O depoimento do governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), à Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS não deve sair do papel em razão do calendário apertado e de arranjos políticos. Essa é a aposta de integrantes do colegiado ouvidos por O Fator.
Em dezembro, a CPMI aprovou um requerimento para convocar o governador mineiro, sob protestos de parlamentares do Novo e da oposição ao governo Lula. O pedido foi apresentado pelo deputado federal Rogério Correia (PT).
Como O Fator mostrou, a iniciativa buscava incluí-lo no escopo das investigações sobre o rombo previdenciário e relacioná-lo ao tema que ele próprio tem explorado nas redes sociais para criticar o presidente da República.
Desde então, no entanto, o foco do colegiado mudou de rumo e passou a se concentrar em questões envolvendo o Banco Master e Daniel Vorcaro. Com isso, acreditam interlocutores, não haverá tempo para incluir a oitiva de Zema.
Outro ponto destacado por fontes ouvidas pela reportagem é que havia um consenso no grupo de que governadores chamados deveriam ser convidados, o que não ocorreu no caso de Zema, que foi convocado. Os trabalhos do colegiado estão previstos para ser encerrados no fim de março.
Pesa contra a ida do governador ao Congresso Nacional a falta de consenso sobre uma data. A comissão chegou a iniciar, junto ao Palácio Tiradentes, tratativas para marcar a sessão, mas as conversas estagnaram.
Durante a sessão em que o requerimento foi analisado, alguns parlamentares tentaram substituir a convocação de Zema por um convite, sob o argumento de que obrigar o chefe do Executivo estadual a marcar presença representaria uma descortesia.
Em caso de ausência de convocados sem justificativa aceita, a comissão pode solicitar condução coercitiva, conforme prevê a Lei das CPIs, além de comunicar o Ministério Público para análise de eventual crime de desobediência.
Farpas com o PT
Outra leitura feita por governistas do colegiado é que a aprovação do requerimento já serviu como instrumento de pressão política sobre Zema. Nesse contexto, a presença ou não do político do Novo na CPMI poderia não ter mais o impacto que era esperado na época.
Em um primeiro momento, a equipe do governador chegou a avaliar que a ida à sessão poderia ser tratada como “oportunidade”. Um dos objetivos seria ampliar a projeção nacional do chefe do Executivo mineiro com foco nas eleições de 2026.
O entendimento era de que, na condição de pré-candidato ao Palácio do Planalto, Zema poderia usar a exposição proporcionada pela comissão para reforçar o discurso que já vem adotando nas redes sociais, ao atribuir ao presidente Lula a responsabilidade pelo rombo do INSS.
Quebra de sigilo negada
Um segundo requerimento que também mirava o governador solicitava a elaboração de Relatórios de Inteligência Financeira e autorizava a quebra dos sigilos bancário e fiscal da empresa Zema Crédito, Financiamento e Investimento, no período de 1º de janeiro de 2015 a 25 de novembro de 2025. O pedido foi negado.
Nas justificativas, Rogério Correia alegou que a Zema Crédito, Financiamento e Investimento atua no mercado de empréstimos consignados oferecidos ao público investigado e que, por operar com contratação totalmente online, pode envolver riscos adicionais a idosos com pouca familiaridade tecnológica.
O deputado federal mineiro também afirmou que Zema deveria prestar esclarecimentos à CPMI porque auditorias da Controladoria-Geral da União (CGU) identificaram falhas, cobrança de taxas acima da média do mercado e descontos indevidos em consignados vinculados ao Auxílio Brasil, linha de crédito na qual a financeira do grupo figurou entre as instituições autorizadas pelo Banco Central.
Conforme informou em ofício enviado à CPMI do INSS, o governador mineiro não integra a administração da empresa desde outubro de 2018. No documento, ele sustenta que o período tratado pelo requerimento corresponde à gestão de diretores estatutários sem qualquer vínculo familiar com ele.
“Não há esclarecimentos sobre as atividades da Zema Crédito que não possam e não devam ser prestados pela diretoria da companhia”, diz trecho do ofício, que também informa que o chefe do Executivo é acionista minoritário da empresa.