O sagrado suor da segunda-feira

Pessoas se deslocam em via pública
Na lida, o cansaço não escolhe lado. Ele nivela. Existe uma fraternidade calada entre os que decidem levantar e botar o mundo em movimento. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

O despertador toca e a gente já entendeu que aquilo não é só metal e vidro. É um chamado. Mas que voz nos levanta antes mesmo de a gente saber quem é? Antes que o café disfarce a realidade, as mãos reconhecem as ferramentas de um rito que ninguém precisou ensinar. O pão na mesa, ganho no suor, não é só comida. É a prova de que existimos de verdade. Ou de que alguém acreditou o suficiente na nossa existência para pagar por ela. No fundo, o que importa é que pagou. E a gente come.

O que sobra quando a ferramenta descansa e o silêncio do feriado do Dia do Trabalho obriga a encarar o que somos sem uniforme, sem crachá, sem função? O trabalho talvez não tenha sido o castigo que nos tirou do paraíso. Pode ter virado, sem que a gente notasse, a única coisa que impede o vazio de ocupar tudo. O ócio, que deveria ser promessa, vira vertigem. Para onde corre o pensamento quando não há nada a fazer? Olho para o teto. O teto não responde. O vazio talvez seja mais honesto que qualquer obra, mas o vazio não põe comida na mesa, então a gente volta ao tear. Não sei se isso é sabedoria ou automatismo. Talvez as duas coisas. Talvez nenhuma.

A gente cumpre os doze trabalhos de Hércules sem perceber. No lugar da clava, o teclado. O volante. A enxada. O balcão. A Hidra de Lerna, a fera de muitas cabeças que renasciam ao serem cortadas, brota das notificações que se multiplicam. Você resolve uma, nascem três. Limpar os estábulos de Áugias, aqueles que juntavam a imundície de trinta anos, virou rotina de quem remove o caos das burocracias ou simplesmente passa o pano no chão. O herói antigo desviava rios. A gente nem desvia mais: vai empilhando incerteza no canto e rezando para a pilha não cair. E às vezes cai. Aí a gente junta de novo. Essa grandiosidade é nossa ou é apenas o mito que contamos para suportar a repetição? Ninguém aguenta ser herói por mais de meia hora sem um café. O café esfria e a Hidra segue lá. E o pano de chão também.

Num ônibus lotado, numa sala sem janelas, no balcão onde o sorriso já é mecânico, a disciplina da tarefa opera seu parto. Sob pressão, a máscara cai. A gente descobre do que é feito quando a vontade fraqueja e o compromisso continua lá, cobrando. Hércules domou as éguas de Diômedes, animais que devoravam carne humana e simbolizavam os instintos sem freio. A gente, na rotina, também enfrenta aquilo que, por dentro, quer nos destruir. Domar instintos será sempre virtude? Ou vamos amansando tanta coisa por dentro que, um dia, já não sabemos se estamos construindo ou se fomos domados por completo? O esforço esculpe, sim. Mas o cinzel também lasca. Tem dia que a escultura sou eu e o cinzel é o chefe. Tem dia que eu sou o cinzel e não sei o que estou cortando.

As divergências que hoje rasgam o tecido social costumam perder a voz quando a urgência do fazer junto se impõe. Na lida, o cansaço não escolhe lado. Ele nivela. Existe uma fraternidade calada entre os que decidem levantar e botar o mundo em movimento. O suor molha o rosto de quem constrói o agora, não importa a bandeira que carregue na carteira. Mas até essa fraternidade é estranha. Às vezes me pergunto se a gente se abraçaria fora do expediente. O calor coletivo pode ser só o atrito de ombros no mesmo aperto. Não é poesia, é trem lotado. Ainda assim, ombro com ombro aquece. E no frio da madrugada qualquer calor serve. Por ora, serve.

Hércules atravessou o mundo para colher os pomos de ouro que garantiam a imortalidade. A imortalidade do trabalhador comum é outra: está na obra bem feita, no exemplo que fica, naquilo que continua funcionando depois que a mão que fez já não está aqui. Há uma beleza triste em quem, sabendo que vai acabar, investe as horas em algo maior que o próprio nome. Seria autoengano achar que a história guarda o nome de quem ergueu a parede, e não o do dono do terreno? O trabalho dignifica o homem ou é o homem que, colocando verdade no que faz, santifica a matéria bruta? Não sei. A gente segue, artesão de uma catedral que ninguém vê, onde cada gesto atento é reza sem palavras. Mas às vezes o artesão nem acredita no vitral. Às vezes o vitral está sujo e ninguém limpou. E a catedral, se existir, não tem endereço.

A celebração do Primeiro de Maio não pode ser só pelo descanso. É também por essa consciência de que a gente transforma o mundo e, nesse movimento, vai trombando consigo mesmo. Se o paraíso era o ócio absoluto, por que a alma só sossega quando está metida na feitura de algo que vai além dela? Talvez a alma fuja do espelho do ócio. Talvez a feitura seja a única forma de a gente se aguentar. E talvez, só talvez, a alma nem exista e a feitura seja só um jeito de não pensar nisso. Mas se for, ainda assim funciona. Às vezes.

O suor escorre e prova que não somos deuses. Mas também prova que não viramos pó sem vida. Tem dia que a gota escorre e a gente só sente o sal arder nos olhos. Sagrado? Pode ser. Pode ser só o corpo lembrando que está vivo e que vai doer. A diferença entre o sagrado e o salgado é uma letra. E se eu trocar as letras, quem nota?

A glória não mora no final. Ela acontece em cada gesto contra a inércia, mesmo quando o gesto sai torto. A mão calejada é o poema mais honesto que se pode escrever sobre a terra. E a gente segue ali, entre o barro e o sopro, entre a obrigação e a obra, carregando um suor que ninguém precisou provar que era sagrado. Às vezes é. Às vezes é só cansaço mesmo. Talvez a grandeza esteja em não precisar de prova. Ou em não fazer questão de nome. Ou em poder largar tudo e dormir, que amanhã é segunda. E a segunda vem de qualquer jeito. Com ou sem Hércules. Com ou sem café.

Jorge Berg é desembargador do Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região, Conselheiro Benemérito do Clube Atlético Mineiro e Adido Consular Cultural de Luxemburgo em Minas Gerais.

Jorge Berg é desembargador do Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região, Conselheiro Benemérito do Clube Atlético Mineiro e Adido Consular Cultural de Luxemburgo em Minas Gerais.

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