Empresário citado por Simões em suposta oferta de propina de aliado de Cleitinho tem firma na mira da PF por contrato com lobista ligada a Lulinha

Governador acusa Euclydes Pettersen de ter oferecido R$ 10 milhões em troca de acordo com MG; empresário e parlamentar negam
O deputado federal Euclydes Pettersen
Euclydes Pettersen nega acusações de Mateus Simões. Foto: Júlio Dutra/Republicanos

O empresário mencionado na denúncia do governador de Minas Gerais, Mateus Simões (PSD), sobre uma suposta tentativa do deputado federal Euclydes Pettersen (Republicanos-MG) de viabilizar um contrato com o poder público mediante o pagamento de propina de R$ 10 milhões teve uma das companhias da qual é sócio citada em uma investigação da Polícia Federal (PF) a respeito de possível influência da lobista Roberta Luchsinger junto aos Correios.

Em um documento com relato em primeira pessoa obtido por O Fator, Simões diz que depois de Pettersen procurá-lo para oferecer os serviços de um interlocutor detentor de “soluções excepcionais em tecnologia”, recebeu do parlamentar, via WhatsApp, o número de telefone de Saulo de Tasso Alves Caracas Dino, sócio da Safe Consig, especializada em registros de empréstimos consignados. Os contatos aconteceram entre julho e agosto do ano retrasado.

Procurado pela reportagem, Saulo disse não conhecer Euclydes Pettersen e assegurou jamais ter tido qualquer contato com ele. De acordo com o empresário, uma eventual interface dele ou da Safe Consig com representantes do governo mineiro aconteceu no âmbito da apresentação de sua carteira de atividades, com caráter comercial e institucional e sem qualquer menção a vantagens indevidas. Já o parlamentar negou ter conversado com o governador a respeito do assunto.

Conforme Simões, Saulo o acionou oferecendo os serviços de registro de consignados. Ao relatar o diálogo com o fornecedor, o pessedista diz que o interlocutor contou possuir “uma solução revolucionária para registro de consignados”.

Como O Fator mostrou mais cedo, o chefe do Executivo estadual levou o caso a interlocutores do primeiro escalão da Controladoria-Geral do Estado (CGE), que ponderaram que não havia lastro suficiente para a oferta de uma denúncia formal. O entendimento, verbalizado em novembro de 2024, foi de que, como nenhum tipo de acordo foi fechado, inexistiam elementos justificativos de uma apuração oficial. A ausência de testemunhas da suposta oferta de propina também pesou.

Simões chegou a cogitar acionar as autoridades policiais, mas a ideia não saiu do papel porque o Republicanos já aventava lançar o senador Cleitinho Azevedo como candidato ao Palácio Tiradentes — nesse sentido, avaliou que o protocolo de uma queixa poderia ser interpretado como gesto meramente político.

Menção em apuração da PF

A Safe Consig aparece em uma investigação da PF sobre Roberta Luchsinger, conhecida pela relação de amizade com Fábio Luiz da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), por causa de uma minuta contratual de maio de 2024 encontrada no celular dela. 

De acordo com o jornal O Globo, o documento faz menção a um acordo entre a empresa de Saulo e a RL Consultoria e Intermediações, que tem Roberta no quadro societário.

Em uma mensagem obtida pela PF, a lobista cita os Correios. Duas semanas após a assinatura do acordo entre a RL e a Safe Consig, a firma de registro de consignados foi contratada pela estatal, mas o vínculo acabou suspenso pela empresa de serviços postais no início deste mês. Na minuta entre as empresas privadas encontrada pela corporação, há menção a um pagamento de comissão de 50% à consultoria de Roberta por vendas conseguidas pela Safe.

Ao conversar com um interlocutor sobre o contrato, Roberta escreveu “Saulo me mandou revisado agora. Vou assinar, tá?”. A PF apura se o “Saulo” mencionado é o responsável pela Safe Consig.

No posicionamento enviado a O Fator, o empresário diz que “investigações ou fatos envolvendo terceiros não podem ser utilizados para criar, por associação ou insinuação, a impressão de que eu ou a Safe Consig participamos de qualquer prática ilícita sem que exista elemento concreto que sustente tal afirmação”. A O Globo, ele negou vínculo entre sua empresa e a consultoria da lobista.

A acusação contra Pettersen

Na linha do tempo traçada por Mateus Simões, a suposta oferta de propina é atribuída exclusivamente a Euclydes Pettersen. O governador narra que a proposta foi feita em outubro, durante uma cerimônia de casamento em que acabou se encontrando com o deputado.

No decorrer da festividade, o parlamentar, que preside o diretório mineiro do Republicanos, teria procurado o atual governador para retomar o assunto envolvendo a possível redação de um contrato da empresa com o poder público.

“Aí ele (Pettersen) disparou: ‘Eu consigo te passar 10 milhões se resolver isso’. Eu me assustei com a conversa e disse: ‘Você não me conhece, deputado. Só me dá licença porque isso deve ser o álcool falando em você.’ Ele insistiu: ‘Eu não bebo. Estou falando sério. Pode ser 10 milhões por ano, o contrato aguenta’. A essa altura, eu já tinha ficado tão transtornado que disse a ele que iria embora para não chamar a polícia no meio de um casamento”, conta o governador, ao pormenorizar a conversa que teria tido com o deputado federal.

