‘Vai e vem’ de Cleitinho sobre candidatura ao governo de Minas gera desconforto no Republicanos

Indefinição e contradições nas falas do senador geram ruído interno e contrariam articulações lideradas em Brasília
Em discurso no Congresso, o senador Cleitinho (Republicanos-MG).
O senador Cleitinho Azevedo tem adotado posições ambíguas sobre a disputa ao governo de Minas. Foto: Waldemir Barreto/Agência Senado

Nome preferido pelo Republicanos para disputar o governo de Minas Gerais nas eleições deste ano, o senador Cleitinho Azevedo (MG) tem causado desconforto interno no partido por causa do “vai e vem” de suas falas públicas e conversas reservadas sobre a disputa eleitoral.

Cleitinho já apresentou diversas posições sobre a corrida ao governo mineiro. Entre elas, a construção de uma candidatura em apoio a outros nomes de direita, como o vice-governador de Minas, Mateus Simões (PSD), e anteriormente o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), que hoje apoia Simões.

O senador costuma lembrar também que o prefeito de Patos de Minas e presidente da Associação Mineira de Municípios (AMM), Luís Eduardo Falcão, pode igualmente ser o escolhido para a disputa pelo partido. Por vezes, disse que definiria sua posição até março; depois, mencionou abril e maio e, mais recentemente, indicou que vai decidir até julho.

Além disso, interlocutores lembram que ele faz menções ao seu perfil de legislador, ao mesmo tempo em que fala sobre a montagem de uma equipe de governo caso seja eleito. As declarações contraditórias já são vistas, dentro da sigla, como uma característica conhecida do senador, de alguém que tende a agir mais pela emoção.

Mas, conforme apurou O Fator, a situação chegou ao ápice nesta semana, em meio a negociações conduzidas pelo presidente nacional da legenda, o deputado federal Marcos Pereira (SP), em busca de partidos para compor uma coligação. As declarações de Cleitinho passaram a atrapalhar essas articulações.

Segundo interlocutores de Cleitinho, ele já teria avisado à Executiva nacional sobre a extensão do prazo para a decisão. Aliados de Pereira, no entanto, dizem que o presidente da sigla soube da prorrogação por terceiros e reafirmou que o senador segue como nome do partido no estado.

Discursos opostos

O senador tem se posicionado de forma ambígua sobre a disputa ao governo de Minas. Em entrevistas a veículos do interior, chega a se colocar como candidato ao Executivo estadual, mas adota tom diferente em outras ocasiões. O “vai e vem” tem gerado irritação entre aliados e tem sido visto como arriscado.

Na semana passada, por exemplo, Cleitinho fez um discurso durante o aniversário de Falcão, em Patos de Minas. Parte dos presentes interpretou a fala como sinal de que ele disputaria o Palácio Tiradentes e até como um convite para que o prefeito integrasse a chapa como vice.

A fala foi ao encontro do que defende o presidente nacional do Republicanos, que já indicou a aliados em Minas a intenção de montar uma chapa puro-sangue, com o presidente da AMM como vice. Dias depois das declarações públicas no aniversário, porém, Cleitinho disse que ainda avaliaria se disputará o pleito.

Apoiadores afirmam que saem de encontros com o senador sem ter clareza se ele será ou não candidato, justamente o contrário do que deseja Pereira, que apresenta o parlamentar a correligionários e a outras legendas como candidato, amparado pelo bom desempenho nas pesquisas.

“Era melhor deixar em aberto. E isso nem é por causa do eleitorado, mas sim para as negociações. Tem hora que parece que será obrigado a disputar, que prefere ficar no Legislativo. Ele está na frente nas pesquisas, era pra ter mais tranquilidade e deixar Brasília cuidar disso”, disse um correligionário após encontro com o senador.

Anúncio postergado

Como mostrou O Fator, a direção nacional da legenda preparava para esta semana um anúncio formal da pré-candidatura de Cleitinho. A intenção era um posicionamento em resposta a Simões, que já abriu artilharia contra o Republicanos, ao mesmo tempo em que tenta atrair a legenda para o arco de alianças.

Na semana passada, o vice-governador criticou abertamente o presidente estadual do Republicanos, o deputado federal Euclydes Pettersen. Ele afirmou que a sigla deveria se preocupar mais com denúncias contra o deputado, “que está quase preso pela Polícia Federal”, em vez de discutir a administração do estado.

A declaração foi feita durante agenda em Uberlândia, no Triângulo Mineiro, e desagradou Pereira, principalmente porque, em seguida, Simões sinalizou para Cleitinho caminhar com ele no pleito. Pettersen é investigado por envolvimento no escândalo do INSS, que apura fraudes em empréstimos consignados a aposentados.

Pettersen, por sua vez, rebateu Simões e disse que Cleitinho tem como promessa de campanha abrir a caixa-preta das isenções fiscais concedidas a empresários em Minas: “São quase R$ 130 bilhões em jogo. Se tiver algum problema e Cleitinho descobrir, o valor pode superar as fraudes do Banco Master e do INSS juntas”.

Planos nacionais

Além de atrapalhar os planos do dirigente nacional do Republicanos no estado, há também um cálculo de âmbito nacional. Sem nome próprio na disputa pelo Palácio do Planalto, o entendimento é de que o partido precisa ocupar espaço em estados estratégicos para ampliar o poder de barganha em 2026.

Minas está nesse mapa. São Paulo também, onde o governador Tarcísio de Freitas tende a disputar a reeleição. A lógica é simples: quanto mais musculatura nos principais colégios eleitorais, maior o peso da legenda nas negociações nacionais, até mesmo para declinar de uma candidatura própria posteriormente.

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