O governador de Minas Gerais, Mateus Simões (PSD), levou à Controladoria-Geral do Estado (CGE), no fim de 2024, um relato detalhando a suposta tentativa do presidente estadual do Republicanos, o deputado federal Euclydes Pettersen, de viabilizar um contrato do Palácio Tiradentes com uma empresa de registro de empréstimos consignados mediante o pagamento de propina de R$ 10 milhões.
A CGE, contudo, entendeu que, como não houve acordo fechado, inexistiam elementos que justificassem uma apuração. A ausência de testemunhas da suposta oferta financeira também brecou a instauração de um procedimento. A conclusão foi seguida por um integrante do secretariado presente ao encontro que abordou a denúncia.
A remessa do caso à CGE consta em um documento sobre o tema redigido por Simões e obtido por O Fator. O material destrincha denúncia feita pelo pessedista nessa terça-feira (29), durante o debate da TV Globo com candidatos ao governo. A reportagem procurou Pettersen para comentar as acusações. O espaço segue aberto. Também acionado, Cleitinho afirmou não possuir relação com o assunto, mas disse que o concorrente terá de comprovar o que conta.
Conforme o material, Simões levou o assunto a um representante do primeiro escalão da CGE em 11 de dezembro do ano retrasado. No relato, o governador afirma que o parlamentar chegou a sugerir a concretização do acordo com o fornecedor como elemento capaz de fazê-lo atuar para evitar a entrada do senador Cleitinho Azevedo na corrida eleitoral.
“A conclusão foi de que por não haver testemunhas da oferta de suborno e por eu ter encerrado as tratativas com a empresa antes de qualquer risco de contratação, não haveria como avançar em nenhuma linha investigativa”, diz o governador, na parte do documento destinada a explicar a conversa.
Ainda de acordo com ele, houve o debate sobre a possibilidade da apresentação de uma representação policial. A ideia, entretanto, não avançou porque à ocasião Cleitinho já era aventado como potencial representante do Republicanos na disputa à chefia do Executivo.
“Como eu e Cleitinho já nos apresentávamos como potenciais concorrentes, a conclusão foi de que poderia parecer um movimento político e o resultado seria nulo, já que eu havia bloqueado qualquer tentativa de acesso da empresa a contratos com o estado”, completa.
Contatos por WhatsApp e diálogo em casamento
Na linha do tempo traçada por Simões, o primeiro contato de Pettersen sobre a empresa do setor de consignados aconteceu em julho de 2024, por meio do WhatsApp. De acordo com o governador, à época vice de Romeu Zema (Novo), o parlamentar solicitou que ele recebesse um interlocutor que seria possuidor de “soluções excepcionais” em tecnologia.
Dias depois, narra, Pettersen enviou o contato do fornecedor interessado em firmar o contrato com o poder público. O empresário teria procurado diretamente Simões, em prol de uma agenda. De acordo com o pessedista, ao se apresentar, o homem disse ser “portador de uma solução revolucionária para registro de consignados”.
Conforme o material, o fornecedor e o parlamentar seguiram cobrando a marcação de um encontro. Já em agosto, Simões orientou Camila Neves, então chefe da Secretaria de Estado de Planejamento e Gestão (Seplag), a agendar uma conversa da área técnica da pasta com o empresário. De acordo com ele, o pedido foi feito por cortesia, com o objetivo de encerrar formalmente o assunto, e seguido de um alerta de que “parecia se tratar de mais uma proposta de serviços de que não precisávamos”.
“Depois disso, Euclydes tenta contato comigo várias vezes por ligação de voz via WhatsApp, sem sucesso, e manda mensagens pedindo para tentar me encontrar pessoalmente em agosto, setembro e outubro, mas eu não respondo ou não viabilizo nenhum dos encontros, porque já estava incomodado com a abordagem”, escreve.
Em outubro, Simões e Pettersen foram convidados em comum em uma cerimônia de casamento. Durante a festividade, o parlamentar teria procurado o atual governador para retomar o assunto. Na abordagem, descreve o pessedista, o dirigente voltou a reivindicar que o poder público firmasse um contrato com o empresário em questão.
“Aí ele (Pettersen) disparou: ‘Eu consigo te passar 10 milhões se resolver isso’. Eu me assustei com a conversa e disse: ‘Você não me conhece, deputado. Só me dá licença porque isso deve ser o álcool falando em você.’ Ele insistiu: ‘Eu não bebo. Estou falando sério. Pode ser 10 milhões por ano, o contrato aguenta’. A essa altura, eu já tinha ficado tão transtornado que disse a ele que iria embora para não chamar a polícia no meio de um casamento”, afirma o governador, ao pormenorizar a conversa que teria tido com o deputado federal.
Outra conversa
No material em que destrincha a acusação, Mateus Simões conta ter mantido conversas periódicas com Cleitinho Azevedo sobre a hipótese de uma união entre eles com vistas à eleição deste ano. Em um desses encontros, em fevereiro de 2025, Pettersen,
presente no ambiente, teria voltado a fazer alusão à demanda do fornecedor. De acordo com o governador, a agenda ocorreu em seu gabinete na Cidade Administrativa, em Belo Horizonte.
“Na saída, Euclydes ficou de pé na porta e, já saindo da sala, sem mais ninguém entre mim e ele, repete apenas para mim: ‘Tem de resolver aquele assunto do registro de consignados para avançar com essa conversa de eleição’”.
Segundo Simões, o dirigente teria repetido a afirmação a uma assessora lotada no governo do estado.
O último diálogo
Na linha do tempo, Simões diz que a última conversa com Euclydes Pettersen aconteceu em julho deste ano, em meio aos debates sobre a possibilidade de uma aliança entre PSD e Republicanos na eleição deste ano. No encontro, pontua, o dirigente fez exigências para viabilizar a eventual entrada do partido na chapa à reeleição.
Entre as condições, conforme o governador, estavam garantir a Cleitinho a prerrogativa de indicar o vice, e a participação do Republicanos em um eventual governo. Conforme Simões, os pedidos foram aceitos — no caso do embarque da legenda na administração, com a ressalva de que os indicados partidários fossem aprovados pelo governador.
Busca por nomeação no TJMG teria sido o prólogo
Conforme Simões, a primeira conversa com Euclydes Pettersen, por mensagem de texto, aconteceu em fevereiro do ano retrasado. De acordo com ele, o parlamentar gostaria de aproveitar que ambos estariam em Brasília (DF) na mesma data para se apresentar pessoalmente.
Na conversa, diz o governador, o parlamentar teria pedido que ele atuasse para facilitar a nomeação de um integrante da lista tríplice para uma vaga de desembargador no Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG). De acordo com o candidato à reeleição, o nome defendido pelo dirigente não foi escolhido.
O que diz Cleitinho?
O Fator procurou Cleitinho para repercutir o relato de Mateus Simões. Por meio de sua assessoria de imprensa, ele pontuou que não pode se responsabilizar por supostas irregularidades cometidas por aliados.
“Lamento que a principal proposta do candidato seja me atacar. Inclusive, já obtive na Justiça Eleitoral um direito de resposta por informações falsas divulgadas por ele, que vai ao ar hoje. Não vou responder a essa pergunta porque não tenho nada a ver com esse assunto. Agora, são acusações graves, e ele terá que provar o que está dizendo”, falou.