Em 14 de março deste ano, uma manifestação organizada por ativistas pró-Palestina em Itacaré, no litoral da Bahia, ganhou repercussão nacional. O protesto tinha um alvo bastante específico: a presença de turistas israelenses na cidade. Houve tumulto, confrontos verbais e algumas prisões.
Para quem conhece a região, a escolha do alvo não poderia ser mais desconectada da realidade local. Há décadas, Itacaré e outras praias do litoral baiano são destinos tradicionais de turistas israelenses. Restaurantes exibem cardápios em hebraico, pousadas se adaptaram a esse público e boa parte da economia local passou a depender desse fluxo constante de visitantes.
No dia seguinte ao protesto, trabalhadores do setor de turismo realizaram uma manifestação de sentido oposto. Guias, donos de pousadas, garçons e comerciantes foram às ruas defender a presença dos turistas israelenses e alertar para os prejuízos econômicos que a hostilidade poderia provocar. Para eles, a questão era simples: afastar esse público significaria comprometer uma fonte essencial de renda para a cidade.
A situação revela uma contradição curiosa — e cada vez mais frequente. Manifestantes que se apresentam como defensores de direitos humanos e das minorias parecem ignorar completamente a realidade das pessoas diretamente afetadas por suas bandeiras políticas.
No caso de Itacaré, há ainda um aspecto jurídico evidente. A discriminação contra pessoas em razão de sua origem nacional constitui crime no Brasil, nos termos do art. 20 da Lei 7.716/89. Independentemente do posicionamento político de qualquer pessoa em relação ao conflito no Oriente Médio, hostilizar indivíduos por serem israelenses ultrapassa o campo do debate político e entra no terreno da discriminação.
Mas o episódio baiano também suscita uma reflexão mais ampla sobre o modo como certos ativismos contemporâneos operam.
Ao observar aquela manifestação contra turistas israelenses, veio-me à memória um livro recente e particularmente revelador: What Iranians Want: Women, Life, Freedom (em tradução livre, O que os iranianos desejam: Mulheres, Vida e Liberdade), do historiador e escritor iraniano Arash Azizi, ainda sem edição no Brasil.
Na obra, Azizi analisa a resistência popular no Irã contemporâneo, com especial atenção ao movimento que ganhou o mundo sob o lema “Mulher, Vida, Liberdade”. O ponto de partida do autor é a morte de Mahsa Amini, jovem detida pela polícia moral iraniana por suposta violação das regras do hijab obrigatório. Sua morte desencadeou uma onda de protestos que revelou algo muito mais profundo do que um episódio isolado de violência estatal.
Azizi demonstra que esses protestos fazem parte de uma longa história de resistência contra o regime teocrático instaurado após a Revolução de 1979. Mulheres que retiram o véu em público, trabalhadores que organizam greves, estudantes que desafiam a repressão — gestos cotidianos que, em um regime autoritário, tornam-se atos políticos de enorme coragem.
O livro mostra como, ao longo de décadas, promessas revolucionárias foram sendo traídas. O regime que prometia justiça social e soberania nacional consolidou, na prática, um sistema de repressão política, controle social e limitação radical das liberdades individuais.
Mais importante: Azizi evidencia que a aspiração fundamental de grande parte da sociedade iraniana é surpreendentemente simples. O que muitos iranianos desejam não é uma utopia ideológica, mas algo muito mais básico — dignidade, autonomia e a possibilidade de viver uma vida normal.
Arash Azizi nasceu em Teerã em 1988 e deixou o Irã em 2008. Sua trajetória pessoal se confunde com a de uma geração que cresceu sob o regime dos aiatolás e passou a questioná-lo cada vez mais abertamente.
Embora What Iranians Want tenha sido publicado em 2024 — portanto antes da escalada militar mais recente envolvendo Israel, Estados Unidos e o regime iraniano — o livro já apontava para uma realidade frequentemente ignorada no debate público ocidental: o profundo descontentamento de amplos setores da sociedade iraniana com o sistema político vigente.
Esse descontentamento tem sido pago com sangue. Estima-se que repressão do regime aos protestos que se avolumaram neste assassinou mais de 30.000 pessoas, enquanto manifestações de iranianos exilados ao redor do mundo expressam abertamente o desejo de ver o fim do regime teocrático que governa o país.
E aqui emerge uma ironia difícil de ignorar.
Enquanto milhões de iranianos arriscam a própria vida para enfrentar o regime dos aiatolás, esse mesmo regime encontra defensores em manifestações realizadas em universidades e cidades do Ocidente.
Para certos grupos ideológicos, aparentemente, a realidade concreta das pessoas que vivem sob aquele sistema importa menos do que a coerência simbólica de uma narrativa política.
O episódio ocorrido em Itacaré e a situação vivida pelo povo iraniano pertencem a contextos radicalmente distintos, mas revelam um padrão semelhante.
Em ambos os casos, a ideologia parece falar mais alto do que a realidade.
Na Bahia, trabalhadores do turismo alertam para os prejuízos econômicos que a hostilidade contra turistas israelenses pode causar. No Irã, cidadãos enfrentam um regime repressivo na esperança de conquistar liberdade.
Mas, para determinados ativismos contemporâneos, essas vozes parecem secundárias. O que importa não é o que querem as pessoas diretamente afetadas pelos acontecimentos, mas aquilo que melhor se encaixa em uma determinada narrativa ideológica. Movimentos que se dizem pró-palestinos, além de referendarem os terroristas do Hamas prejudicam a indústria turística baiana. Movimentos que defendem o regime teocrático do Irã militam contra o que o povo do iraniano quer.
Quando isso acontece, o discurso em nome de direitos humanos se transforma em algo paradoxal: uma forma de militância que, em vez de ouvir as pessoas reais, fala apenas para si mesma.
E, nesse processo, acaba ignorando – e prejudicando – justamente aqueles que afirma defender.