Rir é coisa séria: “Acredite” e a filosofia pública da comédia

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Há comédias que apenas nos distraem. E há comédias que nos educam — não por lição explícita, mas por humanidade. “Acredite, um espírito baixou em mim” pertence a essa segunda espécie: a que faz rir e, ao mesmo tempo, reposiciona o mundo dentro de nós.

Em 2004, eu ainda era estudante quando levei minha mãe ao teatro para assistir à peça. Eu não sabia que aquela noite — simples como só o essencial pode ser — se tornaria um marco íntimo. Não foi apenas riso. Foi uma revelação de mundo: pela comédia, cabiam, sem escândalo e sem sermão, espírito e matéria, corpo e verdade, sexualidade e destino. Minha mãe ria com uma alegria que parecia descanso, e eu entendi, pela primeira vez, que o teatro também pode ser um lugar de reconciliação.

A peça nasce em Belo Horizonte, no fim dos anos 1990, com texto de Ronaldo Ciambroni e direção de Sandra Pêra. Seu motor é de uma simplicidade certeira: Lolô morre num acidente, recusa o próprio fim e retorna, incorporando em Vicente, um homem endurecido em preconceitos. O riso começa aí, mas não termina aí. Sob a gargalhada, a peça oferece um espelho — e, ao nos espelharmos, nós nos reconhecemos.

Eu a vi muitas vezes e ela sempre me pareceu nova. E, como prova de que o tempo ainda a reconhece, ela volta a respirar, agora, nas noites da Campanha deste ano. Talvez porque seja, no sentido mais direto, contemporânea: própria do presente. Há obras que envelhecem porque são apenas do seu tempo; e há obras que permanecem porque são do humano. “Acredite” não envelhece porque o que ela ilumina não passa: o desejo de ser aceito, o medo de ser recusado, a rigidez do preconceito, a necessidade do respeito como condição mínima de civilização.

No sentido filosófico, o contemporâneo é também aquilo que ilumina as sombras do seu tempo. E esta peça faz isso: revela, pelo riso, o que a vida social tenta esconder.

Existe um equívoco antigo em tratar a comédia como gênero menor. A história humana mostra o contrário. Henri Bergson dizia que rimos quando o vivo se torna mecânico — quando alguém endurece e vira caricatura de si. O riso, então, funciona como correção suave: tenta devolver movimento ao que se petrificou. Bakhtin viu no riso popular uma potência rara: por instantes, ele suspende hierarquias e devolve o mundo ao tamanho do corpo, da praça, da vida comum. Em tempos de certezas armadas, essa suspensão não é fuga: é lucidez coletiva.

Mas há algo ainda mais fundo: a comédia é, muitas vezes, o lugar onde o trágico aprende a não nos destruir. Nietzsche intuiu que certas formas de alegria não negam a dor — elas a transfiguram. O riso pode ser uma maneira superior de seriedade: não apaga a gravidade da existência; impede que a gravidade nos petrifique. Quando o teatro nos faz rir de nossas máscaras, ele nos devolve a possibilidade do vivo. Rir é desmontar automatismos, interromper a violência do “sempre foi assim”, abrir uma fresta para o possível, onde a pessoa reaprende a olhar.

Em Minas, isso ganha uma cor própria. O mineiro sabe rir sem banalizar o trágico. Há um riso mineiro que pensa: uma ironia mansa que contorna o abismo sem negar sua existência. Talvez por isso a peça encontre o público como quem encontra família. Ela fala do profundo com leveza, sem cinismo e sem crueldade. Ela desarma — e desarmar é um feito raro.

Nada disso existiria como existe sem Ílvio Amaral e Maurício Canguçu. Eles não estão apenas em cartaz; parecem cumprir uma missão: fazer rir sem degradar, sustentar o popular sem vulgarizar, manter a verdade como eixo. Fazer rir é para gênios porque o riso não tolera mentira. O público perdoa quase tudo, menos a falsidade. E é por isso que o espetáculo se renova: ele não se sustenta em truque, mas em presença — tempo, escuta, rigor e humanidade. Há, no trabalho deles, uma ética discreta: tratar o espectador como inteligência, não como alvo; como pessoa, não como número.

Há ainda o ponto mais filosófico da obra: ela nasce de uma morte. E a morte, aqui, não é ornamento; é lâmina. A comédia nos faz rir, mas não nos deixa esquecer que a existência é breve demais para o desperdício do preconceito. O riso vira ética: viver no respeito, normalizar a vida humana no sentido mais nobre — reconhecê-la como legítima na diversidade dos corpos e dos modos de ser. Entre o fim e a insistência, o espetáculo nos lembra, com doçura firme, que a vida não deve ser menor do que pode ser.

Eu volto sempre àquela noite de 2004, porque ali está meu ponto de partida: eu e minha mãe, lado a lado, assistindo à comédia produzir uma espécie de filosofia pública. Não a filosofia que escreve tratados, mas a que forma pessoas — a que reorganiza a sensibilidade e educa o olhar. E talvez seja por isso que eu diga, sem exagero, que caberia um teatro só para ela: um teatro dedicado àquilo que sustenta uma cidade — o riso que humaniza, o sorriso que desarma, a verdade que chega sem violência.

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