente da técnica de “smurfing” — o fracionamento de depósitos em valores inferiores a R$ 10.000,00 para burlar o sistema de monitoramento do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
Mensagens de WhatsApp citadas na decisão de Flávio Dino indicam ainda a realização de pagamentos em espécie, tratados nos diálogos como acertos “por fora”. Em uma mensagem de 2024, há menção à presença dos parlamentares para a efetivação desses pagamentos: “Segunda feira o deputado vai vir segunda, aí eu vou ver com ele pra pagar o outro por fora, tá bom?”.
Os mandados cumpridos hoje ocorrem no Distrito Federal e no Rio de Janeiro, sem incursões nos gabinetes parlamentares em Brasília.