Há uma advertência antiga, registrada na Bíblia, que continua atual no debate político contemporâneo: “Todo reino dividido contra si mesmo será devastado; e toda cidade ou casa dividida contra si mesma não subsistirá” (Mateus 12:25).
A frase, embora dita em outro contexto, descreve com precisão cirúrgica a realidade de boa parte da direita brasileira hoje.
A direita cresce em número, em alcance popular, em presença digital e em densidade eleitoral. Mas, paradoxalmente, parece muitas vezes incapaz de transformar força social em força política organizada. E a razão central disso não está apenas na perseguição institucional, na hostilidade cultural ou no ativismo de setores da imprensa. Está, sobretudo, em um problema interno: a cultura da divisão.
Nos últimos anos, consolidou-se no campo conservador uma espécie de guerra civil permanente. Não basta enfrentar adversários ideológicos; muitos parecem empenhados em destruir publicamente os próprios aliados.
São influenciadores atacando parlamentares. Parlamentares atacando influenciadores. Militantes atacando militantes. Pré-candidatos sabotando candidaturas viáveis. Lideranças disputando protagonismo como se a política fosse um reality show de vaidades.
Em vez de estratégia, espetáculo. Em vez de articulação, lacração. Em vez de convergência, egolatria. A “egolatria” virou método.
Há hoje uma parcela da direita que parece ter trocado o projeto político pelo culto à própria imagem. O objetivo já não é convencer, construir ou vencer; é performar. É gerar corte. É viralizar. É lacrar em cima do próprio correligionário para ganhar likes, engajamento e aplauso instantâneo.
A recompensa da vaidade digital tem custado caro eleitoralmente. Porque likes não substituem votos. Cortes não substituem coalizões. Trending topics não substituem organização.
A política real exige disciplina, hierarquia estratégica, inteligência emocional e, sobretudo, capacidade de suportar divergências sem transformar cada diferença em ruptura irreversível.
E aqui reside um dos maiores problemas do ambiente interno da direita hoje: ele se tornou, em muitos casos, tóxico e insuportável. Qualquer pessoa minimamente equilibrada que atue nesse campo sabe disso. O clima é frequentemente hostil. As relações são contaminadas por paranoia, personalismo, patrulhamento ideológico e ataques constantes.
Há um nível de agressividade interna que cobra um preço alto de quem participa: desgaste psicológico, ansiedade, raiva permanente e prejuízo real à saúde mental. Conviver politicamente na direita, em certos espaços, virou exercício diário de resistência emocional.
Não é normal. Não é sustentável. E, definitivamente, não é inteligente. Enquanto isso, a esquerda, com todas as suas divergências internas, costuma errar menos nesse aspecto.
A esquerda compreendeu, há muito tempo, a diferença entre divergência e implosão. Consegue pactuar pautas comuns, construir convergências mínimas, mitigar divergências em nome de objetivos maiores, centralizar discurso, proteger lideranças estratégicas e organizar suas narrativas.
E preserva, na arena pública, uma aparência de unidade que lhe confere vantagem organizacional. Internamente, há disputas? Evidente. Mas raramente transformam cada conflito em linchamento público diário.
Na direita, ao contrário, muitos agem como se destruir reputações internas fosse prova de pureza ideológica. Não é. É apenas burrice estratégica.
É preciso dizer com todas as letras: ninguém é dono da direita. Nem influenciador, nem partido, nem parlamentar, nem líder religioso, nem empresário ou algum comunicador. A direita é um campo plural e reúne conservadores, liberais, libertários, nacionalistas, cristãos, pragmáticos, monarquistas, reformistas e até grupos sem identidade doutrinária clara, unidos circunstancialmente por agendas comuns.
Querer se impor como “dono” desse ecossistema é arrogância. Querer expulsar todos os que divergem em pontos secundários é infantilidade. Querer impor unanimidade absoluta é delírio autoritário.
E pior: há ainda os idiotas sem qualquer visão estratégica. Os que confundem sinceridade com imprudência, os que confundem coragem com impulsividade, os que confundem combate com autofagia. Há ainda os que, por vaidade ou amadorismo, atacam pontes, isolam aliados e enfraquecem candidaturas competitivas em nome de caprichos pessoais.
Na prática, trabalham para o adversário.
A política não premia quem “lacra” mais. Premia quem se articula melhor, quem entende timing, quem constrói maioria, quem soma e quem sabe recuar taticamente para avançar estrategicamente.
Se a direita quiser deixar de ser um movimento barulhento e se tornar um projeto de poder duradouro, precisará amadurecer. Precisará abandonar a adolescência política, precisará trocar vaidade por estratégia, impulso por cálculo, pureza performática por inteligência de coalizão.
Sem isso, continuará repetindo o ciclo: cresce socialmente, implode internamente e perde institucionalmente.
A Bíblia sempre acerta. Reino dividido não subsiste. E movimento político dividido, menos ainda.