A crise de segurança pública no Rio de Janeiro não foi o único fator que levou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a adiar a definição sobre o nome que pretende indicar para a vaga aberta no Supremo Tribunal Federal (STF).
Segundo apuração de O Fator, também pesou o diagnóstico da equipe de articulação política de que o ambiente no Senado Federal ainda não é favorável à aprovação de Jorge Messias, atual advogado-geral da União e principal cotado para o posto.
A avaliação é de que, neste momento, o petista não pode passar sinais de fraqueza relacionados ao Congresso Nacional, principalmente quando precisará de apoio da Casa para aprovar projetos relativos à segurança pública.
A cadeira no STF ficou vaga após o anúncio de aposentadoria antecipada do ministro Luís Roberto Barroso no início do mês. Desde então, Messias tem sido apontado como preferido para o posto. Outro nome no páreo é o do senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG).
O indicado pelo petista precisará passar por sabatina na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado antes de ser submetido à votação no colegiado e no plenário. Para ser aprovado, o nome precisa do apoio de pelo menos 41 dos 81 senadores.
O cenário, no entanto, é considerado delicado. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), é quem define quando vai pautar a indicação na Casa. E, neste momento, ele atua como um dos principais articuladores da candidatura de Pacheco ao Supremo.
O petista já sinalizou ao amapaense o desejo de escolher o advogado-geral da União. E, conforme mostrou O Fator, interlocutores narraram que Alcolumbre teria dito a Lula que, caso o escolhido fosse Pacheco, não haveria obstáculos à aprovação do nome.
Acrescentou ainda que a votação poderia ser a mais expressiva já registrada no Senado para uma indicação ao tribunal. O presidente do Congresso ainda teria alertado Lula que Messias poderia enfrentar resistência dos senadores.
Sob reserva, auxiliares disseram à reportagem que o presidente não indicou, até o momento, que vai mudar de posição. Ele quer continuar com o critério de escolher uma pessoa de sua confiança para a Corte.
Mudança de planos
Ainda segundo esses interlocutores, o petista tem sinalizado à equipe mais próxima que a escolha para a vaga aberta no Supremo pode ficar para depois das agendas oficiais em Belém, no Pará, e em Fernando de Noronha, em Pernambuco.
O petista viaja neste sábado (1º) para Belém e o esperado é que esses compromissos durem 10 dias. Ele participará de eventos preparatórios da Conferência das Partes (COP 30), marcada para ocorrer entre 10 e 21 de abril.
A expectativa inicial de Lula era resolver o assunto ainda na última quarta-feira (29), logo que retornou da viagem à Ásia. Antes de formalizar a indicação, porém, Lula quer se encontrar com Pacheco. A crise no Rio, contudo, mudou os planos quanto à provável data da agenda, inicialmente prevista para esta semana.
O objetivo do encontro seria explicar os motivos que o levaram a optar por Messias e discutir o cenário político em Minas Gerais, especialmente a possibilidade de Pacheco disputar o governo do estado em 2026.
O ex-presidente do Senado, inclusive, foi convidado pelo petista a participar de sua comitiva na agenda internacional, mas declinou do convite para dar mais espaço a Lula e evitar que a viagem fosse interpretada como “pressão”.
Mesmo sem definição, aliados de Pacheco ainda nutrem a expectativa de que Lula mude de ideia quanto à escolha para o STF. Além do senador contar com apoio de Alcolumbre, ele tem ao seu lado ministros do STF, como Gilmar Mendes.
Reflexos em Minas e indefinição no campo da esquerda
A indefinição de Lula sobre o Supremo tem repercussões diretas no cenário eleitoral de Minas. Interlocutores do PT estadual avaliam que a demora coloca em xeque a estratégia da esquerda para o estado.
Isso porque a eventual candidatura de Pacheco ao governo é vista como peça-chave para o palanque petista em 2026. E caso o presidente confirme Messias para a Corte e o senador decline do convite, o PT terá de buscar outro nome para encabeçar a disputa.
Entre os cotados estão a prefeita de Contagem, Marília Campos (PT); o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira; e o ex-prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil (PDT). Outro que se movimenta é o deputado federal André Janones (Avante), que tem sinalizado disposição para entrar na corrida.
PSD altera a rota
Dentro do PSD, o espaço de Pacheco também se reduziu após a filiação do vice-governador e pré-candidato ao comando do estado, Mateus Simões, oficializada na segunda-feira (27). A movimentação reforçou a aproximação da legenda com a direita.
Diante desse novo arranjo, caso confirme a intenção de disputar o governo mineiro, Pacheco precisará deixar o PSD. As conversas mais avançadas, segundo apurou O Fator, são com o MDB. Ele também mantém diálogo com o PSB e União Brasil.