O orçamento de Tapira, no Triângulo Mineiro, é um bom exemplo de como uma guerra a milhares de quilômetros do Brasil pode produzir efeitos globais e chegar até uma cidade de 4 mil habitantes. Neste mês, pela primeira vez em anos, o município viu sua arrecadação com os royalties da mineração despencar.
Na semana passada, a Agência Nacional de Mineração (ANM) repassou a Tapira R$ 167 mil a título de Compensação Financeira pela Exploração Mineral (Cfem). O valor está bem abaixo das parcelas mensais pagas ao município ao longo deste ano, que variaram entre R$ 766 mil e R$ 1 milhão – desconsideradas as cifras recebidas na condição de município afetado.
A queda é consequência direta da redução, desde junho, das operações da Mosaic no Brasil. A mineradora extrai e processa fosfato em Tapira para fabricar fertilizantes agrícolas e, desde o início da guerra no Irã, tem enfrentado dificuldades para obter enxofre, matéria-prima utilizada na produção de fertilizantes fosfatados.
Com o aumento do custo do enxofre, a empresa precisou elevar o preço de seus produtos, o que reduziu a demanda por fertilizantes. O resultado foi a perda de atratividade econômica das operações da Mosaic no país. Na semana passada, a EuroChem, que fabrica fertilizantes em Serra do Salitre, no Alto Paranaíba, também anunciou redução da produção.
Desde junho, a comercialização dos estoques da Mosaic vinha sendo suficiente para manter os repasses de Cfem a Tapira em patamares próximos à média. A retração registrada em setembro, somada às incertezas para os próximos meses, acenderam o alerta na prefeitura, que já admite reduzir investimentos planejados.
“A gente sempre gasta menos do que arrecada, para fazer caixa e manter obras com valores mais altos, como estradas, pontes e conjuntos habitacionais. Mas, agora, vamos precisar rever investimentos com asfaltamento que a gente tinha previsto”, afirma Gilberto Martins Ribeiro, secretário de Fazenda e Finanças de Tapira. “O contingenciamento é certo”, acrescenta.
Segundo o secretário, Tapira tem hoje no caixa um valor equivalente a cerca de 15% da receita corrente líquida, que foi de R$ 115,8 milhões em 2025. Para este ano, a receita inicialmente prevista era de R$ 93,5 milhões, dos quais R$ 20 milhões deveriam vir da Cfem. Até o momento, menos da metade desse valor entrou nos cofres.
Problemas com a ANM
Além da queda na arrecadação de Cfem como município produtor, Tapira também enfrenta redução nos repasses destinados aos municípios afetados — aqueles que não abrigam reservas minerais, mas possuem em seu território instalações ligadas à atividade minerária, como usinas de beneficiamento e ferrovias.
Tapira está entre os municípios que não recebem, desde maio, esses repasses da ANM. Como O Fator noticiou em agosto, a agência adiou os pagamentos, segundo informou, em razão da indisponibilidade temporária de seus sistemas entre abril e julho.
A prestação é relevante para o município, que recebe, na condição de afetado, valores próximos aos que arrecada como produtor.
Outro lado
Em nota, a Mosaic afirmou que a redução na produção decorre das “restrições globais no fornecimento de enxofre, matéria-prima essencial para a fabricação de fertilizantes fosfatados”.
“A decisão reflete um cenário marcado por instabilidade geopolítica, restrições em rotas marítimas internacionais, aumento da demanda global e forte pressão sobre os custos do insumo. Esse contexto exigiu ajustes temporários de produção, refletindo diretamente nos volumes consumidos e comercializados e, consequentemente, nos valores de Cfem recolhidos e distribuídos aos entes beneficiários”, explicou.