Compra de corpos do Hospital Colônia de Barbacena por faculdade de BH vira alvo do MPF

Faculdade de Ciências Médicas teria recebido mais de 100 corpos de internos do antigo hospital psiquiátrico
Após acordo com a UFMG, MPF amplia investigação sobre uso de corpos do Hospital Colônia. Foto: Divulgação / Prefeitura de Barbacena

O Ministério Público Federal (MPF) vai investigar e buscar reparações pela aquisição de corpos de pacientes do Hospital Colônia de Barbacena por parte da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais, em Belo Horizonte. O trabalho do MPF acontecerá a partir de inquérito civil instaurado nesta semana. O procedimento faz parte de um conjunto mais amplo de ações ligadas à chamada Justiça de Transição, voltada à compensação por graves violações de direitos humanos ocorridas no passado.

Assinada na terça-feira (13) e publicada no Diário Oficial do órgão nesta sexta-feira (15), a portaria aponta que a Faculdade de Ciências Médicas recebeu 105 corpos provenientes do Hospital Colônia. O documento menciona também que a Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig) encaminhou ao MPF registros históricos digitalizados das remessas, incluindo identificação dos pacientes e cidades de origem.

Fundado em 1903, o Hospital Colônia de Barbacena foi considerado a maior unidade psiquiátrica do país. Estimativas apontam cerca de 60 mil mortes dentro da instituição ao longo de sua existência. Entre as violações registradas em obras históricas de referência, estaria a comercialização de corpos de pacientes para faculdades de medicina.

O foco deste procedimento é a utilização, por instituições de ensino, de corpos de internos do antigo hospital psiquiátrico mineiro, marcado por denúncias históricas de maus-tratos, internações compulsórias e mortes em massa. Segundo o MPF, houve tentativa de construção de medidas reparatórias consensuais com a Faculdade de Ciências, mas as negociações não avançaram.

Por isso, a antiga notícia de fato foi convertida em inquérito civil.

O texto cita como referência medidas já adotadas pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que reconheceu o recebimento de corpos do Hospital Colônia.Na esteira das ações simbólicas de reparação, a instituição formalizou um pedido público de desculpas, criou espaços de memória, restaurou registros históricos e incluiu o tema em disciplinas do curso de medicina.

O MPF também menciona a condenação do Brasil pela Corte Interamericana de Direitos Humanos no caso de Damião Ximenes Lopes, relacionado a violações envolvendo internação psiquiátrica. O inquérito terá prazo inicial de um ano para conclusão e ficará sob acompanhamento da Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão Adjunta.

A portaria que trata da abertura do inquérito civil leva as assinaturas dos procuradores da República Angelo Giardini de Oliveira e Edmundo Antonio Dias Netto Junior.

Guilherme Jorgui é jornalista e tem especialização em comportamento eleitoral, opinião pública e marketing político (UFMG).

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