Ao refutar possuir conhecimento sobre o suposto oferecimento de vantagem indevida, Saulo afirmou à reportagem que jamais participou, “direta ou indiretamente, de qualquer oferta, promessa ou negociação de vantagem indevida envolvendo o governo de Minas Gerais ou qualquer agente público”.

Busca por reunião com o governo

No material obtido por O Fator, Mateus Simões relata que, seis dias depois do primeiro contato de Saulo, escreveu uma mensagem dizendo que solicitaria a marcação de uma reunião do empresário com a equipe técnica do governo para que a dita “solução revolucionária” fosse apresentada. 

Posteriormente, na versão de Simões, Pettersen e o empresário voltaram a acioná-lo cobrando o agendamento do encontro. O governador, então, solicitou a Camila Neves, à época chefe da Secretaria de Planejamento e Gestão (Seplag), que programasse uma conversa da área técnica da pasta com o fornecedor. 

O pessedista pontua que, ao conversar com Camila sobre o tema, alertou-a de “que parecia se tratar de mais uma proposta de serviços de que não precisávamos”. Assim, o objetivo seria receber o interlocutor e, de forma cortês, descartar a sondagem.

“Depois disso, Euclydes tenta contato comigo várias vezes por ligação de voz via WhatsApp, sem sucesso, e manda mensagens pedindo para tentar me encontrar pessoalmente em agosto, setembro e outubro, mas eu não respondo ou não viabilizo nenhum dos encontros, porque já estava incomodado com a abordagem”, prossegue.

O que diz empresário citado?

Na nota encaminhada a O Fator, Saulo diz ter recebido o contato da reportagem com “bastante surpresa e preocupação”.

“Quero deixar absolutamente claro que não conheço o deputado Euclydes Pettersen, nunca tive qualquer contato com ele e não faço a menor ideia de quem seja. Jamais participei, direta ou indiretamente, de qualquer oferta, promessa ou negociação de vantagem indevida envolvendo o Governo de Minas Gerais ou qualquer agente público. Também é importante esclarecer objetivamente que nem eu nem a Safe Consig fomos contratados pelo estado de Minas Gerais, em momento algum”, assegurou.

Ao garantir que um eventual contato com representantes do Palácio Tiradentes teve caráter comercial, o empresário disse tratar-se de praxe do processo de prospecção de potenciais clientes.

“Diante disso, considero extremamente grave qualquer tentativa de associar meu nome ou o da Safe Consig à suposta oferta de propina mencionada em sua mensagem, especialmente envolvendo uma pessoa que sequer conheço. Da mesma forma, matérias, investigações ou fatos envolvendo terceiros não podem ser utilizados para criar, por associação ou insinuação, a impressão de que eu ou a Safe Consig participamos de qualquer prática ilícita sem que exista elemento concreto que sustente tal afirmação”, emendou.

Euclydes Pettersen rechaça acusação

Em resposta a O Fator, Euclydes Pettersen afirmou que o relato de Simões sobre ter levado o tema à cúpula da CGE só surgiu “para dar credibilidade a falsas acusações”.

“Essa conversa nunca aconteceu. Se isso tivesse ocorrido, ele, como servidor público tinha o dever de agir imediatamente com os rigores da lei, sob pena de ter praticado o crime de prevaricação. Essa suposta denúncia dele à CGE, ao que tudo indica, só está sendo ventilada agora quase dois anos depois do suposto fato exatamente pra dar credibilidade a essas falsas acusações. Inclusive, vamos exigir na Justiça documentos idôneos de que houve protocolo dessa denúncia lá. Usar o debate eleitoral às vésperas das eleições, pra atingir o candidato que lidera as pesquisas não vai isenta-lo de responder na Justiça pelos crimes de calúnia e difamação e pelos danos morais à minha honra e imagem”, declarou.

O líder do Republicanos mineiro ainda disse ter recebido o pedido de Simões para que “buscasse o contato de alguém ou de alguma empresa para determinada finalidade”, mas salientou não se lembrar que objetivo seria esse.

“Acho que repassei o contato que ele havia me solicitado, sem saber se andou para a frente ou para trás”.

Cleitinho se posiciona

A primeira vez que Mateus Simões tocou no assunto, sem mencionar a Safe Consig, Saulo ou o objeto da proposta de prestação de serviços citada na denúncia, foi nessa terça-feira (29), durante o debate da TV Globo com os candidatos ao governo de Minas. Ele fez alusão ao assunto ao tecer críticas a aliados de Cleitinho.

O Fator também buscou contato com o postulante do Republicanos ao Palácio Tiradentes. Ele ponderou que não pode ser responsabilizado por supostas ilicitudes cometidas por aliados e defendeu que o adversário comprove as alegações.

“Lamento que a principal proposta do candidato seja me atacar. Inclusive, já obtive na Justiça Eleitoral um direito de resposta por informações falsas divulgadas por ele, que vai ao ar hoje. Não vou responder a essa pergunta porque não tenho nada a ver com esse assunto. Agora, são acusações graves, e ele terá que provar o que está dizendo”, falou.

Foi repórter especial do caderno de Política do Estado de Minas. Trabalhou, também, na Rádio Itatiaia. Antes, militou no jornalismo esportivo, no Superesportes.

Leia também:

Crise entre Mateus Simões e deputada estadual causa onda de exonerações em secretaria

Antes de recuar, PL chegou a elaborar carta para retirar Roscoe da eleição

Por que denúncia de Mateus Simões sobre suposta propina de aliado de Cleitinho não avançou

Veja os Stories em @OFatorOficial. Acesse