BR-381 é a rodovia federal com a maior média de acidentes por quilômetro

Duplicação do trecho mais crítico da estrada, entre Belo Horizonte e Caeté, na Região Metropolitana, começa no mês que vem
Foto mostra acidente na BR-381
FDC afirma que acidentes no trecho entre BH e Valadares são muito mais mortíferos que entre BH e São Paulo. Foto: CBMMG/Divulgação

Conhecida como “Rodovia da Morte”, a BR-381 foi a rodovia federal com a maior média de acidentes por quilômetro entre 2018 e 2024. Segundo estudo da Fundação Dom Cabral (FDC), houve 3,24 acidentes a cada 1 mil metros de pista.

A BR-381 tem 899 quilômetros de extensão e está dividida em dois trechos. Um, totalmente duplicado, conta com 584 quilômetros e liga Belo Horizonte a São Paulo. Outro, com parte em pista simples, possui 351 quilômetros e vai da capital mineira a Governador Valadares, no Vale do Rio Doce, onde se conecta à BR-116. A estrada é totalmente gerida pela iniciativa privada, com exceção de uma pequena porção de asfalto, de 37 quilômetros, entre BH e o trevo de Caeté, na Região Metropolitana.

O segundo e o terceiro lugares do ranking de acidentes por quilômetros são ocupados pelas duas maiores rodovias brasileiras e extensão — as BRs 101 e 116, respectivamente. Ambas cortam o país no sentido Norte-Sul.

A BR-101 começa em Touros, no Rio Grande do Norte, e termina em São José do Norte, no Rio Grande do Sul. Já a BR-116 vai de Fortaleza, no Ceará, a Jaguarão, no Rio Grande do Sul, na fronteira com o Uruguai. Enquanto uma corre rente ao litoral, a outra atravessa o Brasil pelo interior.

Conforme a FDC, houve 2,22 acidentes em cada um dos 4.650 quilômetros da BR-101. Na BR-116, que tem 4.660 quilômetros, a média de acidentes por quilômetro foi de 2,05..

Em números absolutos, a ponta é da BR-101, onde ocorreram 10.353 acidentes, ante 9.692 da BR-116. Os números são superiores aos da BR-381, que, por ter extensão menor, ocupa a terceira posição, com 2.916 registros.

Fernão Dias é trecho mais perigoso

O estudo da FDC levou em conta os dados gerais da BR-381, sem segmentá-los conforme os trechos. A junção, solicitada por O Fator, revelou um fato curioso: ainda que a Fernão Dias, nome dado ao trecho BH-São Paulo, seja mais moderno, de pista dupla e com boa sinalização, o número de acidentes por quilômetro ali (3,82) é quase o dobro do registrado no outro trecho, o BH-Valadares — este, sim, responsável pelo apelido “Rodovia da Morte”. Nele, entre 2018 e 2024, foram contabilizados 2,16 acidentes por quilômetro.

Questionada sobre a aparente contradição entre os números e a realidade dos dois trechos, a FDC explicou que há grandes diferenças entre eles. Na Fernão Dias, o tráfego é mais intenso que na porção BH-Valadares, onde a gravidade dos acidentes chama a atenção.

“Ali, um acidente é muito mais perigoso”, afirma o engenheiro Ramon Victor César, pesquisador da FDC e um dos responsáveis pelo estudo.

Conforme Ramon, como a Fernão Dias possui pista dupla, raramente ocorrem colisões frontais. Por outro lado, acidentes do tipo são os mais comuns na parte da BR-381 que segue até o Vale do Rio Doce.

Na Fernão Dias, os acidentes costumam ser mais leves pelo fato de as colisões, geralmente, terminarem contidas pelos parachoques dos veículos envolvidos.

Alta mortalidade

Considerando todos os acidentes ocorridos nos dois trechos da BR-381, a taxa de mortalidade entre 2018 e 2024 ficou em 21,1%. O percentual é superior aos registrados nas BRs 101 (17,6%) e 116 (19,2%).

Nesse período, apenas 3,7% dos incidentes registrados na rodovia mineira terminou sem mortos ou feridos. Na BR-101, o índice foi de 4%; na BR-116, de 4,09%,

Ainda que os números da 381 sejam muito desfavoráveis, Ramon César Victor revela um certo otimismo em relação aos próximos anos, tendo em vista as obras de duplicação de alguns trechos, realizadas pelo governo federal, e a concessão da rodovia para uma operadora privada, a Nova 381.

