Crescer ou não crescer? A questão que divide moradores de Serra da Saudade

Na menor cidade do país, idosos temem perda da tranquilidade; jovens reconhecem qualidade de vida, mas querem mais oportunidades
Casas e igreja: Serra da Saudade vista de sua parte alta
Parte da população de Serra da Saudade deseja que o município permaneça tendo a menor população do país Foto: Prefeitura de Serra da Saudade/Divulgação

Ser o menor município do país em população tornou Serra da Saudade, no Centro-Oeste mineiro, nacionalmente conhecida. Seus moradores orgulham-se da tranquilidade de uma cidade sem engarrafamentos no trânsito, sem homicídios (o último foi há 50 anos) e com serviços básicos, de saúde e educação, principalmente, sendo oferecidos sem custo e com qualidade.

Porém, por trás da tranquilidade, há um questionamento que transforma Serra da Saudade em uma cidade partida. O embate diz respeito ao futuro e pode ser sintetizado em uma pergunta: crescer ou não crescer?

O não crescimento é a aspiração dos mais idosos. Já o crescimento é o que anseiam os mais jovens, que normalmente não conseguem realizar, na terra onde nasceram, suas aspirações profissionais e de futuro.

Quando terminam o ensino médio, os serrano-saudalenses têm que continuar seus estudos fora, nas cidades vizinhas de Luz ou Bom Despacho, principalmente. E, quando terminam a faculdade, mesmo que queiram, não conseguem retornar porque a cidade não os comporta profissionalmente.

Serra da Saudade tem 833 habitantes segundo dados de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Entretanto, em território, é um município de grande extensão (335,4 quilômetros quadrados), número ligeiramente superior aos 331,4 quilômetros quadrados de Belo Horizonte. Na prática, isso significa que, a cada quilômetro quadrado da capital, vivem 6.987 pessoas. Em Serra da Saudade, a densidade populacional é infinitamente menor: há cerca de duas pessoas por quilômetro quadrado.

Dos 833 moradores de Serra da Saudade, 542 vivem na sede. Os demais 241 habitam a zona rural. Se consideramos apenas os que residem no campo, a densidade populacional seria de 0,96 habitante por quilômetro quadrado. Se essa população estivesse uniformemente distribuída por todo o território do município, o morador mais próximo estaria a cerca de um quilômetro de distância do outro.

A sede, por sua vez, é tão pequena em extensão territorial que, para ir de um extremo a outro, basta uma caminhada de não mais que 20 minutos em passos normais de marcha. Na parte de baixo, há uma praça onde está a prefeitura e a antiga estação de trem, da extinta Estrada de Ferro Paracatu. No seu entorno, estão também os dois supermercados e a padaria. Na parte mais alta da cidade, está a igreja católica e as instalações da Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa).

Segurança a toda prova

O apreço que os moradores de Serra da Saudade têm pela segurança pode ser comprovado pelos dados sobre crimes violentos divulgados em dezembro de 2025 pelo governo de Minas de Minas Gerais.

O Fator procurou, entre os 128.501 registros, que compreendem entre janeiro de 2022 e o último mês do ano passado, algum que tenha ocorrido em Serra da Saudade. Nada foi encontrado, corroborando a sensação de segurança sentida pelos serrano-saudalenses.

Waldemar Ricardo defende que Serra da Saudade cresça, mas “devagarinho”, para não atrapalhar o sossego de seus moradores. Foto: Marcelo Freitas/O Fator

“Aqui é uma cidade muito civilizada, de um povo muito direito. Não tem droga; as casas dormem todas abertas e ninguém mexe”, afirma Waldemar Ricardo, de 53 anos, que nasceu em Serra da Saudade e trabalhou a vida toda como motorista da prefeitura, a maior empregadora do município.

Waldemar até gostaria que sua cidade crescesse um pouco, mas “devagarinho”, como faz questão de frisar. Um crescimento repentino não seria positivo, segundo ele. “Ia atrapalhar o nosso sossego”, explica.

Alísio Aparecido Alves também nasceu e morou a vida toda em Serra da Saudade, onde é dono da padaria que atende a cidade – a Sabores da Serra. A exemplo de Waldemar, também não vê com bons olhos a ideia de a aprazível localidade se tornar uma cidade maior.

“Não gostaria (do crescimento), porque junto vem a violência e tudo de ruim que existe”, afirma Alísio, que se diz satisfeito com a boa qualidade de vida tem em Serra da Saudade.

O receio da violência é o que também preocupa Bráulio Henrique de Araújo, funcionário da Copasa. Ele se diz apaixonado pela cidade onde nasceu e mora. Com base notícias que tem dos grandes centros, rejeita a possibilidade de mudança.

