A candidatura ao Senado Federal da prefeita de Contagem, Marília Campos, terá de vencer algumas resistências e destravar antigos tensionamentos internos no PT antes de se tornar realidade.
Dirigentes e interlocutores do partido resistem em tratar a candidatura da prefeita como “fato consumado” e avaliam que caberá a ela — e não ao partido — fazer os movimentos políticos necessários para viabilizar a disputa.
Nos bastidores, a avaliação predominante é de que Marília precisará sinalizar lealdade e alinhamento tanto ao partido quanto ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
“Haverá um beija-mão, mas ela é quem terá de fazê-lo”, resumiu um dirigente ouvido por O Fator.
A orientação do diretório nacional, segundo essas fontes, é de que as definições em Minas estejam subordinadas à prioridade absoluta da reeleição de Lula.
Nesse contexto, ressurgiram antigas queixas da relação da prefeita com o diretório estadual do partido. No ano passado, Marília criticou publicamente o que chamou de afastamento do PT dos movimentos sociais e das prefeituras, sugerindo que o partido teria se distanciado de suas origens.
Também gerou ruído a cobrança feita por ela à bancada de deputados do PT, em 2023, por mais “proatividade” na votação da adesão de Minas ao Regime de Recuperação Fiscal (RRF), pauta defendida pelo governador Romeu Zema (Novo).
Outro mal-estar citado por petistas foi a aproximação de Marília com Alexandre Kalil (PDT), numa tentativa de reconstruir uma aliança com o ex-prefeito da capital, movimento visto internamente como desalinhado da estratégia atual da legenda.
O textão do marido
As resistências internas ganharam contornos mais públicos na última segunda-feira (15), quando o economista José Prata, marido da prefeita, enviou um longo texto em grupos de WhatsApp criticando o que chamou de “vácuo político” imposto a Marília.
A reação veio após a reunião da Executiva estadual do PT, no último sábado (13), que terminou sem a definição do nome da prefeita como candidata ao Senado.
No texto, Prata afirmou que a ausência de uma decisão deixou Marília “perplexa” e “atônita”. Segundo ele, chegou a ser discutida uma resolução alternativa, citando Marília e outras quatro lideranças do partido, mas que também acabou não sendo aprovada.
O conteúdo do “textão” reforçou uma posição já externada pela própria prefeita. Em entrevista ao Valor Econômico, no início do mês, ela deixou claro que só entrará na corrida se for a candidata única do campo de apoio a Lula.
“Para abrir mão do mandato, eu quero ser abraçada como a candidata do Lula em Minas. Só irei disputar o Senado se o partido e o Lula me tiverem como prioridade. Ainda não vi o posicionamento dele”, disse.
Ainda na entrevista ao jornal, a prefeita estabeleceu um prazo: aguardará até, no máximo, janeiro para que o PT construa uma estratégia eleitoral claramente lulista em Minas, priorizando a disputa ao Senado. Caso contrário, deve ficar fora do pleito.
Hipótese endossada pelo texto de José Prata.
“Se tem outro candidato além de Marília, que seja homologado de imediato porque, se depender de mim, Marília não vai entrar em disputa interna; sua candidatura deve ser acolhida de forma natural pela história dela e de sua enorme liderança”, afirmou o economista.
O recado foi interpretado por fontes do PT como um ultimato, agravando um pouco mais o clima.
“Se Lula tiver de escolher entre a candidatura ao Senado de Marília ou de Alexandre Silveira (PSD), ministro das Minas e Energias, a prefeita corre o risco de se decepcionar”, concluiu uma fonte, sob reserva.