Um dos indicadores que baliza o otimismo do engenheiro é a redução do número anual de acidentes. Se em 2018 foram 681 casos, no ano retrasado houve 636. Ramon atribui a queda à conclusão, em alguns trechos, das obras de duplicações. Para o especialista, a partir do avanço na construção das novas pistas, as estatísticas tendem a cair ainda mais.

Ramon Victor lembra, ainda, que rodovias duplicadas são quatro vezes mais seguras que estradas de pista simples, apenas de mão e contramão. Na visão do pesquisador da FDC, a concessão da gestão à iniciativa privada ajuda a reduzir o número de acidentes. Segundo ele, 80% dos casos graves acontecem em trajetos geridos pelo poder público.

“O governo não consegue colocar todas as BRs em ótimas condições de operação. Isso tem que ser com a iniciativa privada”, reforça.

Nova 381, concessionária da rodovia, já fez a substituição de 900 placas de concreto do pavimento que estavam danificadas. Foto: Nova 381/Divulgação

Concessionária promete melhorias

A Nova 381 assumiu a administração do trecho entre BH e Governador Valadares em 6 de fevereiro do ano passado. À reportagem, a empresa informou que, no ciclo inicial de investimentos, trocou mais de 900 placas de concreto nos trechos já duplicados. As estruturas substituídas apresentavam rachaduras e comprometiam a segurança dos automóveis.

A concessionária relatou ainda ter aplicado mais de 170 mil toneladas de asfalto na recuperação de 270 quilômetros de pista que estavam danificados. Também houve atenção à faixa de domínio, com a de mais de 1,6 mil toneladas de lixo que haviam sido descartados indiscriminadamente. Paralelamente, empresa promoveu a troca de mais de 6 mil placas de sinalização.

A estratégia da Nova 381 inclui, por fim, um programa semanal de obras para reparos pontuais e recomposição de pavimento.

Mais um trecho duplicado

A duplicação do trecho mais crítico da BR-381, entre o trevo de Caeté e o Anel Rodoviário de Belo Horizonte, vai começar em março. A informaçao, divulgada em janeiro pelo ministro dos Transportes, Renan Filho, foi endossada nessa quinta-feira (5) pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) em Minas.

A duplicação deste trecho será feita em duas etapas. A primeira compreende o trecho entre o trevo de Caeté e a cidade de Ravena. O segundo, a área entre Ravena e o Anel Rodoviário.

A priorização do primeiro trecho decorre do fato de nele não haver necessidade de fazer o reassentamento de famílias em situação de vulnerabilidade social, As obras nos dois lotes serão realizadas pela Construtora Luiz Costa, cujo contrato com o Dnit foi assinado em outubro de 2024.

Enquanto isso, o Dnit dá andamento aos trabalhos de preparação do reassentamento das famílias que residem nos primeiros quilômetros da estrada, próximo ao Anel Rodoviário.

Em novembro do ano passado o Tribunal de Contas da União (TCU) homologou um acordo pelo qual a Prefeitura de Belo Horizonte irá ceder uma área no bairro Capitão Eduardo para a construção das moradias para onde serão transferidas as famílias.

No momento, o Dnit trabalha no fechamento de um acordo judicial a ser firmado entre o órgão, a União, prefeituras de Sabará, Santa Luzia e Belo Horizonte, além do Ministério Público Federal (MPF) e a Defensoria Pública da União (DPU).

Paralelamente, o Dnit já está realizando o cadastramento das famílias a serem transferidas. Após a duplicação, o trecho será transferido para a Nova 381, que venceu o leilão de concessão para toda a rodovia, entre a capital e Governador Valadares.

O contrato de concessão prevê que a Nova 381 vai duplicar 106 quilômetros da BR-381 a partir do trevo de Caeté em direção a Valadares, conforme previsto no Plano de Exploração da Rodovia (PER). A duplicação passará pelos municípios de Bela Vista de Minas, Nova Era, Coronel Fabriciano, Ipatinga, Santana do Paraíso, São Gonçalo do Rio Abaixo e Belo Oriente.

O programa prevê também a execução de 40 quilômetros de faixa adicional em pista dupla entre Bom Jesus de Amparo e Caeté. Em pista simples, o contrato de concessão contempla os 70 quilômetros entre Governador Valadares e Belo Oriente, que, segundo informou a concessionária, poderão ser modificados de faixa adicional para pista dupla. 

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