O incômodo com o ingresso de parlamentares com mandato no PL mineiro ganhou tração nos bastidores e passou a envolver diretamente o deputado federal Nikolas Ferreira, que tem sinalizado desconforto com os rumos da montagem da chapa.
Recentemente, Nikolas verbalizou, reservada e, depois, publicamente, a possibilidade de deixar o PL. Um dos partidos que sondou a situação do parlamentar foi o Novo.
Como pano de fundo para Nikolas cogitar a saída, está o temor de que sua votação expressiva seja usada para eleger nomes com quem não tem alinhamento programático. Esse receio, aliás, não é restrito a parlamentares com mandato.
Na sexta-feira (7), Nikolas admitiu o descontentamento e a possibilidade de mudar de sigla durante participação no podcast Café com Ferri.
“Se eu ver que está sendo feita uma chapa em que eu não tenha controle, não tenha decisão, e que coloquem nomes completamente desconexos, vou entender isso como um convite para sair”, afirmou, ao descartar apoiar candidaturas desalinhadas do que chamou de “nossos princípios”.
Como a reportagem já mostrou, os movimentos para a filiação de deputados federais com mandato ao PL têm provocado reação interna. Parlamentares que já estão na sigla afirmam que as chegadas contrariam um acordo fechado no ano passado para prever o veto à entrada de mandatários egressos de outras agremiações. O receio é que chapas legislativas excessivamente “pesadas” reduzam as chances de reeleição de quem já está no partido.
O acordo para impedir a entrada de parlamentares com mandato foi selado em agosto. À época, o presidente estadual do partido, o deputado federal Domingos Sávio, afirmou que a decisão foi tomada por unanimidade entre os dirigentes mineiros, com prioridade para quadros internos — suplentes, vereadores, prefeitos e ex-prefeitos.
“Se aumenta muito a bancada, fica difícil montar a chapa”, disse, à ocasião.
A decisão, porém, dependia de aval da executiva nacional e do presidente do partido, Valdemar Costa Neto. Foi nesse ponto que, nos bastidores, o entendimento começou a ruir. Valdemar, inclusive, é favorável à filiação de Greyce Elias, hoje no Avante. Marcelo Freitas, vindo do União Brasil, também deve chegar com as bênçãos do cacique.
Segundo interlocutores envolvidos na montagem da chapa, mais da metade dos candidatos se posiciona contra o ingresso de deputados com mandato, sobretudo daqueles com faixa inferior de votação.
A avaliação interna é de que parlamentares vindos do chamado centrão chegam com vantagem competitiva após irrigarem suas bases com volumes mais elevados de emendas, beneficiados pela capacidade de negociação pontual com o governo federal, desequilibrando a disputa interna.
Porta aberta no Novo
As conversas entre Nikolas e o Novo não são recentes. A primeira sondagem do partido do governador Romeu Zema aconteceu em julho do ano passado. Na mesa, segundo relatos, estariam a garantia de poder de veto na formação das chapas proporcionais e autonomia para acomodar nomes próximos ao deputado — um desenho que, hoje, ele diz não enxergar no PL.
O que pensa a cúpula do PL
Na avaliação de interlocutores da direção nacional do PL, a vontade de Nikolas não será, necessariamente, determinante na condução das negociações eleitorais. Dirigentes têm dito que, independentemente das ressalvas do deputado, seu nome seguirá sendo usado como ativo central nas tratativas, pelo peso eleitoral que carrega.
Na última sexta-feira, o comentário interno era de que a chapa havia “fervido”, com Nikolas demonstrando irritação diante da pressão crescente e do que classifica como falta de consideração com suas posições.
Também circula um incômodo adicional: a percepção de que o deputado estaria se colocando como independente demais. O o argumento recorrente é que sua projeção política estaria diretamente ligada ao capital eleitoral do ex-presidente Jair Bolsonaro, o que, na leitura da cúpula, exigiria maior alinhamento.