“Se a cidade crescer, a criminalidade também vai aumentar. Aqui, droga, se tiver, é só uma maconha. Coisa mais simples”, sintetiza.

Laurinda Cristina da Silva Araújo, esposa de Bráulio, tem posição um pouco diferente. Na percepção dela, se houvesse a instalação de uma fábrica na cidade, todos sairiam ganhando, já que o número de empregos subiria.

“Mas um crescimento muito grande, acho que não seria bom”, contrapõe ela, que é professora e reconhece, assim como marido, que o não crescimento é um empecilho para que os jovens permaneçam na cidade após a conclusão do ensino médio.

Laurinda e Bráulio são receosos quanto ao crescimento de Serra da Saudade. Laurinda defende que a cidade atraia pelo menos uma fábrica, para melhorar a vida dos mais jovens. Foto: Marcelo Freitas/O Fator

Jovens saem em busca de oportunidades

Érik Rodrigues Silva, de 17 anos, vê o tempo de permanência em Serra da Saudade perto do limite. O jovem concluiu o ensino médio e se prepara para começar o curso de Ciências Contábeis na vizinha Luz.

Ele reconhece os méritos da cidade onde nasceu e viveu, destacando a boa escola, a sensação de segurança – “Muita gente aqui deixa a porta de casa destrancada e ninguém mexe” – e as alternativas para a prática de esportes.

Porém, não se imagina voltando rapidamente para Serra da Saudade, que oferece poucas oportunidade de trabalho além dos muros da prefeitura. Por isso, Érik pensa em retornar somente após a aposentadoria.

Sua namorada, Thaila Alana, terminou o ensino médio no ano passado e também irá fazer faculdade em Luz. Pretende ser uma desenvolvedora de sistemas, um tipo de profissional que Serra da Saudade dificilmente irá demandar. Ela afirma que gostaria de continuar morando na cidade e acha ruim ter que sair.

“Aqui é uma cidade boa para se morar, mas que oferece poucas oportunidades de emprego”, constata.

Thaila e Érik defendem que Serra da Saudade cresça para que consiga gerar mais empregos e riqueza para seus habitantes. A expansão iria, segundo Érik, evitar que os nativos tenham de se deslocar para municípios vizinhos em busca de atividades simples como a compra de peças de roupa.

Érik, aliás, se queixa da falta de uma loja dedicada ao vestuário. Também não há posto de combustível ou farmácia. Motoristas necessitados de gasolina precisam dirigir até Estrela do Sul.

Serra da Saudade tem um posto de saúde que oferece a atenção básica primária, como consultas com o médico clínico geral, vacinação, exames pré-natal e curativos. Os casos mais complexos são encaminhados para os municípios vizinhos. Os medicamentos básicos são fornecidos de graça pela prefeitura.

Juliana André de Souza Oliveira é enfermeira do posto de saúde local. Ela acredita que o município deveria permanecer como está, especialmente pelo que oferece de segurança e tranquilidade.

“É uma boa cidade para se viver. Não troco por nada”, assegura.

Menos de 750 pessoas em 2047

O município existe há 64 anos, quando deixou de ser um distrito de Dores de Indaiá. Entre os anos de 1970 e 1980, Serra da Saudade experimentou um severo decrescimento populacional, com o número de habitantes despencando de 2.160 para 1.020.

Nova queda, menos drástica, aconteceu entre 1980 e 1990, quando o número de moradores chegou ao atual patamar, na casa dos 800. A estabilidade, contudo, tem data para terminar. De acordo com a Fundação João Pinheiro (FJP), em 2047 a população de Serra da Saudade será de 727 habitantes.

A despeito da redução populacionais, os indicadores de qualidade de vida de Serra da Saudade são bons e situam-se em uma faixa intermediária, o que garante aos seus moradores a tranquilidade de que os mais idosos tanto se orgulham.

Isso aparece, por exemplo, no principal indicador que mede a qualidade de vida dos brasileiros, o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM), que em Minas é calculado pela FJP. O IDHM que avalia o progresso de um município a partir de três dimensões: longevidade (vida longa e saudável), educação (acesso ao conhecimento) e renda (padrão de vida decente).

Em 2000, havia no Brasil 3.555 municípios com um IDHM maior que o de Serra da Saudade. Em 10 anos, esse número caiu para 2.503. O mesmo avanço no IDHM ocorreu no ranking estadual. Em 2000, havia 561 municípios com um índice maior que o de Serra da Saudade, que avançou 188 posições. Com isso, o número de municípios que o separam do líder caiu para de 373.

