Em todo evento de grande porte, como foi a COP 30, que terminou no sábado (22), os encaminhamentos costumam ser mais importantes que os debates em si. Em Belém, depois de 13 dias de negociações, a Cúpula do Clima chegou ao fim com uma série de avanços, mas com uma porção de discussão que se alongarão pelos próximos meses.
Houve ganhos reais em algumas áreas, como a do financiamento e a da adaptação aos eventos climáticos. Mas os visitantes deixaram Belém sem que o Mapa do Caminho, com as diretrizes para o fim do uso de combustíveis fósseis, fosse aprovado.
O Fator pediu a sete pessoas que estiveram em Belém e acompanharam os debates uma avaliação do saldo deixado pela COP, com avanços e pontos em que o impasse não permitiu avanços
A todos, a reportagem fez a mesma pergunta: Para onde vamos?
Há temas que ainda não receberam a devida urgência
por Marília Melo, secretária de Estado de Meio Ambiente de Minas Gerais
A COP 30 terminou deixando claro que ainda há temas que o mundo não conseguiu enfrentar com a urgência necessária, especialmente a transição para o fim dos combustíveis fósseis. Mas, ao mesmo tempo, a conferência mostrou um avanço importante: a força crescente da ação local e regional. Ficou evidente que não são apenas os governos nacionais que conduzirão essa agenda. Cidades, estados e regiões precisam assumir, e já estão assumindo, um papel determinante na implementação das metas climáticas.
Um exemplo disso foi o lançamento da iniciativa Beat the Heat, que reúne 185 cidades e 83 organizações parceiras para enfrentar ondas de calor e reduzir vulnerabilidades urbanas. Essa abordagem reconhece que os impactos da mudança do clima acontecem no território, e é lá que as respostas precisam ser estruturadas.
Minas Gerais chegou à COP 30 fazendo exatamente isso: tirando a agenda climática do discurso e transformando-a em política pública. Estruturamos planejamento, governança e instrumentos de monitoramento que colocam o clima no centro das decisões de governo. A ação climática em Minas não é apenas ambiental, Está integrada ao desenvolvimento, à energia, à agricultura, aos transportes e à gestão dos recursos naturais.
Vamos avançar justamente nesse caminho: fortalecendo a implementação no território, com transparência, governança e participação social. A COP 30 mostrou que a agenda climática só terá resultados concretos quando for tratada como política de Estado. E é assim que Minas Gerais seguirá atuando.
Grandes expectativas que não se confirmaram
por Thiago Rodrigues, gerente de Meio Ambiente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg)
A COP 30, realizada neste mês de novembro em Belém, veio com grandes expectativas que, até o momento, não se concretizaram. Esperamos que as decisões finais desta COP venham para colocar o mundo e o Brasil no caminho certo da transição energética e que se reconheça sempre a importância da indústria neste processo.
É preciso que o mundo entenda que o Brasil é um dos países mais preservados do planeta e que a indústria é parte disso. Num mundo globalizado e cada vez mais pautado em discussões sobre mercado de carbono e criação de mecanismos de ajustes de fronteira de carbono, esta preservação deve ser sempre reconhecida, demonstrando que o Brasil possui importantes “produtos verdes” muito mais competitivos do que o restante do mundo, tais como o gusa, o silício metálico, o lítio, as terras raras, o etanol e vários outros.

