O dedo de Dilma na troca do chefe do Brasil no BRICS

Nos corredores do Itamaraty e do Senado conta-se que a ex-presidente não se esqueceu da missão na Bolívia em 2013
Lula e Dilma no Rio em julho de 2024
Lula e Dilma, no Rio: influência da ex-presidente no RH da diplomacia. Foto: Ricardo Stuckert/PR

O Itamaraty anunciou no fim da tarde desta quarta (22) a troca do negociador-chefe do Brasil nos eventos do BRICS, que o país sedia este ano. Na nota à imprensa não houve qualquer explicação do motivo.

Nos corredores do Itamaraty e também do Senado, como O Fator apurou, conta-se a mesma história: a substituição ocorreu a pedido de Dilma Rousseff, presidente do banco dos BRICS.

O embaixador Mauricio Carvalho Lyrio, secretário de Assuntos Econômicos e Financeiros e que também chefiou a atuação do Brasil no G20, entrou no lugar do embaixador Eduardo Saboia, chefe da Secretaria de Ásia e Pacífico. Ambos são diplomatas de carreira e muito conhecidos dos jornalistas de Brasília por participação frequente em coletivas de imprensa no ministério.

Em 2013, quando chefiava a embaixada do Brasil na Bolívia, Saboia desafiou o governo Dilma para salvar uma vida.

O senador boliviano Roger Pinto Molina, desafeto do governo Evo Morales, estava confinado há 15 meses na embaixada brasileira em La Paz. O governo Dilma havia oferecido meses antes asilo para Molina, mas o governo Morales se recusava a conceder o salvo-conduto: a garantia de que ele pudesse deixar a embaixada para sair da Bolívia sem ser preso.

O estado do senador, abrigado em uma sala de 20 metros quadrados sem banheiro, só piorava. Temendo que ele pudesse cometer suicídio, Saboia liderou uma operação clandestina: colocou Molina num carro e pegaram estrada até o Brasil. A viagem até Corumbá, no Mato Grosso do Sul, durou 22 horas.

Em entrevista à TV Globo na época, Saboia disse que se sentia “como se tivesse o DOI-Codi ao lado da minha sala de trabalho. É um confinamento prolongado, sem perspectivas e sem um verdadeiro empenho para solucionar”. Contou também ter ido a Brasília duas vezes e relatado a situação.

Dilma discordou, dizendo em coletiva de imprensa que “a embaixada do Brasil é extremamente confortável”.

A crise levou à demissão do então ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota; e chegou ao Congresso, onde senadores de oposição defenderam a atuação de Saboia.

Em 2015, Saboia foi punido pela operação, sendo suspenso por 20 dias.

O ex-senador Molina morreu em 2017, em Brasília, aos 57 anos.

Procurado, o Itamaraty disse a O Fator que Saboia foi designado embaixador do Brasil na Áustria. A notícia do agrément dos austríacos foi divulgada pelo ministério em 2 de janeiro.

Embora isso seja verdade, Saboia não precisa ter pressa para fazer as malas, já que a indicação ainda precisa ser aprovada pelo Senado brasileiro, que está de recesso. Além disso, o Itamaraty já disse que vai concentrar as atividades do BRICS no 1º semestre de 2025, por causa da COP30 que ocorre no fim do ano.

A Secom do Planalto dirigiu nossas perguntas para um e-mail da presidência brasileira do BRICS, que não nos respondeu.

As assessorias de imprensa de Dilma e do NDB, o “banco dos BRICS”, também não nos responderam.

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