Inédito no Brasil: júri de BH valida justiça restaurativa e absolve ré por tentativa de homicídio

Em vez de punir o agressor, a metodologia foca na reparação dos danos e da relação; aplicação foi possível após acordo
Caso foi julgado no 2º Tribunal do Júri de Belo Horizonte Foto: Robert Leal/TJMG

Em decisão inédita no Brasil, o 2º Tribunal do Júri de Belo Horizonte absolveu uma mulher acusada de tentativa de homicídio após validação, pelos jurados, de acordo de justiça restaurativa. A metodologia foca em reparar os danos e restaurar as relações, em vez de punir o agressor, como acontece no sistema tradicional. O julgamento ocorreu nesta sexta-feira (14).

A absolvição foi possível graças a um acordo firmado entre Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), a defesa e o juízo sumariante

O caso envolvia uma mulher acusada de tentar matar o companheiro durante uma briga. O episódio resultou na internação hospitalar do homem e na prisão da ré. 

Desde o início do processo, no entanto, a vítima deixou claro que não queria a condenação da agressora. Após o episódio, o casal reatou e constituiu família. 

Compromissos mútuos

A justiça restaurativa busca reparar os danos e as relações por meio de círculos de diálogo e compromissos mútuos entre vítima, autor e redes de apoio. 

No caso em Belo Horizonte, facilitadoras do Projeto Ação Ativa conduziram rodas restaurativas com o casal e sua rede, e as partes construíram um plano de ação com medidas práticas. 

Entre elas, cuidados com a saúde, lazer, evitar ambientes de risco e aprimorar a comunicação sobre sentimentos. Essas ações, segundo a equipe técnica, resultaram em pacificação social e mudanças no convívio.

Proposta

A proposta de submeter a validação do acordo restaurativo ao Conselho de Sentença partiu do promotor Luciano Sotero Santiago, da 7ª Promotoria de Justiça do Tribunal do Júri, e foi acolhida pelo juiz Roberto Oliveira Araújo Silva. 

Para o promotor, levar o caso ao júri era a forma “mais democrática e constitucional” de validar a aplicação da justiça restaurativa em crimes contra a vida. Para o magistrado, a medida harmoniza a inovação restaurativa com a competência do Tribunal do Júri, sem usurpá-la.

Projeto-piloto

O caso funciona como projeto-piloto. O MPMG pretende transformar a experiência em metodologia a ser replicada em outros tribunais do júri do país, com objetivo de tornar o sistema mais participativo e focado em transformação social. 

Ao mesmo tempo, a juíza do caso Maria Beatriz Fonseca da Costa Biasutti Silva alertou para a complexidade do tema, lembrando que a adoção ampla demanda estudos aprofundados e consenso prévio sobre aspectos práticos e jurídicos.

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