Mapa do Caminho e controle do desmatamento
por José Carlos Carvalho, ex-secretário de Meio Ambiente de Minas e ex-ministro do Meio Ambiente do Brasil
Dentro do padrão das Nações Unidas, o que ocorreu em Belém foi muito melhor que as três últimas COPs, no Egito, em Dubai e no Azerbaijão. Evidentemente, ficou a frustração de não termos avançado no Mapa do Caminho. Não avançamos porque quem conhece as regras das Nações Unidas, sabe que o Mapa não entrou porque não estava na agenda oficial da COP 30. Foi introduzida por iniciativa do governo brasileiro.
Mas podemos avançar, porque o embaixador André Corrêa do Lago irá presidir a COP até passar a presidência para o seu sucessor, ano que vem. Assim, ele terá um ano para trabalhar o Mapa do Caminho que, importante salientar, recebeu o apoio de mais de 80 países, da América Latina e da União Europeia.
O embaixador deverá colocar o Mapa na reunião intermediária, que será realizada em Bonn, na Alemanha, no meio do ano, para que possa entrar na pauta da próxima conferência. A simples ideia de colocá-lo na agenda foi um avanço, da mesma forma que o fundo para as florestas tropicais, o TFFF, uma grande conquista associada à COP 30.
Nosso grande dilema é que os gases de efeito estufa aumentam na velocidade de um pássaro voando, enquanto as Nações Unidas são como uma tartaruga.
Indicadores de Adaptação foram vitória
por Ciro Brito, analista de Políticas Ambientais do Instituto Socioamiental (ISA)
A COP do Brasil foi a primeira das COPs da Era da Implementação. E alguns ótimos resultados saíram de Belém. Foi uma COP marcada pelas pessoas e pela centralidade que os movimentos indígena, quilombola e de comunidades tradicionais tiveram nos seus atos, nas suas manifestações, nos seus pedidos. A gente sai daqui com um ótimo resultado na aprovação dos Indicadores de Adaptação, o que vai nos permitir daqui para a frente conseguir mensurar se o mundo está se adaptando mais e melhor.
Outro ponto positivo foi o reconhecimento da questão dos povos indígenas, de seus saberes tradicionais, bem como dos afrodescendentes e comunidades locais. Esse reconhecimento é muito importante porque esses grupos são os que mais têm sofrido o impacto da crise climática. E essa COP deu o start para que isso não tenha sido colocado do lado.
Infelizmente, o Mapa do Caminho não entrou, mas a gente teve um aceno da presidência da COP, que se comprometeu a, nos próximos meses, continuar trabalhando para construir o consenso ao redor do Mapa do Caminho. Criou, inclusive, alguns mecanismos para que isso acontecesse já a partir de abril.
Em termos do financiamento, há vários resultados positivos, em uma COP complexa, como foi a COP 30, com episódios difíceis, mas que a gente pode, sim, dizer que foi a COP da Justiça Climática e que chegamos ao final desse processo com muita satisfação por ter entregue aquilo que era preciso entregar.
Tomadores de decisão seguem abraçados ao modelo atual
por Jorge Veloso, superintendente da Fundação Biodiversitas
De uma forma genérica, diria que os avanços e a conscientização sobre os desafios climáticos estão avançando num ritmo acima do de a algum tempo atrás. O que preocupa é que não basta ter consciência do problema. É necessário agir sobre ele, e neste aspecto, os tomadores de decisão optam por uma leitura rasa dos efeitos climáticos e preferem seguir abraçados ao modelo econômico atual que impacta um planeta já “febril”.
A Biodiversitas seguirá contribuindo para mitigar estes efeitos sobre a biodiversidade. Seja contribuindo com a implementação de políticas públicas, a exemplo das Listas Vermelhas, seja na proteção de áreas prioritárias para a proteção da biodiversidade, como é o caso da criação de novas RPPNs, sejam elas próprias ou de terceiros. O recém-lançado Programa de Promoção da Biodiversidade, que anunciamos na COP, 30 vai nesta direção.

Mas sabemos e desejamos ampliar a nossa atuação em rede, tendo em vista que o enfrentamento da questão climática que causa extinção em massa somente poderá ser enfrentado de forma séria, através de diversas ações nos quatro cantos do planeta tocados por governos, empresas e sociedade civil.
Ficamos felizes de estar participando deste esforço, mesmo que as vezes tenhamos a sensação de sermos um beija-flor tentando apagar um incêndio florestal.
Produtor rural precisa de apoio para conservar e produzir
por Mariana Ramos, gerente de Sustentabilidade da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg)
Após a COP30, precisamos seguir em frente com um compromisso ainda mais firme de reconhecer o produtor rural mineiro como protagonista da solução climática. O setor agropecuário brasileiro já adota práticas sustentáveis em larga escala e tem um papel vital na produção de alimentos com responsabilidade ambiental.
O futuro exige que valorizemos o que já é feito e ampliemos o apoio técnico, financeiro e institucional para que mais produtores possam conservar e produzir ao mesmo tempo. Caminhamos para uma agropecuária cada vez mais eficiente, regenerativa e integrada às metas globais de sustentabilidade.
Ênfase na adaptação foi fator de destaque
por Rodrigo Perpétuo, superintendente do Iclei (Governos Locais pela Sustentabilidade)
A COP terminou com três eixos de encaminhamentos que eu diria que são os principais. O primeiro é um chamado a termos um aumento de ambição nas metas de cada país para redução de suas emissões. Havia uma expectativa de que os países trariam para essa COP, ou antes dela, as suas metas. Muitos não entregaram. Então, a presidência precisou incluir esse movimento no documento de conclusão.
O segundo eixo, o de finanças, teve nesta COP uma ênfase inédita em adaptação, que eu considero um destaque importante e, obviamente, um destaque conectado também com as cidades e os níveis subnacionais de governos.
O terceiro eixo foi um esforço para fazer avançar mais rapidamente da dinâmica dos créditos de carbono, para que de fato possa haver mais recursos disponíveis para a implementação da agenda climática. E aí houve vários resultados importantes, alguns mais objetivos; outros, nem tanto.
A transição para o afastamento dos combustíveis fósseis terminou com a adesão de 90 países, que é uma adesão significativa, embora no próprio texto de conclusão da COP não haja Indicações vigorosas em relação a como isso vai ser feito. O Fundo de Florestas Tropicais para Sempre, o TFFF, na sigla em inglês, termina a COP capitalizado com cerca de 9 bilhões de dólares. O combate ao desmatamento foi também um encaminhamento importante dessa COP.

No que se refere ao campo de atuação do Iclei, o dos estados e municípios, embora o resultado final da COP também não traga nenhum grande avanço, o que a gente viu na COP em relação à ação subnacional em prol ou enfrentando a crise climática é substantivo.
No Nordeste, um consórcio de governadores apresentou uma série de atividades; os governadores da Amazônia, com destaque para o estado do Amapá, também estiveram muito presentes, além de várias cidades de grande e de médio porte. Recife (PE), por exemplo, teve uma ação climática bem assertiva, bem como a de Cubatão (SP), que voltou à cena tentando reposicionar sua imagem, que, nos anos de 1980, era marcada por ser uma cidade muito poluída.