Prioridade é melhorar os serviços públicos

Na administração municipal, há as duas correntes de pensamento em relação ao caminho que Serra da Saudade deve trilhar em direção ao futuro. A prefeita, Neusa Ribeiro, defende a ideia de que o futuro não passa pelo crescimento, mas pela melhoria dos serviços básicos, como os de saúde, educação e segurança.

“Não imagino uma Serra da Saudade cheia de carros. Estamos de portas abertas para uma cidade cheia de carros, mas carros de visitantes, para a gente continuar com nossa população em harmonia”, afirma a prefeita.

Neusa Ribeiro falou a O Fator em uma data importante para a cidade: 15 de janeiro deste ano, quando a Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) inaugurou no município a primeira microrrede de energia fotovoltaica do país. Trata-se um sistema que funciona acoplado a um conjunto de baterias, feito para suprir eventuais quedas da rede convencional de eletricidade.

“Hoje, Serra da Saudade, a menor cidade do Brasil, se tornou uma gigante em tecnologia e inovação em energia”, festeja.

O problema das quedas de energia era real e acontecia fato de o município dispor de apenas uma porta de entrada da rede de distribuição. Se a rede caía, não havia como a Cemig fazer uma manobra e usar outra porta para fazer a energia voltar.

Alísio Alves, o dono da padaria de Serra da Saudade, afirma que certa vez, em um desses apagões, perdeu um freezer lotado de picolés. Ele se diz satisfeito com a entrada em operação do sistema de baterias, porque passou a ter a certeza de que novos apagões não vão mais acontecer.

Secretário de Educação defende crescimento

Para o secretário de Educação de Serra da Saudade, Ivan Hernane de Oliveira, com ou sem as baterias, o município precisa fazer mudar de rota, passando a investir no crescimento e na atração de empresas capazes de melhorar a empregabilidade.

O incentivo à economia, explica, é importante para tirar da prefeitura o título de maior geradora de postos de trabalho da cidade. Para Ivan, criar novos empregos também fará com que o número de jovens vivendo à custa dos pais diminuam. Ao mesmo tempo, permitirá com que outros, que deixam a terra natal em busca de formação universitária, possam retornar após a conclusão dos estudos tendo a perspectiva de encontrar trabalho.

Ivan Oliveira lembra que à época da emancipação de Dores do Indaiá, a população local era o dobro da atual. A pouca empregabilidade é, conforme o secretário, o principal fator para a redução.

Ivan Oliveira, secretário de Educação, afirma que, por falta de oportunidades, os jovens são os grandes prejudicados pelo não crescimento de Serra da Saudade. Foto: Marcelo Freitas/O Fator

Os sinais da redução populacional estão visíveis na sala de aula da própria secretaria de Educação onde, segundo Ivan Oliveira, há turmas no ensino fundamental com dois, quatro ou seis alunos Thaila Alana viu isso de perto: sua turma no terceiro ano do ensino médio tinha apenas oito integrantes.

“Nossa população está envelhecendo e, se a gente continuar nesse nível, vai deixar de existir”, afirma o secretário de Educação de Serra da Saudade, que já passou por várias administrações e está no cargo há 23 anos.

Denise Maia, pesquisadora da Fundação João Pinheiro, considera a situação de Serra da Saudade típica dos pequenos municípios. Neles, os jovens, quando completam o ensino médio, saem em busca de estudo e de oportunidades de trabalho, mas não retornam.

Assim, acabam levando para outras localidades o potencial de aumento populacional que seria de sua cidade de origem se não tivessem se mudado. É por isso, segundo ela, que os municípios menores serão os primeiros a serem afetados pelo decrescimento populacional que acontecerá o Brasil a partir de 2030, quando, de acordo com estimativas do Instituto Brasileiro de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o país chegará ao limite de 208 milhões de habitantes e, a partir daí, começara a declinar.

A queda significará, especialmente para as pequenas cidades, uma segunda onda de despovoamento. A primeira foi nos anos de 1970 e 1980, quando houve grande onda de migração das zonas rurais para as cidades. No futuro, entretanto, haverá o despovoamento de centros urbanos.

Denise Maia diz que cidades com Serra da Saudade precisam investir em programas que combinem crescimento e desenvolvimento, proporcionamento a melhoria da qualidade de vida e da oferta de serviços público.

Para ela, não há muitas formas de impedir que os jovens se mudem após o ensino médio. “Os meninos querem sair. Eles têm o direito de sair, pois estão atrás de oportunidades de vida”, argumenta a pesquisadora da FJP.

Para Denise Maia, na pequena Serra da Saudade, crescer ou não crescer não é a questão.

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