Teuda Bara (1941–2025): o teatro como forma de permanência

“Teuda Bara era a encarnação lúcida dessa síntese: barroca sem ornamento, popular sem concessão, contemporânea sem modismo”
Foto: Divulgação / Instagram

A morte de Teuda Bara não é apenas a despedida de uma grande atriz. É uma dessas interrupções que obrigam o pensamento a desacelerar. Algo se recolhe do mundo — e, justamente por isso, algo se revela com mais nitidez. Teuda pertence à linhagem rara de artistas cuja obra não se encerra no palco nem se resolve na biografia. Ela permanece na forma. No modo de fazer. No gesto que continua operando mesmo quando o corpo já não está.

Teuda foi uma das fundadoras do Grupo Galpão e, talvez seja mais justo dizer, uma de suas presenças estruturantes. Não no sentido da liderança visível ou da centralidade hierárquica, mas naquele plano mais profundo, quase silencioso, em que se molda uma ética. O Galpão se chama grupo porque nasce e permanece como criação coletiva — e Teuda encarnou, com rigor e generosidade, essa ideia de teatro de grupo: ninguém acima, ninguém fora, todos implicados.

Meu primeiro grande espanto teatral foi com o Galpão, na Praça do Papa, em Romeu e Julieta. Ainda me lembro do que aquilo produziu: milhares de pessoas reunidas ao ar livre, a cidade suspensa, um silêncio quase mineral, e Shakespeare atravessando o espaço público com uma naturalidade desconcertante. Ali entendi que o clássico não precisava ser protegido por paredes para existir; bastava ser tratado com inteligência, música, corpo, tempo e respeito pelo público. A praça virava ágora. A cidade, palco.

Depois veio São Gotardo, minha terra. A surpresa de ver o mesmo teatro — com a mesma densidade e a mesma escuta — acontecer no interior. E, ao longo de quase trinta anos, acompanhei praticamente todas as montagens do grupo. Esse percurso pessoal, que vai do impacto inaugural à maturidade estética, diz muito sobre o que o Galpão construiu: não um sucesso episódico, mas uma continuidade cultural. Formou público, educou a escuta, criou confiança. E Teuda estava ali, em muitas dessas experiências, como um eixo invisível, sustentando o paradoxo mais difícil do teatro: ser popular sem ser simplificador, rigoroso sem ser excludente.

Talvez o Grupo Galpão não possa — nem deva — ser sintetizado. Ele é menos uma companhia e mais um conceito de teatro em ação. Um teatro que se move entre o clássico e a rua, entre o rigor formal e a comunicação direta, entre o local e o universal. Espetáculos como Romeu e Julieta, Um Molière, Till, a Saga de um Herói Torto, Pequenos Milagres, O Inspetor Geral circularam por praças, ruas, teatros e festivais no Brasil e fora dele. Mas o que sempre importou tanto quanto o onde foi o como: música ao vivo como dramaturgia, circo como ética do corpo, coralidade como forma de pensamento, humor como inteligência crítica.

Costuma-se dizer que o Galpão é pós-moderno porque mistura linguagens. A observação procede, mas é insuficiente. Mistura, por si só, não explica permanência. O que o grupo realiza é algo mais raro: um pós-modernismo enraizado, não cínico, não fragmentário, fundado na escuta e na convivência. Há ali uma matriz barroca — barroca no sentido mineiro do termo — feita de contrastes, excessos controlados, convivência entre luz e sombra, riso e gravidade. Teuda Bara era a encarnação lúcida dessa síntese: barroca sem ornamento, popular sem concessão, contemporânea sem modismo.

O Galpão não produziu apenas grandes espetáculos. Produziu condições de existência. Criou um ecossistema no qual artistas, técnicos, produtores e educadores puderam — e ainda podem — viver da arte sem trair a arte. Em um país marcado pela descontinuidade cultural, isso é quase uma anomalia virtuosa. O Galpão Cine Horto materializa essa visão: formação, pesquisa, criação, transmissão. Um lugar onde o teatro se pensa e se refaz continuamente.

E é preciso dizê-lo com clareza: o Grupo Galpão produz no presente. Não sobrevive por inércia nem por reverência ao passado. Produz espetáculos, pensamento, formação e sentido agora — e é exatamente por isso que se tornou patrimônio vivo. Não é memória estabilizada nem monumento cultural; é um organismo em atividade.

Não é casual que o Grupo Galpão seja protegido como Patrimônio Cultural de Belo Horizonte, nem que o edifício e a cena teatral do Cine Horto sejam registrados como Patrimônio Histórico da cidade. O que se reconhece ali não é apenas um prédio, mas um processo vivo, uma prática continuada, uma forma de construir cidade pela arte. Poucos casos no Brasil alcançaram, ao mesmo tempo, linguagem autoral, comunicação popular, institucionalidade duradoura e reconhecimento patrimonial.

E, no entanto, há um paradoxo que precisa ser dito sem estridência. Patrimônios vivos exigem pactos vivos. Reconhecer o valor simbólico não basta se não houver condições para a permanência funcional. A arte não se sustenta apenas por aplausos, homenagens ou editais intermitentes. Ela precisa de mecenas contemporâneos, de alianças duráveis entre poder público, iniciativa privada e sociedade civil que compreendam a cultura como responsabilidade civilizatória, não como ornamento.

Falar do legado de Teuda Bara, portanto, não é falar de algo encerrado. É falar de um princípio ativo. Teuda ensinou — mais pelo gesto do que pelo discurso — que o teatro é arte do encontro. Que não há cena sem o outro. Que não há forma sem responsabilidade. O Galpão é isso: um teatro que ocupa a rua sem perder rigor, um clássico que fala a linguagem do povo, uma cultura criativa que forma artistas e cidadãos, um patrimônio que continua acontecendo.

Teuda partiu. Mas aquilo que ela ajudou a fundar permanece em estado de presença. Honrá-la não é apenas lembrar. É cuidar. Cuidar do Galpão. Cuidar do Cine Horto. Cuidar da arte como quem cuida do essencial — não como homenagem póstuma, mas como decisão de futuro.

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