Em meio à pressão interna no PL para que o governador Romeu Zema (Novo) abandone a corrida presidencial e libere o palanque mineiro ao senador Flávio Bolsonaro (PL), o deputado federal Nikolas Ferreira (PL) negou a possibilidade de disputar o governo de Minas Gerais.
No mesmo contexto, o vice-governador e pré-candidato do PSD ao comando do estado, Mateus Simões, divulgou um vídeo gravado em janeiro ao lado do parlamentar, com menções a compromissos políticos. O gesto foi interpretado nos bastidores como uma tentativa de reafirmar o acordo apalavrado com o PL.
O assunto voltou ao centro do debate depois de a Folha de S.Paulo publicar que Flávio Bolsonaro avalia lançar o deputado federal na disputa pelo comando do estado. Internamente, nomes do PL nacional dizem que a retomada do tema surge, sobretudo, como um instrumento de pressão pública para forçar Zema a recuar do Planalto.
Ao colunista Igor Gadelha, do portal Metrópoles, Nikolas negou nesta segunda-feira (12) a possibilidade de entrar na corrida pelo governo mineiro: “Vou para a reeleição no Congresso. Agora, mais do que nunca, está provado que minha voz em âmbito nacional é muito importante. Estamos trabalhando para achar um nome para o governo de Minas”.
Interlocutores do deputado acrescentam que, além de atuar como cabo eleitoral relevante e puxador de votos para a Câmara dos Deputados, Nikolas já deixou claro, em mais de uma ocasião, a Jair Bolsonaro e a aliados próximos que não pretende assumir a gestão de um estado com dificuldades financeiras bilionárias. Além disso, pessoalmente, ele pretende continuar com atuação nacional, em Brasília.
Mateus Simões na equação
Atualmente, o PL mantém um acordo apalavrado com o PSD. A articulação contou com a participação direta de Nikolas Ferreira, com aval dos diretórios estadual e nacional da legenda. O compromisso previa a presença dos liberais na chapa, com a indicação de um candidato ao Senado.
Após a publicação do jornal paulista, inclusive, Simões divulgou um vídeo nas redes sociais ao lado do parlamentar, em que elogia o mineiro e afirmou que vai analisar as demandas apresentadas por ele para o estado. O deputado também faz acenos ao vice-governador.
Na legenda, Simões: “Compromisso não é discurso. É atitude. E é isso que faço questão de reforçar hoje: tudo que vem do deputado @nikolasferreiradm é prioridade, porque ele representa Minas Gerais. É assim que a gente constrói o estado em que acredita: com trabalho sério, compromisso e respeito ao povo”.
O vídeo foi gravado em janeiro. E interlocutores avaliaram a publicação como uma resposta às últimas movimentações.
A ressalva de nomes nacionais à aliança do PL e PSD no estado é o fato de o vice-governador sustentar um palanque alinhado a Zema na disputa presidencial. Diante desse cenário, cresce a pressão para que o governador desista da corrida ao Planalto e seja vice em um projeto encabeçado por Flávio Bolsonaro. Zema tem reiterado que não pretende abandonar a disputa.
Momento de conversas
Na sexta-feira (30), O Fator mostrou que, apesar dos elogios à gestão de Zema feitos pelo presidente estadual do partido, deputado federal Domingos Sávio, o PL mantém uma postura pragmática. Ele ressaltou que as pesquisas indicam Flávio como o nome com maior viabilidade eleitoral no campo da direita para enfrentar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
O parlamentar lembrou também que o próprio Zema já sinalizou que sua candidatura dependeria de uma análise de viabilidade. “Zema gerencia com autoridade, o que, consequentemente, melhora a qualidade de vida da população. Ele aplicou na gestão pública o que aprendeu no mundo corporativo, e isso tem muito valor. É um nome que respeitamos muito”, disse.
O peso de Minas Gerais
A avaliação de integrantes do diretório nacional do PL mais próximos da família Bolsonaro é de que Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do país, exige atenção estratégica. Nesse contexto, não seria adequado que o partido integrasse, no primeiro turno, uma chapa que não esteja alinhada nacionalmente a Flávio Bolsonaro.
Entre as alternativas em discussão está a possibilidade de apoiar outro candidato na disputa, com a indicação de vice e composição para o Senado. Um dos nomes analisados é o do senador Cleitinho Azevedo (Republicanos), pré-candidato ao governo, embora o Republicanos mantenha diálogo com diferentes campos políticos.
Há também uma lembrança que remonta a 2022. Naquela eleição, Zema formalizou apoio a Jair Bolsonaro no segundo turno. O PL avalia que a ausência de uma estrutura conjunta desde o início foi determinante para a derrota do ex-presidente em território mineiro, onde obteve 49,80% dos votos válidos, contra 50,2% de Lula. E a máxima é: quem ganha em Minas, ganha no Brasil.
O PL chegou a lançar o senador Carlos Viana como candidato ao governo para garantir palanque a Bolsonaro, mas ele terminou a disputa na terceira colocação. “Se o Zema for candidato a presidente, não poderá ter apoio em Minas, porque o apoio em Minas é do PL. O cenário nacional vai pesar. Não podemos ficar presos a projetos pessoais. O compromisso é garantir a eleição do Flávio”, reforçou Domingos Sávio na última semana a O Fator.
Sobrenome em primeiro lugar
Segundo uma fonte próxima ao presidente do PL, Valdemar Costa Neto, há no partido uma preocupação adicional que vai além da articulação da direita: evitar que a família Bolsonaro transmita a imagem de perda de protagonismo nas decisões estratégicas nos estados, especialmente em Minas Gerais.
Aliados lembram que o ex-presidente tem uma ligação simbólica com o estado desde a campanha presidencial de 2018, quando sofreu um atentado durante um comício em Juiz de Fora, na Zona da Mata. A prioridade, segundo essa avaliação interna, é tomar uma decisão que assegure protagonismo ao PL e ao sobrenome Bolsonaro nessas articulações.
Há também divergências dentro da própria família. Michelle Bolsonaro, por exemplo, apoia Nikolas Ferreira e as decisões políticas conduzidas por ele, enquanto os filhos do ex-presidente defendem a manutenção do protagonismo da direita sob a liderança direta da família. A preocupação central é evitar a perda desse capital político.