A Prefeitura de Contagem assinou um novo aditivo e vai repassar mais R$ 10,4 milhões para uma entidade ligada ao líder do governo na Câmara Municipal, o vereador Daniel do Irineu (PSB). O valor foi celebrado por meio de um novo acréscimo no contrato, assinado em 29 de abril, que acrescenta o montante a um convênio que já recebeu outros R$ 10,3 milhões. Este é o segundo aditivo da parceria.
Localizada no bairro Petrolândia, base eleitoral de Daniel do Irineu, o Projeto Social Maria do Carmo Fonseca e Silva pertence ao pai do vereador, o ex-deputado estadual Professor Irineu (PRD). Oficialmente, segundo dados da Receita Federal, a presidente formal da entidade é a dentista Adriane Cristina Bispo.
A entidade oferece, aos moradores da região, atividades como pilates e hidroginástica. Também há atendimentos odontológicos feitos por Adriane Bispo.
Embora seja a responsável legal pelo Projeto Maria do Carmo, Adriane Bispo não é quem, na prática, toma as decisões sobre os rumos da entidade. Segundo apurou O Fator, a função fica a cargo de Professor Irineu. Interlocutores ouvidos pela reportagem afirmaram que Irineu e o filho, Daniel, costumam atender cidadãos no mesmo imóvel que abriga a associação.
O novo aditivo milionário foi formalizado mesmo depois do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) questionar o convênio – a promotoria chegou a recomendar a suspensão cautelar do primeiro aditivo por falhas na formalização do processo. O MPMG revogou a recomendação depois que a Prefeitura de Contagem apresentou documentação complementar e um plano de trabalho revisado.
A parceria original começou em março de 2025, após a entidade vencer chamamento público da prefeitura que previa repasses de R$ 8 milhões para execução de ações ligadas ao programa “Humaniza Contagem”. Meses depois da assinatura do convênio original, a prefeitura ampliou em 30% o valor do acordo, acrescentando mais R$ 2,39 milhões à parceria.
A ampliação do convênio acabou provocando questionamentos da própria Procuradoria-Geral do Município (PGM). Pareceres internos apontaram inconsistências na tramitação do aditivo, incluindo ausência de plano de trabalho atualizado, necessidade de novo parecer técnico e riscos jurídicos em caso de prosseguimento sem adequações.
A reportagem procurou a Prefeitura de Contagem para questionar, entre outros pontos, a renovação do convênio, o volume de recursos já destinados à entidade e os apontamentos feitos anteriormente pela Procuradoria-Geral do Município (PGM). Também foram solicitados esclarecimentos sobre as providências adotadas após a atuação do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) e a avaliação do governo a respeito da relação política entre a ONG e o líder do Executivo na Câmara Municipal. Até a publicação desta matéria, entretanto, o município não havia se manifestado. O espaço segue em aberto.